31.12.12

Duas faces da honra


Não fui adolescente de briga. Meus amigos eram e, até hoje, se orgulham disso, defendem que nossa turma era a melhor de todas no quesito tapas e pontapés. Não era um deles nesse aspecto, briguei uma única vez, assim mesmo o que houve, no escuro da boate, foram duas tentativas de socos de ambos os lados. Eu estava certamente embriagado, devo desculpas ao meu oponente, que, aliás, não sei quem era, apesar de saber por quem eu armara toda aquela confusão.
Antes de entrar na adolescência, aí sim, tive uns ataques de valentia. Certa vez, lá no Beco, mandei enfileirar os meninos e enfrentei um de cada vez. Noutra ocasião, num arranca-rabo com um dos meus melhores amigos, fui dar-lhe um chute, ele segurou meu pé e me derrubou no chão. (Com esse tombo, ruiu meu pendor de lutador de rua.)
Depois da queda, certo de que era um homem, ainda que não passasse de um projeto de homem, exigi, do alto da minha honra, que meu amigo que me aplicara aquele maldito golpe nunca mais dissesse meu nome; eu não diria mais o dele. No outro dia, continuamos com a nossa velha camaradagem, apesar de adotarmos um genérico Zé para nomear um ao outro. Há muito tempo não o vejo, mas ainda hoje penso nele como Zé.
A honra. Que estupidez! Por ela, criam-se segredos absurdos e fica-se preso a uma desavença de infância. Há aqueles que vão além: matam a mulher que não admitiu ficar presa à insatisfação ou o vizinho abusado que fez fiufiu para a filha adolescente do assassino.
Alguns dos Chicos

Além do amigo que virou Zé, a vida me ofereceu outros Franciscos. De cara, nasci ao lado de alguns deles. Meu tio Chico. O primo Chiquinho. Depois, noutros paralelos, Chicos artistas, curtidos de longe. Recentemente, o Francisco Mendes, escritor lá de Belo Horizonte. Houve outro Mendes, o seringueiro símbolo da luta a favor do meio ambiente. Ah, sim, e o Chico Lopes, fazendeiro amigo de meu pai e pai do Armandinho. Não me esqueço do meu melhor professor de economia, Chico Lopes também. Sim, ele mesmo, o ex-presidente do Banco Central que se meteu num escândalo de tráfico de interesse, isso que sói acontecer com alguma frequência em nossa terra tropical. A lembrança do mestre me faz pensar num outro sentido da honra.
Quando falo honra, também estou dizendo lisura ou, mais diretamente, idoneidade. O mundo do dinheiro não raramente é comparado à vida selvagem. Uns devoram outros. Devoram-se porque têm fome de grana, de mais grana, de grana até não poder mais. Nessa luta, se falta lisura, se falta honra, os golpes baixos são a regra; e a barriga dos famintos por dinheiro não enche nunca. Falo dos esfomeados que são uma espécie de tigre de pança sem fundo, obrigados, por isso, a caçar sem trégua. Num mundo assim, o golpe baixo é a regra. Nós, os que nos saciamos com pouco, ficamos espantados. Eles, os tigres insaciáveis, não estão nem aí para o nosso espanto.
A honra, lei sem letra, mantém um compromisso apenas apalavrado. É esse sentido de honra, não aquele fútil do homem que não esquece a briguinha de infância, que falta na selva onde se comem os que almejam a riqueza a qualquer custo. E isso tem feito um estrago tremendo no Brasil que engatinha na democracia.

