5.12.10

Mais ou menos tuiteiras

Altinha como estava, já já pisaria em ovos e não tardaria muito para ver-se frita.
Conheço um sujeito. É pouco. Também é mentira.
Passou o rodo. Criou um rolo. O chão, de um susto, molhou-se rubro.
Não é corrupto; o dízimo é caro.
Nenhum filme revela o que o cego desvê.

Só há uma maneira de passar a perna no ladrão: em visita íntima.
Se fosse pássaro, invejaria o voo terrestre dos homens.
Dou um pernilongo para não entrar na briga, mas não confio muito no método.
Abortaram as ideias na última campanha presidencial. Na frente das crianças.
Caco cafônico: Vivi viu a vida vil, todavia olvidou o que ouviu.
Mafiosa: vender a mãe ao irmão.
Música é um troço danado para nos manter presos ao passado.
Poesia é um troço danado para nos fazer perder a noção do tempo.
Alguns deixarão de ler um livro eletrônico por medo de choque.
Foi linda. Não é mais. O álbum com fotos antigas passou a fazer sala às visitas.
Foi forte. Não é mais. Bêbado, se acha.
O galo. O gato. O cachorro. O pombo. O rato. Domésticos.
A mulher. Os filhos. A faxineira. A síndica. Selvagens.
À deriva, vou feito barco. Sem mar ou rio.
Entrou num ambiente estranho. Abordou uma estranha. Estranhou a si mesmo.
Com quantos paus se faz uma garoa?
Vão-se os anéis, ficam os medos.
A situação da situação é não sair da situação numa situação dessas.
Quem morre do susto não sabe como é bom viver sem soluçar.
Nasceu. Cresceu. Procriou. Envelheceu. Ao fazer o balanço de tudo, concluiu: comeu poucas... empadas.
Não sei bem ao certo, mas o certo – bem, sei não – parece que não se sabe ao certo o que seja. 
Número de caracteres não é documento.

30.11.10

A PRIMEIRA LEITURA

(conto publicado em Contos de homem, livro de 1995)

Aos 18 anos?
Estou na boate escura. Na realidade estamos: Sabão e eu. Mas pouco conversamos, o som está muito alto e acabamos de fumar outro baseado. Estou naquela de chuvisco: uma gota de idéia aqui, um respingo da definitiva descoberta acolá, idas e vindas intermináveis. Daqui a pouco, quando a insônia bater forte, vou buscar o sono, lendo por acaso; e, por acaso, Dom Casmurro. Descobrirei semelhanças entre mim e o velho. Quando estou doido, viajo que minha gata, Luma, me trai, e tenho elementos para achar que não, mas concluo que sim, e me arrependo.
O que importa é que tenho 18 anos, é sábado, e tudo leva a mais um fino. Sabão está de saco cheio de ficar naquele antro barulhento, é assim que ele se refere à discoteca.
— Se a gente transasse umas minas por aí, levasse aí prum canto, armasse uma fogueira, pitasse mais um ou mil, tocasse uma viola e, bem, meu camarada, trocasse esse óleo sujo que acumula na gente ... Acho que estou fundindo, socorro!
Rio (aliás, riria mesmo se a proposta fosse o suicídio, o berro apontado para a própria cabeça). Corro ao telefone e ligo para Luma:
— Amor, não dá para ligar pra cá a essa hora. Cê conhece meu pai.
— Mas Lu, que tal dar uma fugida? Olha, vamos tocar um violão numa quebrada, apertar um, e sabe como é, né?
— Vá pra casa, cê já tá muito louco. Vá, por favor.
Sabão caçoa de mim. Diz que é muito cedo para ser fiel. E me aponta duas morenas mais do que disponíveis, bem ali, longe da tutela dos papais. Agimos. Já no carro com as garotas, tento acreditar que faço o melhor. Mantenho os olhos lá fora, nas calçadas. Um menino dorme embaixo da marquise da loja de carro. A noite está fria.
Não há tempo de acender a fogueira, nem de dedilhar uma música sequer daquele velho repertório. Sabão e a menina agarram-se no banco da frente. A outra, que está ao meu lado, abre o fecho ecler da minha calça, arranca de lá de dentro meu pau e cai de boca. Acendo o baseado que já está pronto e, enquanto ela chupa e chupa, dou tragadas cada vez mais fortes, mirando as estrelas. Esta é minha conclusão: o menino na calçada e as estrelas no céu são livres. Gozo boca adentro.
Em casa, a fome madrugadeira, sem igual. Na ordem: doce de pêssego, ovo frito, mexido, banana, refrigerante. Insônia (má digestão, acho óbvio, hoje). E Casmurro. Quando o sono enfim chegar, derrubará o livro sobre o meu rosto, e assim ficarei, imóvel, até o meio da tarde de amanhã.
Luma tenta-me convencer de que não há nada a ser feito pelo menino que dorme ao relento, sempre sob a marquise da loja de carros. No máximo, dar-lhe um cobertor.
— Menino, ô menino! Aí, ó, trouxe um cobertor pra você.
— Deixe aí perto do carrinho. Olhe, se tiver um finório pode deixar cair também.
Sabão e Luma me alertam para o perigo de transar as coisas com o garoto. Ele pode ser um olheiro, dedo-duro dos canas. E mudam de assunto. Mudam de tom. Planejamos, em instantes, a próxima noite. Será igual às de sempre: uns drinques, uns tecos, umas danças. Eu me recuso. À noite, sento- me com o garoto da marquise. Confeccionamos um e ficamos ali quietos como o quê. Passa um tempo, e ele enrola-se no cobertor e num relance adormece. Encosto-me na parede e cantarolo uma canção que nem eu mesmo sabia conhecer (aos 30 anos, saberei quem a compôs, quando foi gravada e terei uma sensação mais do que concreta de tê-la ouvido pela primeira vez pela voz de minha mãe). Em casa, Casmurro continuará sua lengalenga, que me entorpece. Mulheres, ter cuidado!

Eu e Sabão batemos com o carro. O erro foi nosso, sem dúvida. Na contramão, com teor alcoólico muito acima do permitido, carro com pneus carecas etc. e tal. Por sorte não tínhamos nenhuma maconha por perto. Por sorte também não nos machucamos gravemente. Ganhei uma meia dúzia de pontos, uma bronca em casa e uma ficha na polícia. Luma debochou do caso. Sabão, na manhã seguinte, já fazia troças, remedando o guarda, zarolho segundo ele. Tive uma sensação estranha vendo Sabão e Luma rindo-se de algo tão terrível para mim. Riam-se de mim. Ou, o que dava no mesmo, um ria para o outro.
Baco (o menino da marquise) não achou graça nenhuma na história da batida. Tampouco se mostrou preocupado ou curioso por mais fatos. Ofereceu-me um saco com cola.
— Onde cê tá, ô Maurício?
— Dentro de um relógio.
— Ih! Cacete, essa é nova.
— O ponteiro dos segundos é a faca e ta vindo pro meu lado, Bacolelé.
— Não sou essa porra, não. Sou autoridade. Sou sapato-branco. Tu tá preso, Maurício mauricinho.
— Eu tô é fugindo das horas. Eu tô numa de meio-dia e quatro horas. Eu tô é entardecendo.
 (Cena do filme "Os sonhadores" de Bernardo Bertolucci)
No banho, quando o pau sobe, o corpo de Luma parece estar ali mesmo diante de mim, mas vejo-o colado ao de Sabão. Abro os olhos, a imagem se desfaz, e outra logo a substitui. Em uma casa velha, colonial, um homem olha para a cria e não se vê nela, as feições são do outro. Minha mão, como se agisse espontaneamente, movimenta o pinto cada vez com mais força e pressa, e a porra bate no ladrilho, e o velho some de vista. Luma me beija com carinho, e passo-lhe o sabonete sincopadamente pelo corpo, com o carinho mais que querido, o de depois da foda.
Minha mãe bate à porta do banheiro, avisando-me que tem um pivete me chamando lá fora. Vou o mais rápido possível, e, quando cruzo a sala, ela pergunta: "Que amizades são essas?" Nem respondo.
— Baco, o que foi?
Ele não diz nada. Fita-me como se buscasse alguma coisa além dos meus olhos. Abaixa os seus e, antes que eu retorne à pergunta, ergue o rosto e deixa escapulir uma fina linha de lágrimas. E é tudo. Logo sai correndo, correndo, correndo ... sabe-se lá para onde.

O pai de Luma está na esquina de sua casa, no armazém, comprando umas cervejas. Quando me vê, pede que eu o ajude. Subimos a rua em total silêncio. Já na porta do sobrado, ele me diz "Seu amigo está ai." Na mesa da sala, jogam buraco, Luma e Sabão versus as irmãs de Luma. Vou à cozinha, coloco as bebidas na geladeira, ganho um quibe da empregada e sinto como se meu corpo acabasse de ser abalroado de dentro para fora, sangue, músculos, órgãos e ossos respondendo às ordens loucas de um cérebro idem. Não poderia ficar ali vigiando os olhares cúmplices dos parceiros de jogo, de cartas, ou algo além. Luma está Capitolina demais. Passo pela sala apressado:
— Volto depois!

— Baco, porra, cara, tô numa pior mesmo. Um amigo meu tá cheio de grilos, achando que a mulher dele tá metendo-lhe os chifres. Porra, até os filhinhos o cara agora não tem mais certeza se são dele. Seriam parece que do melhor amigo ou coisa assim. Eu fico meio desconfiado dessas histórias, mas parece que o homem tá certo. O que você acha? Quer um fino?
— Que merda de fino o quê? Ô mauricinho, eu não tenho o que comer, não, xará. Se pitar um, tô fodido. Cadê a geladeira pr'eu meter a mão e tirar uma fruta ou a droga de um copo de leite, cê tá vendo por aqui? Cai fora, encontra teu rumo, ô mané, vai lá comer a mulher do teu amigo, que o cara é um baita dum frouxo. Se fosse comigo, eu metia o pau e o sarrafo na vagabunda, nem sobrava o cadáver.
— lh, cara! Cê tá uma pilha. Da próxima vez que cê pintar lá em casa com aquele choro sem mais nem porquê, vou falar pra minha mãe te enxotar logo de lá, seu pivete. Sabia que ela te chama de pivete?
Baco tira de dentro do seu carrinho de mão uma xícara e uma garrafa velha. Entorna o líquido da garrafa na caneca, toma dois goles longos e me oferece. Programo-me para um gosto de café e engulo outro, sem igual; quase vomito, mas não, resisto. Sorvo mais uma talagada, deito na calçada e fico esperando a Lua transformar-se em queijo.

Dou por mim já em casa, deitado em minha cama, aparentemente limpo e tranqüilo. Não sei que dia é aquele. Levanto-me, vou à cozinha. Passando por mim, minha mãe faz tudo como sempre, um cafuné rápido na cabeça, um café simples na xícara, um gesto qualquer de bom-dia.