10.12.12

Olhando para dois lados


O de dentro

Como dar nó numa onda ruim? Nunca surfei, não tenho nem resposta nem metáfora para usar aqui. Assim, o que posso dizer é que o acaso faz das suas.
Situo-os. Dois amigos meus estão passando por problemas de saúde. Estão melhorando, graças à medicina que, realmente, é fantástica, apesar de nos assustar com seus métodos às vezes bárbaros. Não vou falar de medicina, foi só um comentário. O fato é que dor de amigo nos deixa prostrados. Meus amigos hoje são avós, são pais, logo, ao redor deles, há toda uma rede de dependências, no mínimo afetivas, e a doença seciona-a, pelo menos enquanto tudo fica em suspenso, à espera.
Nesse contexto, dia desses, tomei o ônibus de todos os dias. Nele, cumpri meu ritual: sentar, de prefência à janela, colocar a mochila sobre as pernas, abri-la e tirar lá de dentro a leitura do dia; depois, claro, ler até a hora de descer na Lapa, a dois quarteirões do trabalho. Enquanto me acomodava, meus olhos foram espiar a rua. Lá estava ele. Reconheci-o de longe, enquanto caminhava em direção ao sinal em que meu ônibus estava retido. Usava sua touca branca. Quando se aproximou bastante do ônibus, confirmei, era o Egberto Gismonti. Numa rua de Botafogo, transeunte comum, um de nós. No entanto, era Egberto, o Gismonti. Moço do Carmo, que desceu a serra e, graças à música, é do mundo.
Esse foi o acaso que me confortou. Alguém achará estranho a imagem distante de uma pessoa poder confortar outra. No meu caso, confortou. Quer dizer, o que me confortou, de fato, não foi a imagem, apesar de a figura de Gismonti inspirar certa tranquilidade. Há algo de magia nele. O que me deu alento foi a música que minha memória resgatou e, mais do que isso, foi a lembrança de algumas situações ao longo da vida em que duas gotas da música gismontiana deram-me tranquilidade e discernimento para suportar os maus momentos. Gismonti, a música dele, me põe nos eixos. Vê-lo, lembrar-me de sua música e, ao chegar ao trabalho, ouvi-la deixou-me mais tranquilo, esperançoso. Meus amigos ficarão bem, mesmo que isso leve um tempo.

O de fora


Em 2008, o Cordão da Bola Preta, bloco mais que tradicional do carnaval do Rio de Janeiro, foi despejado de sua sede na Cinelândia. Passou um tempo, o governador cedeu ao bloco um prédio na esquina das ruas Lavradio e da Relação. Não tardou muito, o Bola organizou o espaço e, até onde sei, funciona bem. Porém este ano, parte do imóvel recebido desabou e, por sorte, não feriu ninguém.
Circulo por ali todos os dias, pois trabalho na esquina da Lavradio com a avenida Chile, esta uma extensão da rua da Relação. Então sei o que ocorreu depois do desabamento. Sei o quê? Nada. Nadinha. Necas. Nem a Prefeitura. Nem o Governo do Estado. Nem a Defesa Civil. Nem o Bola Preta. Ninguém moveu uma palha para dar um jeito na construção-destroço. A foto a seguir foi tirada por mim mesmo, não faz muito tempo. A situação é esta. Acho que a ideia é que, com a chegada das chuvas, finalmente se produzam as vítimas que o desabamento por si só não foi capaz.
Quero estar errado.
Foto de Alexandre Brandão.

29.11.12

Alô, é o novo prefeito?