Sabão ao telefone:
— Maurício? Puxa, tô preocupado contigo. Em que buraco cê anda metido?
— Por certo cê já ocupou o buraco que era meu antes, né?
— Não entendi, bicho ... Me escuta. Tenho ouvido falar que cê tá pegando pesado com aquele pirralho. A gente sempre apertou um junto, meu compadre, mas pera lá, mais do que isto é fria. Tá todo o mundo preocupado. A Luma então ...
— A Luma. A Luma. Vá a merda, Sabão.

Amanhã faço 19 anos. Os dias perto do meu aniversário são sempre assim, escuros, prontos pra chover. Mas nunca chove. E eu sempre espero, sentado no quarto, sacando as nuvens, os trovões e os relâmpagos. Se chover, Baco decerto vai pra debaixo d'água, doido, muito doido mesmo, e vai cantar qualquer coisa e despir-se e agradecer. Baco há de reconhecer o tamanho de sua liberdade. Mas nunca chove por estes dias. Baco deve ter medo do vento. Esta constatação me alivia de algum modo.

Abro o presente que Luma me entrega, numa quebrada distante, reservada para os nossos grandes momentos. O disco que sonho há tanto e uma bela camisa branca. Olho para Luma e vejo de relance uma velha cigana, sentada no chão, ao lado de muitos tachos. Que olhar profundo! Ora me atraindo, ora me jogando para longe, num vaivém de espuma. Desfaço as imagens fantasiosas, agradecendo os presentes. Colo meu corpo ao de "minha velha Luma" — é assim que digo —, meto a mão voraz por entre os botões frágeis de sua blusa e descubro seus seios. A boca enfim encontra um sabor de sal não só ali, nos seios, mas em todo o corpo. No corpo que antes nunca foi meu por completo.
Meus braços e pernas, meu peito e minha barriga não querem nada além do descanso depois de Luma. Mas minha cabeça não pára. A mesma pergunta ecoa uma, mil, infinitas vezes na calada do pensamento: "Luma você é só minha?" "Luma você é só minha?" "Luma você é só minha?" E logo estalo em um choro escancarado. Meu velho amor puxa minha cabeça, repousando-a entre seus seios. Em seguida esquece o calor de seus dedos acalmando-me, repletos de sabedoria.
Chove. Baco deve estar no ápice de sua coreografia cinematográfica. E espero estar derretido o Sabão.

Vou da noitada direto ao encontro de Baco.
— Que olhos de ressaca, mano velho.
Dou um meio sorriso como se houvesse outra intenção nas palavras dele. Sem lhe responder, passo-lhe o pão e o refrigerante que trouxe de presente.
— Obrigado — diz ele.
— Não acabou, não.
Tiro do bolso o baseado. Fumamos. Ele começa a comer violentamente o lanche, e eu apenas observo o sol aparecendo aos poucos. Os dias que se seguem ao do meu aniversário sempre têm um sol sem igual. Mas neste ano tudo pode ser diferente.
— E aquele seu amigo? — ele puxa conversa.
— Qual? O Sabão?
— Sei lá, o corno.
— Está tudo bem. Era paranóia do cara.
— Fumaça é sempre cria do fogo, mauricinho. Manda ele abrir o olho e fechar as pernas da piranha.
Baco ri absurdamente alto. Ri, ri e ri mais ainda. Caio fora.

Resisto acordado ainda, por toda a manhã. Passeio assim sem compromisso, de um lado para o outro. Namoro vitrines, mexo com algumas meninas, escondo-me de algum conhecido. Não tenho como evitar, todavia, o Gélio. Ele vem por trás e me dá um susto. Depois coloca as mãos sobre o meu ombro, mira-me severamente e começa uma pequena conversa cheia de segundas intenções.
— O que há, Gélio? Aonde você quer chegar?
— Você precisa tomar um jeito. Tá ficando ruim pra você. Ontem mesmo...
— Porra, eu não tô entendendo nada.
— Tá legal, já vou te dizer. Vou te dizer porque sou teu amigo. Tua mulher ... eu a vi beijando outro cara.
— O Sabão?!
Não espero a confirmação, disparo ruas afora, rumo à casa de Luma. Nem ela está, nem o Sabão está na casa dele.

Minha mãe me olha entre nervosa, aliviada e surpresa.
— Dê uma espiada na tua cara, Maurício. Que traste! Você está numa estrada muito perigosa, meu filho, e eu nem sei como ajudá-Io.
De fato, no espelho do banheiro, vejo como meu rosto está sujo, como estou sujo. Parece que o pó grudou em mim como as letras grudam no papel. Mas sem poesia.

A leitura me faz mal, é isso. O tal Casmurro me confunde. Se ele é ou não corno, problema dele. Eu não sou. Luma foi minha de forma intensa, sem falsidade. Queimo este livro de merda e saio disposto a acertar as contas com Gélio, o mestre da intriga barata.

Aos 19 anos, toda dor é intensa e (aparentemente) passageira. Luma me convenceu de que Gélio mentia. Meu velho amor me abraçou, me deu seu corpo, sem nenhuma exigência, agradecida por ser nela que meu gozo explodia. Depois me levou ao encontro de Sabão, contou-Ihe tudo. De meu amigo nasceu um sorriso sincero, expressão de seu contentamento em ter-me ali, por perto novamente.
Quando mais tarde eu e Sabão andávamos à toa pela cidade, ele me disse que em uma coisa Gélio tinha razão: Luma estava agora quase sempre sozinha, eu lá metido com o garoto da rua.
— Baco é o nome dele, Sabão.
— Eu sei.
— E por que não diz?
— ,,,
Sabão abraçou-me e assim continuamos andando, até a porta do primeiro bar. Pedimos uma cerveja. Seguiram-se outras, um punhado delas. Falamos ainda um pouco sobre nossa amizade, lembramos nossas façanhas, e daí a pouco fazíamos planos, eu contava então minhas viagens com cola de sapateiro, com chá de cogumelo; ele dizia da mulher gostosa que estava comendo, de como ela pedia que a enchesse de porrada.
— Vamos lá para você conhecer o Baco?
— Quem? Ah! O Baco. Ok.

Baco estava absolutamente fora de controle. Chutava o carrinho de mão, xingava, fazia gestos obscenos. No princípio, ignorou-nos; depois, fincando-nos seus olhos raivosos, a boca espumando, veio em nossa direção, quebrou a garrafa que tinha na mão e ameaçou-nos. Sabão reagiu, meteu o pé na mão de Baco, a arma caiu longe. Sabão continuou, dava socos no rosto de Baco, acertou os sacos de Baco. (Eu só olhando, parado.) Bateu mais, Baco caiu. Sabão chutou a cabeça de Baco. (Eu só olhando, parado.) Sabão fincou-lhe o pé na boca do estômago, o sangue explodiu pela boca, pelas narinas. (Eu só olhando, parado.). Baco morreu ali mesmo, transparente. (Eu só olhando, parado.)

Dormi, à custa de sedativos, uns dois ou três dias. Quando acordei, não quis saber de nada, preferi o silêncio. Só mais tarde pedi que Luma me viesse ver. Tentei beijá-Ia, não com desejo. Tentei abraçá-Ia, não com ternura. Eram os meios que eu tinha de transmitir minha dor. Ela recusou-me. Alisou meus cabelos e sugeriu que eu continuasse a descansar.
Antes de atravessar a porta do meu quarto, voltou-se para mim. Sem demonstrar temor ou qualquer outro sentimento, Luma falou:
— Estou esperando um filho do Sabão.

Não sei se hoje teria forças para agir como então. Julguei que já era tempo de deixar o quarto, de sair para a rua, de recuperar o gosto pela vida. Andei um pouco pela cidade, reconhecendo-a. No final do dia, entrei na livraria e comprei Dom Casmurro. Poderia, agora, lê-lo até o final, sem comparações, sem medo.

9.11.10

Pensando no livro eletrônico

Os livros tradicionais e eu temos uma relação segura. Graças a ela, leio sem medo de dormir, pois, se isso acontece, os livros caem sobre o meu rosto e não me machucam. Caem no chão e não se quebram. Se um dia vier a ter um eletrônico, a relação terá de ser outra, no mínimo nesse chão onde estão situados a leitura e o sono incontrolável.

(ilustração retirada de http://blogdebabel.com.br)


Acrescento: onde serão firmados os autógrafos nos livros eletrônicos? Haverá noites de autógrafo? Por mais práticos que possam ser e, pelo que imagino, são, os livros eletrônicos inibem a proximidade física entre escritor e leitor. Sim, haverá os cafés literários, as leituras públicas, mas os lançamentos de livro reúnem uma plateia distinta, pois ali vão pessoas que nem sempre gostam de livros; vão porque conhecem o escritor, porque, passando pela livraria, resolveram entrar ao ver aquele amontoado de gente tendo à mão cálice de vinho e torrada besuntada de pastinha. É uma chance para ganhar outro leitor. Não necessariamente para aquele escritor em particular, mas para alguns.
A grande vantagem que vejo no livro eletrônico é sua possibilidade de interação imediata. Seja pelo fato de haver um dicionário acoplado a ele, seja pelo  fato de, num clique, poder fazer uma consulta na grande rede (pelo que me falam isso ainda não está amplamente disponível nos existentes no mercado). Isso sim é um salto e tanto. Claro que o leitor ativo está sempre indo aos dicionários e fazendo consultas, na rede ou noutros livros. Mas que facilita ter tudo à mão, facilita. Sabe aquela leitura que se faz na cama? Pois é, quantas vezes não engolimos uma palavra desconhecida por preguiça de levantar para buscar o dicionário, normalmente livrão pesado? O risco que essa facilidade traz é o de o leitor com tudo a um clique contentar-se com as generalidades postadas nas wikipedias da vida. Mas isso é outra questão.
O livro eletrônico abre uma possibilidade imensa de chegar a uma nova arte, algo entre a literatura e o cinema. Ali estarão as palavras, mas facilmente podem-se adicionar a elas imagens. Não, não digo um adicionamento puro e simples, pois pensa que coisa estranha: você faz pela primeira vez a leitura de “Grande Sertão: Veredas” e um atalho no nome Diadorim dá-lhe uma cena da minissérie que a Rede Globo fez no passado. Ora, isso nada mais é do que dar a Diadorim o rosto (um pouco sujo) da Bruna Lombardi. Nada contra a Bruna, nada contra o programa, que, se bem me lembro, era ótimo, mas um leitor livre de associações prévias fará uma leitura mais rica. Logo, a nova arte não terá nem as palavras nem as imagens como protagonistas, serão ambas peça principal em algo que há de vir. Deus queira.
Aposto que as produções científica e didática estarão, em breve, principalmente em livros eletrônicos, haja vista que as possibilidades de interação abertas por eles caem como uma pluma na escrita pedagógica ou científica. Será maravilhoso ver, em 3D e com movimento até, a estrutura de uma célula, uma sequência de DNA, os detalhes de um órgão humano, ou um gráfico com três dimensões. E, ainda, clicar nas notas de rodapé de um livro e ter o livro citado para conferir a citação ou aprender mais sobre determinado detalhe. (Não devemos esquecer que a empresa dona do Google vem digitalizando livros aos montes). Abre-se o mundo!
A literatura, por seu turno, exige reclusão, o que pode não combinar muito com o controle remoto que são os links sugeridos por um texto. Na grande rede, por exemplo, não consigo ler muita coisa. Entro num site e logo saio levado pelos links que ele indica. Isso bem pode ser coisa de homem, já que somos loucos por controles remotos, não por eles mesmos, mas por nos deixarem saltar de um canal para outro ininterruptamente — ou até encontrarmos algum jogo de futebol. Uma boa leitura não combina com esse desapego facilitado pelos links e controles remotos, disso estou seguro.
Enfim, estamos num momento de transição. No fim, o livro continuará existindo, ainda que sua indústria mude. O livro eletrônico terá um lugar garantido também. E, se tudo der certo, uma nova arte surgirá por aí. É só esperar.