Novo prefeito, velhos problemas.
Novo prefeito, novos problemas.
O homem que se candidatou a prefeito sabe e, é o que se espera, prepara-se para enfrentar toda gama de problemas. (Ninguém entra de gaiato no navio.) Sabe que não basta sair por aí asfaltando ruas, melhorando o sistema de esgoto, disciplinando o trânsito. O bom prefeito vai às calçadas ouvir os habitantes, inclusive os que não votaram nele, e — sem golpe baixo ou interesse espúrio— costurar alianças. A população demandará obras, é fato, mas também matéria de outra natureza. Alguém vai querer saber quem matou a Soninha ou o Pelé dos Queijos. Não é da alçada do prefeito, mas um pinguinho de responsabilidade sobre a questão da violência recai sobre ele. Além disso, somos carne e alma, e esta quer aquilo que, como a própria, seja intangível.  A cultura, por exemplo.
Arco amplo, que vai da culinária à poesia, do modo de falar ou da moda à música, da preservação do patrimônio histórico às festas populares (carnaval, folia de reis, exposição agropecuária etc.), a cultura é manifestação espontânea, mas, para ganhar terreno e tornar-se bem comum, precisa, quase sempre, da intermediação do governo.
No campo das artes, tenho a impressão de que Passos avançou nos últimos anos. Cito alguns exemplos que me vêm à mente. Alguns músicos tocam em locais adequados (Magrão e família, por exemplo). Há grupos de teatro em plena atividade (muitos se beneficiam da reforma do Teatro do Rotary). Há avanços no campo audiovisual, como é o caso do Festival Selton Mello (ligado à FESP), sem contar a incansável determinação do Itamar Bonfim. É possível detectar alguma resistência no campo do folclore. Acompanho no Facebook a mobilização do grupo “Memória de Passos”, administrado por Jesuína Faria, Heliza Faria, Leila Andrade, Sílvia Mendonça, José de Paula Silva e Welfare Joele. Preocupado com a preservação do patrimônio histórico, esse grupo será, ou poderá ser, ou mesmo deverá ser, uma voz política importante nas discussões em torno da municipalidade.
Nas comemorações do aniversário da cidade, foi dado um passo e tanto na incorporação da literatura como evento que transcende as salas de aula ou os encontros de escritores como o Intercâmbio Literário (Hilda Mendonça à frente). A Festa Literária de Passos, a FLIPassos, foi executada com sucesso pela administração derrotada no último pleito. Se a política for levada como disputa de rua, briga de vândalos, o atual prefeito dará as costas ao evento, se prenderá a críticas irônicas e rasteiras e a vida continuará, com perda clara para todos os munícipes. Se fizer política com pê maiúsculo, a FLIPassos será analisada, reformulada (se preciso) e repetida nos próximos anos.

Como acredito na força libertadora (e transgressora, vá lá) da literatura, não sento e espero, trato de pressionar o novo prefeito, o que, do ponto de vista da democracia, é legítimo. Assim, senhor Ataíde, descontinuar a FLIPassos será pisar na bola, pois estamos falando de um evento-investimento, cujos frutos serão colhidos no futuro — futuro próximo. Dando prosseguimento à festa literária (o Governo Federal tem verba para destinar a municípios interessados em eventos desse naipe), todos nós, em breve, nos regalaremos com suas consequências. Pense nisso enquanto cuida das inúmeras outras questões que o aguardam a partir de janeiro. Desejo-lhe sucesso, pois indo bem sua administração Passos poderá vir a ser uma cidade melhor.