10.10.10

A Branca Mau e os sete Porquinhos - crônica de Pedro Werneck Brandão



Um dia, Chapeuzinho Vermelho encontrou os três porquinhos, a Branca de Neve, os sete anões e o Lobo Mau. Eles queriam aparecer juntos numa história.
Sabendo da idéia da história juntos, o Lobo Mau disse:
- Só aceito esta ideia, se eu comer os três porquinhos!

Ninguém concordou, óbvio, mas teve uma coisa estranha. Não ouviram a voz dos três porquinhos falando que não concordavam, então olharam pra um lado e pro outro pois, claro, eles teriam falado que não, já que não queriam ser alimento de lobo. Depois de olharem para os lados, Chapeuzinho declarou:
- Eles fugiram! Vamos procurá-los! Foi unânime a aceitação da ideia de procurá-los. Mas cada um com um motivo: Chapeuzinho: porque queria muito fazer a história com todos eles juntos. Lobo Mau: queria que eles fossem seu jantar, desse você já sabia, não é? Os sete anões: achavam que eles eram anões também, e vai saber o porquê disso. E a Branca de Neve: achava eles  fofos, então concordou com a ideia de juntar os porcos a ela como se fossem anões.
E lá foram eles procurar, entraram em tudo quanto é lugar e, claro, o Lobo também, soprando tudo, obviamente já com garfo e faca na mão. Depois de uma hora, acharam os três cheios de lama para o Lobo desistir da ideia.
Depois do encontro discutiram sobre como seria a tal história  por muito tempo e Chapeuzinho, espertamente, disse:
- Vocês não acham que depois de toda essa procura aos porcos e tudo isso já não fizemos uma história.
- Verdade - disseram todos ao mesmo tempo.


FIM

Pedro Werneck Brandão tem 10 anos, é  aluno do quinto ano da Escola Sá Pereira.

A atividade proposta pela Professora de Língua Portuguesa, Flávia Lobão, consistiu em escrever, em sala de aula, a partir de uma frase sorteada da “Fábrica de Histórias para Crianças” (cartas como as de um baralho com propostas de textos) um texto em gênero livre.
O segundo momento foi um troca-troca de histórias quando puderam fazer a leitura e apreciação do texto do colega no que diz respeito aos aspectos linguísticos, textuais, gramaticais, assim como aos discursivos, autorais. Apreciaram, discutiram, trouxeram sugestões, fizeram elogios, corrigiram! Os autores contaram com essa riqueza de observações, de diálogo e puderam, assim, rever ou mesmo reescrever passagens das histórias que, depois, foram lidas para todos.

Para sair das sinucas de bico que a vida dá

Se seu amor tem um bafo daqueles, escreva-lhe assim: “Pedacinho de céu, o alho não é tudo na vida. Bom pra saúde, péssimo pro amor. No caso do nosso, nem lhe digo, com ele o bulbo acabou.”
O agiota pareceu um sujeito simpático quando, no dia D, você disse que estava liso, precisando de prazo maior para quitar a dívida. No segundo adiamento, o danado bateu em suas costas, deixou-o à vontade, que não se preocupasse. Como você não nasceu hoje, percebeu logo que tamanha bondade não daria em boa coisa. Como o medo é sábio! Sua reflexão de covarde é sabedoria em estado puro. Nada de descolar o dinheiro, todavia. E aí? Suicídio nem pensar. Tampouco assassinato. Não é hora de remorso, arrependimento não se troca por moeda em mercado. Então... Sr. Endividado, dispare rua afora. Tome a Dutra, quebre em Lavrinhas, suba a serra, entre em Passa Quatro. Contam que os habitantes de lá são mestres na arte do disfarce. Filho da terra teria enganado o Dops na época da repressão e virado, anos depois, homem poderoso na República. Nessa que aí está. Isso, entretanto, são outros quinhentos, e de quinhentos, na realidade, de falta de quinhentos seu inferno está cheio. Corre, bobo, corre, ou o agiota, ó, cafunga no seu cangote e baba no seu cadáver.
Nunca minta, mesmo quando a mentira puder tirá-lo de situação embaraçosa. Esqueceu o aniversário da cara-metade, não telefonou no Dia dos Pais ou no das Mães, não foi à apresentação da criança no balé, ora, quando vierem alugar seu pobre ouvido, mande na bucha: “Poxa, gente, sou um só.” Se faz sentido ou se aceitarão sua resposta, não sei, mas é a melhor desculpa disponível e não é mentira, não é mesmo. Isso me faz lembrar um amigo. Quando pintava uma cerveja não planejada depois do trabalho, todo mundo corria para avisar a esposa ou o marido por telefone, menos ele. Além de não se mexer, ainda caçoava dos outros: “A bronca é inevitável, logo, melhor levar uma só depois da diversão.”
De repente, você se encontra num ambiente decente. Almoço de prata e cristal; hábito de licor e charuto. Voz baixa como tom. Olhares discretos como norma. Música de câmara. Você sempre foi reconhecido como um sujeito que sabe quebrar formalidades. Contam de suas tiradas no tempo do colégio, no trabalho, no trânsito. Hora de fazer uso desse talento. Mas não parece ser seu dia. Sua piada sexista — ou um pouco antissemita, ou que abusa do preconceito contra portugueses e anões — é recebida com frieza para dizer o mínimo. O ambiente, impecavelmente limpo, torna-se pesado, muito pesado. Amigo, corra todos os riscos: arrote. Em salões dessa estirpe, sempre existem uma velhinha, um velhinho ou uma criança que se amarram em escatologias, quer dizer, de algumas, não exagere. Se rirem, pronto! 
Seus candidatos estão quase lá. Um pouco mais de dedicação à campanha na etapa final, e você sai vitorioso. Você, sim, claro. Pois seu voto expressa suas ideias e ideais de país, e aquele presidente, aquele senador ou aquele deputado são a personificação de tudo o que você pensa. Maravilhoso! Um único porém: numa roda de chope, passados não mais do que dois meses da eleição, um de seus amigos lhe perguntará: “Votaste em quem, mano?” Aplicaram-lhe uma rasteira. Até mesmo o voto ao cargo republicano máximo não estará mais claro em sua cabeça. Bicho, faça como minha tia: aos 95 anos de idade, não tendo nenhum dano sério em sua memória, vez ou outra escapa-lhe o nome de alguém. O que ela faz? Pergunta se a pessoa não tem um apelido, no que recebe de bandeja o nome esquecido — pois numa situação assim, o natural é responder: “Nunca tive apelidos, sempre fui Alexandre”. Como usar a tática de minha tia? Ora, encare o chato do seu amigo e pergunte-lhe se ele não tem mãe. O que acabo de dizer não tem nada a ver com a “saída” à moda de minha tia? Também quem mandou você ser um democrata festivo? Sinuca de bico é sinuca de bico, só os craques escapam de uma. Às vezes, nem eles.

21.9.10

Num momento assim

Alexandre Brandão/set.2010


Ao sair do eixo
Feito um pato sem plumas diante do espelho
Ou, diante do mesmo espelho, o espelho da alma de um gato triste

A memória caçoa do desejo —
Esse que escreve descolorido
Em pergaminho que não guarda segredos.

E eu me pergunto:

Quem costura a pronúncia da dor?
Quem limpa o dejeto da beleza?


O braço à espera da morfina
O rosto envergonhado do sem-vergonha
A nostalgia rasteira dos confusos
    ou aquele por trás disso.

O verbo incapaz
A frase não dita
O pôr do sol depois do sol posto
    ou o que é avesso a tudo isso.

Quem?

12.9.10

Hei, Amy!



Manhã chuvosa. Trabalho à espera. Mãos prontas para obedecer o cérebro. Tudo em ordem para dar o suor ao Brasil. Oxalá!
Uma música, penso, não atrapalhará em nada meu desempenho, não fico menos produtivo com isso. Coloco  “Will You Still Love Me Tomorrow”, com Amy Winehouse.
...

Parem as máquinas. Silêncio nesse mar de baias. Que ninguém se levante pra tomar café; que ninguém converse, ainda que a tarefa exija. Silêncio!, repito.
Amy se droga demais, sabe-se lá com que tipo de coisa. Ela se mete em encrencas a toda hora: pelejas físicas com o namorado, escândalos em locais públicos, cano nos shows.
Amy, oh, Amy! O que há, garota?
Dói tanto assim, a ponto de a anestesia ser tão ou mais importante que o ar? Será que não dá pra diminuir um pouco os decibéis de seus bodes? Sei lá, liga pros “meninos” do Rolling Stones, pede uma receita. Não, não estou falando de uma nova droga, mas procure saber como conciliar doideira com longevidade, pois precisamos e precisaremos de sua arte para percorrer os quilômetros e mais quilômetros de vida que nos faltam.
Menina, farejo tanta maldade no pessoal do show business. Acho que os caras gostam das tragédias pessoais; elas, de alguma forma, animam os lucros — deles. Portanto, vão estimular seu circo, não tenha dúvida. Em algum momento, no entanto, seus escândalos, suas prisões e seus internamentos, Amy, podem inibir os tais lucros, ou mesmo manchar de vermelho a contabilidade. Nessa hora, todos lhe darão bye, bye. Pode ser que você tenha de se mudar de corpo e alma para uma sarjeta, hoje seu cantinho esporádico num final de farra.
Minha memória dá um salto e constato: como você se parece com a Viviane, uma menina do meu círculo de amizades na adolescência. Ela, como você, era doida — e bota doida nisso. O que terá sido feito da Viviane? Você não é a Viviane, é, Amy? Se for, baby, por que você não cantou em nossas rodas ao redor de fogueiras, quando consumíamos os primeiros drinques e uns poucos baseados? A Vivi só nos deu trabalho com seus desfalecimentos. Tivesse nos dado música... quem sabe a vida não teria sido diferente para todos, melhor até.
Pense, Amy, nos cinquentões que, com seu aparecimento, esqueceram um pouco seus Pink Floyd, Yes e Led Zeppelin da vida. Pense em como você embala as pessoas da China, as de Portugal, as do Brasil. Faça aquilo que sua condição humana pede, mas abre o olho, não entre no jogo dos donos do espetáculo. Permaneça. Isso: permaneça.
Amy, quando você cantar novamente “Will You Still Love Me Tomorrow”, olhe ou pense em mim e não me deixe morrer.
(Trabalhar depois de Amy foi um suplício. Acho melhor descontarem o dia no meu contracheque.)