7.11.12

Minhas outras vidas



Antes de ser animal, fui coisa. Não na acepção que mãe ou mulher vez ou outra costumam dizer: Esse é uma coisa! Não nesse sentido: fui, de fato, um abajur. Deixei à meia-luz a solidão rotineira das famílias de classe média, enquanto na TV, coisa que nunca fui, exibiam-se, em novelas, as mentiras de um país idealizado. Não posso me queixar, também alumiei pegas de um casal beirando os cinquenta e de guris aproveitando-se da ausência dos pais.
Quebrado durante a mudança de Brás de Pina para Pirenópolis, meus caquinhos juntaram-se noutra coisa. Não fui mais de cerâmica, perdi as funções, o lugar na sala e passei a ser um enxadão. Arei o deserto, cavei terra em fundo de rio, assassinei um infiel. O sangue ficou sempre ali, nunca me lavaram nem voltaram comigo ao batente. Enferrujei ao lado de um catre de palha de um joão-ninguém.
O vigor de enxada levei para meu período de caminhão. Transportei boi, transportei boiada, transportei mercancias de todos os tipos e melancias de um tipo só, podres, desprezadas até por porcos. Fui e voltei. Rateei em ladeiras tímidas, perdi o freio quando o motorista perdeu o medo e acelerou onde não devia. Passei a beber muito óleo e a esfumaçar o mundo com ganas de furar a camada de ozônio. Pum de caminhão faz frente ao de caprino.
Divertido meu tempo de objeto erótico. Ficava esquecido numa gaveta, sufocado por calcinhas e peças indelicadas jogadas ali sem motivo algum: canivete de um tio distante, anel de latão com que o primeiro namoradinho presenteou a menina romântica, cotonete, isso mesmo, até cotonete, vez ou outra usado. Isso era nada perto do momento em que eu saía do armário. Para dizer a verdade, era arrancado de lá e era... e era mais uma vez... e assim tantas e muitas. Uma diversão só. Mimi um dia se cansou de minha virilidade sem fracasso. Como não se dá consolo usado de presente, fui parar no lixão.
Graças à reciclagem, voltei ao mercado ora como enfeite barato, feito à máquina, ora como lantejoula usada no carnaval gaúcho. E ainda como isqueiro que nunca funcionou muito bem. Do antigo vibrador, apenas a parte na qual se coloca a pilha ficou no lixão. E ali ficará, pois não há natureza que absorva esse trocinho de metal.
Quis ser a nave que foi a Marte, porque assim me isolaria desse mundo de coisa ao redor das coisas. Não fui, sobrou o trabalho duro de triturador. Não gostei de liquidificar cenouras e cebolas. Tampouco de ser, depois, carro de fórmula um. Guardo boa lembrança do verão em que fui um ventilador pequeno, que refrescava pouco. Eu me lixava para o calor alheio, gostava mesmo de girar daqui pra lá e de lá pra cá e acho que nunca estive tão próximo da condição de não-coisa: balançava sem estardalhaço, como, no tango, o melhor dos dançarinos. Tive chance de ser abridor de lata dos mais vagabundos. Eu aposto que só esses instrumentos sabem exatamente o que se passa na cabeça de uma pessoa que tenta, cheia de caretas e, por causa disso, cheia de expressões reveladoras, abrir uma lata de ervilha (e quem é que nunca abriu uma lata de ervilha?). Se um dia quiserem conhecer os segredos do mundo, torturem (talvez não seja preciso) um abridor de latas vagabundo. Corram, eles estão em extinção.
O urinol de Duchamp não era outro senão eu. No cotidiano, fui catraca de ônibus. Bola de gude lascada. Forte apache de plástico. Bilboquê. Certa vez, no Afeganistão, fui bola de golfe que um soldado americano mantinha na mochila, segundo ele, para uma eventualidade — que, por sorte, eu acho que por sorte, nunca soube qual era. Como na natureza nada se cria e tudo se transtorna, pelas vias normais de dona Haydée e com a ajuda das mãos do doutor Antônio Carlos Piantino, vim à luz com cinco quilos e seiscentos na Santa Casa de Passos. A partir daí, primeiro minha mãe e depois ficantes, rolos, namoradas e moças de patentes mais altas sempre encontraram motivo para se virar contra mim — “sujeito sem o apetrecho do juízo ou metido a engraçadinho” — e, sem dúvida, afirmar: você é uma coisa. Uma coisa... Finalmente voltei a ser uma coisa, e continuo sendo.

Uma coisinha!

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Na Estante Afetiva de Alexandre Marino, uma leitura de meu "No Osso: Crônicas Selecionadas".
Meus dois últimos livros ("A câmera e a pena" e "No Osso: Crônicas Selecionadas") são encontrados agora na Vitrine de Livros, livraria virtual voltada para a literatura brasileira contemporânea.

7.10.12

Esfinge Voraz


Estamos na época de digitar o voto na urna eletrônica — orgulho tecnológico que deixa muita gente com a pulga atrás da orelha — e apontar nossos futuros prefeitos e vereadores.
Elegemos no plural, mas o meu ou o seu candidato podem muito bem passar longe, bola chutada pra fora do estádio. Ele ou ela terão ideias próprias e, por essa razão, serão derrotados? Ou ela ou ele não passarão de fanfarrões corretamente sepultados pelo voto, ou melhor, pela falta de voto?
Democracia: esfinge que, quanto mais deciframos, mais nos devora. Sem democracia não viria à tona a voz das minorias, dos marginalizados ou dos que, persuasivos, opõem-se à situação. Mas, na democracia, elegem-se os que têm tutu à beça ou os que, mesmo não o tendo, acercam-se dos que têm. A aliança circunstancial serve bem no dedo de quem não se presta a casamento duradouro, de quem gosta das festas do matrimônio e, mais ainda, dos divórcios, porta que se abre para nova conquista.
Não é jabuticaba, fruta que viceja apenas em nosso solo gentil. Vejam a eleição americana (se aproximando) ou a francesa (recém-acontecida): nelas também o dindim é o diapasão que orienta a orquestra. Lá e cá, orquestra na qual tocam célebres artistas ao lado de burocráticos leitores de pauta. Péssima metáfora, os burocráticos leitores de pauta fazem mal ao ouvido e sensibilidade alheios; por sua vez, os maus políticos subtraem os instrumentos da orquestra e deixam o verdadeiro artista preso à pantomima. Por isso encontramos muitos spalle pelas ruas passando o arco invisível no violino igualmente invisível.
Democracia não é apenas o espetáculo do sufrágio universal. Esse é o momento de sua celebração. Democracia é também o ciscar da galinha, quero dizer, a coisa simples da vida comezinha. É minha relação com meus filhos, e a deles com seus professores. E a dos professores com seus superiores. É o respeito aos mais velhos, aos mais pobres. É a convivência com a diferença. É a discussão de ideias. É, ainda, a possibilidade de termos todos as mesmas oportunidades.
Como a democracia se fixa também na dinâmica do corriqueiro, podemos atuar com mais desembaraço em sua consolidação. Contraditoriamente, maldita esfinge, é justamente esse o espaço de maior dificuldade, pois temos de brigar com nossos preconceitos mais arraigados.
Meter o dedo na máquina é fácil, viver democraticamente é que são elas. 