6.9.10

Sorteio de livros

O blog Sobrecapa está promovendo o sorteio de 4 livros, entre eles "A câmera e a pena" e  “Amores vagos”. São três chances. Corra lá e boa sorte.
A promoção fica no ar até o dia 17 de setembro.

19.8.10

Agrado Passense

Minha conterrânea, a jornalista Vera Pagliuso (quem quiser acompanhá-la, inclusive em programa de rádio, clique aqui), faz um agrado nesse hominho aqui, que vive no osso. Vejam a matéria e digam se não tenho de estar feliz com uma coisa dessas. Obrigado, Vera.

6.8.10

Musical Variado

Para Rick Bell, Sabão e Tacilinho


Blues


Quando sair de cena, minha senhora, não esqueça no varal suas roupas íntimas nem no lençol seu cheiro de maçã.


Esqueça de vez a primeira e a última palavras que trocamos. As contas penduradas e as noites maldormidas em madrugadas de filmes ruins faça de conta que nunca existiram.

Deixe valer seu charme na próxima esquina. Ou explore a força de suas pernas e ponha-se a correr ladeira abaixo, sem olhar pra trás, sem olhar pro lado, sem se dar pelos perigos.

Não me escreva correios eletrônicos ou correios elegantes em noites juninas. Não telefone ao cair da tarde ou no auge de pileques de bebidas baratas.

Gaste seu dinheiro, mulher, moça e menina, em bacanais assexuados e jogos de azar. Não invista.

Todo sol é princípio de escuridão.

Jazz

O silêncio tem amizades suspeitas. Nos anos de chumbo, amasiou-se com o medo. Juntos improvisaram escuridões. Resistentes, poetas cantaram assim mesmo. Bill Evans, alheio a tudo isso, passou ao largo em solos lunares.

Anônimo, um menino do interior das nuanças tropeçou num desses solos e soprou a Chet Baker um sustenido de amor. Foi a gota fértil que faltava para tudo tomar outro rumo, no qual o silêncio não se furtou de fazer das suas, aconchegando-se à alegria num bebop febril.

Valsa

Não somos de soma.

Não somos quadrados.

Somos quem abraça o outro no calor das notas suaves.

Vamos pra lá e pra cá levados pelo vento.

Sabemos o alfabeto do corpo em movimento e sonhamos requebrar em praça pública.

Tango (trecho do poema Tangos de cera)

O homem do lado cheira a fracasso/ O homem no bar bebe o gargalo/ O dono do bar tem tanta grana/ E nenhum amor:/ Nunca comeu arroz doce/ Tapioca ou banana com canela.

O mundo é do ontem/ Do desencontro/ Do lodo.

Sinistros dias que conceberam a ilusão/  Não lustro sapatos para refletirem calcinhas/ Não sujo sapatos para insinuarem histórias.

Os  cegos  de  Sábato  têm  a  visão  do  bandoneon/ Os coelhos de Cortázar reproduzem-se com o esperma do bandoneon.

O conjunto faz o intervalo/ Uma lâmina traça outro pulso.

Outros, inclusive e principalmente o rock

O salão oval gosta de receber os que, sem ritmo, dançam conforme a música que não foi nem será tocada. 

1.8.10

Um novo projeto

Se você está passando por aqui meio por acaso, sugiro-lhe fortemente dar uma fugida até o Estilingues. Lá está descrito um projeto bacana no qual eu e minhas amigas Cristina, Marilena, Miriam, Nilma, Sonia e Vânia estamos metidos. Queríamos comemorar o aniversário de nosso encontro literário (quase 25 anos) e decidimos, para isso, conceber um projeto que possa ser um sopro leve no sentido de estimular a leitura no Brasil.

Até lá.

12.7.10

Ontôje: uma crônica mercantil



           


Sou do tempo em que meu primo, Zecão, vendia de porta em porta o leite fresquinho da roça. Chegava com sua camioneta, estacionava nalgum ponto estratégico da rua e buzinava. As pessoas acudiam o chamado com vasilhame na mão, prontas para pegar um, dois litros. Nada de dinheiro, pagamento só depois, no final do mês. De volta a casa, fervia-se o leite bom, gordo, e com ele, às vezes pelando e amorenado com açúcar queimado, enchiam a pança da meninada. Também se preparava o doce de leite, o arroz doce, até queijo se fazia. Sou do tempo em que as casas eram manufatoras.


Sou do tempo em que tudo era pecado. Os campos e as cidades estavam cheios de seus frutos. Eu era um deles, você também, ou seus pais e avós, dependendo de sua idade. Sorte que, na minha cidade, havia um padre, o Jaime, que aliviava nossas penitências nos casos de roubos de frutas e de uma ou outra mentira inconsequente. Padre Jaime acabaria por largar a batina agarrando-se a uma saia sob a qual uma moça bem ajeitada não se escondia. Pecador? Na época, sim, hoje, com o que se anda fazendo por aí nas barbas de Deus, muitas vezes em seu nome, Padre Jaime seria um homem digno; o que, de fato, ele era. Me excedi, deixemos Padre Jaime em paz.