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Luís Giffoni, escritor mineiro que faz o programa "Livro no Ar" pela Bandnews de BH, falou de meu "No Osso: Crônicas Selecionadas". Quem quiser ouvir seu comentário certeiro, de menos de 2 minutos, clique aqui.

28.9.12

Ruim por ruim, não vote nimim


Amigos, venho pedir que não votem  nimim. Não sou homem sério. Não roubo, mas também não faço. Vivo metido com livros, achando chato o que está fora deles; a vida, afinal de contas.
Sou cheio de verdades e não aceito trocar minha opinião por cargo. Aos olhos de uma classe de políticos, sou intransigente. Gosto de ser convencido na lábia, quando então dou o braço a torcer sem nenhuma vergonha e também sem ônus para o vencedor.
Dou mais uma razão. Não engulo sapo. Rã, se bem temperadinha, ainda vá lá, mas sapo nem se o dito-cujo tiver porte de príncipe. Assim, o prefeito, meu chapa e correligionário, não vai ter garantida minha fidelidade na saúde e na doença. Pois, entre a doença financeira dele ou do partido e a saúde de quem votou em mim, fico contra o mandatário máximo. Posso parecer traidor, mas sou mesmo da laia do Grouxo Marx: não entro em clube que me aceita como sócio. Trocando em miúdos: tenho simpatias partidárias, mas não me filio a partido nenhum. Para quem ficou curioso: minhas simpatias se dividem entre partidos que, no quadro atual, se colocam como arqui-inimigos. Ou eu ou eles estamos doidões.
Pensando bem, nem se você quiser pode votar nimim. Como na música do João Bosco, não sou candidato a nada, meu negócio é madrugada com batuque na cozinha. Meu negócio é feito mais às claras que umbigo de vedete. (Expressão velha, em desuso. Qual o problema de umbigo à mostra? O que são vedetes?) Enfim, deixando as corcovas da língua de lado, não vote nimim porque sou boêmio, honesto e preguiçoso. Cruz, credo. (Esta expressão, eu acho, ainda se usa.)
Como não serei eleito, prometo continuar atento às meninas de minissaias, aos bêbados e suas filosofias, à velhinha com fogo nas ventas e, além de outros tantos, ao ex-pastor que se encontrou no álcool, nas drogas e no rock’n’roll. Prometo rir da própria desgraça e morrer de rir da alheia. Continuarei escrevendo minhas canalhices, se possível adornadas com as mais belas palavras, sejam elas as da moda sejam as semimortas, esquecidas nos dicionários. Enfim, serei fiel a mim, único jeito que meus amigos e inimigos gostam. Os amigos, por acharem divertido encontrar no mundo um sujeito confiável, apesar de vagabundo. Os inimigos, por acharem intolerável um vagabundo a quem não se pode confiar o segredo de uma tramoia.

Para acrescentar alguma informação relevante a esta crônica até aqui tão bobinha, farei uma revelação. Por favor, ajeite-se na cadeira. Pare um pouco e respire fundo. Tome uma água. Lá vai...
Fui cabo eleitoral do “Muito Bem” (1).
(Putz, sou mais antigo que Simca Chambord.)

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(1) Para quem não é de Passos, ou é, mas não conhece a figura, Muito Bem foi uma personagem folclórica da cidade. Vivia meio de porre e a tudo que lhe perguntavam respondia: muito bem. Não sei quando, foi candidato a vereador. Eu era jovem e torci e trabalhei (pelo menos no círculo familiar) por ele. Não lembro se ganhou (é provável que sim), nem sei que fim levou.

10.9.12

Todo mundo isso, todo mundo aquilo


Nunca saio de mim/Por isso sou só//Tenho uma camada de pó/Tomo remédios coloridos//Escuto com três ouvidos/E vejo com um olho só//Agora me olha e me diz/Se estou certo//Se sou mesmo este céu deserto (“Certeza sem nuvens e estrelas”, Rodrigo de Souza Leão)




Todo mundo arrasta uma simpatia por alguém que perdeu o prumo, saiu de órbita, bateu as asas para nunca mais pisar na terra — os lunáticos ou nefelibatas, os que mendigam o impalpável, os que se alimentam de luz. Todo mundo não se furta de bater papo com o doidivanas da praça, com a tresloucada que recolhe quinquilharias nas ruas do bairro. Todo mundo conta com sarcasmo as peripécias de um avô meio zureta. Todos estimamos, de fato, os que não saem de si.
Todo mundo comenta, com maldade e uma ponta de inveja, o nível de liberdade com que guia a própria vida a jovem atriz ou o marrento jogador de futebol. Liberdade uma ova, inveja-se o fato de um ou outro passar sem cerimônia por cima do que está longe de ser um reles cadáver. Todo mundo suspira pelo vilão charmoso da novela das nove. No fundo, todo mundo anseia uma aventura como a de disparar com o carro por avenidas impróprias à velocidade ou a de beber até dizer chega e enfrentar com ironia uma autoridade.
Todo mundo quer comer sem pagar. E quer cagar e andar pros problemas, pras dívidas, pro compromisso amoroso. Todo mundo deseja comprar uma passagem só de ida. Todo mundo preferiria agir antes de pensar. Em segredo, rimos do tombo alheio.
Não para aí, então continuo: todo mundo (eu, você e eles) gosta mesmo do politicamente incorreto, das piadas que caçoam das minorias, da cutucada dada nos que olham o mundo com inocência: os bem limpinhos e corteses. Todo mundo só pensa em sexo, nada disso de amor. Todo mundo acha que dinheiro roubado é dinheiro achado, logo, emite nota fria e lava dinheiro.
Todo mundo come de boca aberta. E prefere espancar a educar. Todo mundo gostaria que os outros morressem antes de chegar à velhice, que significa apenas despesa e demência. Todo mundo acha que os recados de seu intestino cheiram à flor. Todos, sem exceção.
No andar da carruagem, o império do eu-sozinho acabará triunfando. Os efeitos serão danosos, estou certo disso. E, preocupado — preocupado na mesma extensão com que me preocupo com o provável desastre ambiental que nos ronda —, lanço esse canto muitas vezes já cantado, inclusive por sábios. Canto que realça a importância do outro nas nossas vidas.

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Nisso de falar “todo mundo isso, todo mundo aquilo”, vem à minha memória nada tranchã certa história contada pelo cineasta Bigode (Luís Carlos Lacerda) sobre sua amiga Leila Diniz. Depois de uma apresentação — naqueles anos de chumbo da década de 1960 —, um militar adentra o camarim da atriz, leva-lhe flores. Ela, educada, agradece. O senhor então, em tom de ordem do dia, intima-a a jantar com ele. Leila recusa o convite — ou desobedece à ordenança. Ele, furioso: “Eu sei que você dá pra todo mundo.” Ela então: “Sim, dou pra todo mundo, mas não pra qualquer um.” 
Leila Diniz por Antonio Guerreiro (sem autorização do autor)


Leila Diniz, de fato, estava à frente do seu tempo. Quando vejo as manifestações recentes das mulheres lutando pelo direito de tomar posse política do próprio corpo, lembro-me dela. As “vadias” têm o espírito de Leila. Elas são a voz do outro, aquela que todo mundo deveria ouvir antes de falar ou de agir. Eu presto atenção nessa voz e me sinto feliz por estar vivo para isso.