Sou do tempo em que se pedia para namorar hoje e só se tinha a resposta uma semana depois. Pegar na mão, era um protocolo, custava um mês. Beijar, dois. Transar, uma vida. Aprendíamos, com a experiência, que uma vida era um tempo grande, mas finito. Alguns convertiam essa medida pouco rigorosa: uma vida igual a dois meses, três, dependendo da lábia e dos lábios. Sou do tempo de grandes segredos.
Sou do tempo em que não se tinha jogo eletrônico. À toa pela cidade, medíamos as ruas em número de pisadas. Ida e volta. Íamos sem medo, com os olhos nas vitrines e nas pessoas; do mesmo modo voltávamos. Sou do tempo em que apelidos não eram apelidados de nick e bastavam por si, sem que fosse preciso seu complemento atual, a senha.
Éramos desportistas. Para ser mais exato, peladeiros de plantão. No surgimento dos primeiros fios de barba, os amistosos tornavam-se disputa de vida e morte, cabendo ao morto o pagamento das cervejas tomadas até morrer pelos vivos. A partir da primeira aposta, as cervejas passariam a ser o atrativo principal — gol pra quê? De qualquer forma, jogávamos, quando jogávamos, quase tudo: futebol, basquete, handebol... O vôlei tinha má fama: era coisa de mulher ou de invertido. Invertido era a palavra mais branda que se usava para falar dos homossexuais.
No meu tempo não conhecíamos a palavra homossexual. Não éramos, para o bem e para o mal, politicamente corretos. O conceito “politicamente correto” nem existia, o que não me impede de dizer que erramos ao ser tão descaradamente preconceituosos. Éramos, e nesse ponto o mundo e nós melhoramos.
Aonde quero chegar? Quero chamar sua atenção, leitor jovem, caso haja algum, para o fato de que meu tempo era em quase tudo melhor que o seu. Compare. Atualmente, a violência; antigamente, a tranquilidade. Agora, funk com suas cachorras; antes, música lenta para se dançar colado com a gata. Contra o mundo cibernético do presente, o peripatético e saudável do passado. Hoje, transparência excessiva; ontem, obscuridade sutil.
Não estou certo? Então, agora escute minha proposta: fico com o caos contemporâneo e todas as suas mazelas; em troca você fica com o mar de rosas de antanho. Extensão lógica: fico com a sua idade, você com a minha.
Permuta olho no olho, olho por olho, sem devo ou deve.
Fechado?

11.6.10

Dois assuntos da hora


Primeiro



Chovo no molhado (expressão inapropriada) ao dizer que o outono nos brinda com os dias mais lindos do ano. O céu é limpo, de um azul absoluto. Os fins de tarde inauguram a noite com todas as pompas que ela merece. Mesmo aqui no Rio de Janeiro, terra quente, a temperatura torna-se branda, agradabilíssima.
Não fosse o fato de a velha do “João e Maria“ ter fugido das páginas do livro, comprado um apartamento em Ipanema e passado a torturar uma criança, justo aquela para a qual o mundo oferecido era de fato a casa de chocolate.
Não fosse o fato de as gigogas terem tomado, mais uma vez, a Lagoa da Tijuca, evidenciando assim que o meio ambiente continua a ser tratado depois de ferido.
E o que mais?
O fato de Gabeira ter de fazer um esforço medonho para não perder a face ao entrar no bloco dos mascarados, no qual pulam parados os donos do poder.
E também o voto do ministro Eros Grau segundo o qual ninguém fala mais da tortura cometida nos anos de chumbo. Página virada.
Maria Rita Kehl, no Estadão, nos mostrou, com a história do suposto gatuno de bicicleta (Eduardo Pinheiro dos Santos), torturado e morto por policiais paulistas, que a violência do Estado continua sendo servida fria e com maus bofes à população. Agora não mais aos politicamente resistentes, mas sim, e como sempre, aos pobres, os física e psicologicamente resistentes. Ao aliviar o torturador de ontem, anistia-se o de hoje e, por conseguinte, o de amanhã também?
Não fossem essas nuvens, poderíamos receber a beleza do outono como o carinho mais suave feito por Deus.

Segundo

Dunga, o Brasil agora é o senhor, gostemos ou não. Sejamos ou não apaixonados por futebol. O Brasil é o senhor, do senhor, para o senhor. Não me venha com o papo de que faz parte de uma equipe, de que não podem ser esquecidos os 23 jogadores, o massagista, o roupeiro, o médico, os cartolas, a CBF; sem contar os adversários com sua força própria. O ônus do cargo é do senhor, pronto e acabou. Perdemos, a culpa é sua. Ganhamos, o talento é nosso, inato.
Apesar dessa posse temporária do Brasil, o senhor deve levar em consideração a opinião dos 199.999.975 treinadores que esse país de 200.000.000 de habitantes tem (subtraí o senhor, seu assistente e os 23 atletas). Temos diretrizes, filosofias, na realidade, um punhado de generalidades para guiar sua conduta. Muitas o senhor contrariou já na convocação. De todo jeito, sobram outras. Falo delas. Trate de segui-las de agora em diante, é a nossa chance; é a sua sorte.
Para usar uma imagem pertinente à crônica: queremos ser campeões sem que nossos atletas torturem a bola. E sem que a bola torture nossos meninos —  hoje ricos, mas que, como sabemos, vieram de baixo, às vezes de muito baixo. De certo, antes da fama, levaram cacetes por aí, o que não seria preciso, a pobreza em si é uma tortura, a pior delas (sei disso, senhor Dunga, sem nunca ter sido pobre).
Seu grupo está formado, mas na escalação dos titulares escolha os jogadores risonhos, os atrevidos, os leves e, por fim, os que tentam fugir da concentração (ainda que não consigam, pois o senhor anuncia-se como um disciplinador) — estes, usando uma segunda imagem inapropriada, roubada de Brecht, são os imprevisíveis.
Há na sua convocação uns dois ou três muito parecidos com o Dunga jogador; use-os para a conversa, para a sinuquinha na folga, nunca colocando em campo dois ao mesmo tempo, nem no desespero, quando se quer fechar a defesa. Aliás, se for preciso fechar a defesa, sugerimos a velha tática de abrir a defesa dos joões adversários. A melhor defesa... não completo a frase para não chover no molhado (imagem repetida, mas finalmente apropriada).