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Amigos, saiu uma resenha de meu livro de crônicas (No Osso: Crônicas Selecionadas), escrita por Haron Gamal, na Folha Carioca. Para lê-la basta clicar aqui.
Aliás, a Folha Carioca passou a ser também um site. Venham visitá-lo, vale a pena. Entrem.

30.8.12

Sem pressa




Manoel de Barros, no poema “Andarilho”, do “Livro sobre nada” (Poesia Completa, Editora Leya), afirma categórico: “andando devagar eu atraso o final do dia”. Para quem não sabe o que é poesia, poesia é essa rasteira no senso comum, é esse dano irreparável na lógica que comanda nossa vidinha miserável.




Certa vez batia perna com meu primo Bosco pelas ruas da Vila Madalena, em São Paulo. Ele pediu para eu andar mais devagar; com pernas menores que as minhas, não conseguia me acompanhar. A partir de então, meu ritmo é ditado por passos miúdos, com o que desperdiço minha altura e o tamanho potencial de minhas passadas. Devagar, passei a contemplar o mundo. Eu contemplo o mundo.
Já vai um tempo, caminhei por alguns quarteirões atrás de um sujeito que olhou todas as bundas que cruzaram seu caminho. Não desprezou nenhuma. Olhou a de uma moça mignon. A de uma rechonchuda. Torceu o pescoço para contemplar a da jovem. E, igualmente, a da velha, a da negra, a da branca, a da moça manufaturada — a Glória, bairro onde estávamos, é um ponto de travestis. Se eu tivesse pressa, não teria apreciado um tipo desses, feito à medida para ficcionista do meu quilate — meio vagabundo, quero dizer.
Andar devagar, nos dias de hoje, tem muitos inconvenientes. O mundo está acelerado. Uns ultrapassam outros — sejamos sinceros: o objetivo é ultrapassar os outros. Aos que não estamos totalmente isentos do espírito competitivo resta lastimar ficar pra trás. (Lastimar, lastimamos, acelerar o passo, nem pensar.) Em meu primeiro livro, lançado em 1995, há um conto (“A quarta queda”) que esbarra nessa questão, mas, no caso, a competição se dá entre pessoas que se arrastam. A metáfora, arrisco dizer, é esta: mesmo quem perdeu, quem, portanto, se arrasta, ainda guarda uma ilusão de não ser o último, de não ficar na rabeira do mundo. Ser o último seria a derrota definitiva. Não é de hoje que estou olhando o mundo de esguelha. Devagar, e sempre desconfiado.
Foto de Andre Penner, publicada sem autorização do autor.

Outro Manuel (Manuel igual a Manoel, certo?), um amigo, reage do seguinte jeito ao verso de seu xará: os velhos andam devagar para atrasar o final da vida. Matou a pau. A decadência física é menos importante que a mumunha urdida para atrasar o fim absoluto. Manoel de Barros está velho. Adiou, com seu passo de cágado pantaneiro, o fim de muitos dias — dias que engoliram alguns de seus filhos. E, arrastando seu chinelo pela fazenda, estará, agora, postergando a chegada do “seu dia”. Um palpite, não passa de um palpite isso que acabo de dizer. Desconheço Manoel de Barros, e desconhecê-lo não deixa de ser uma forma íntima de chegar a ele. Quem já o leu sabe que não estou lançando mão de uma frase de efeito. Com o poeta é assim mesmo. 

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Amigos, saiu uma resenha de meu livro de crônicas (No Osso: Crônicas Selecionadas), escrita por Haron Gamal, na Folha Carioca. Para lê-la basta clicar aqui.
Dia 15 de setembro, a caravana No Osso voa pra BH. Lá, no Letras e Ponto (Rua Aimorés, 388, sl. 501/502, Funcionários), a partir das 11 horas, lanço o livro.

9.8.12

Perversão e verdade


Lendo o artigo de Francisco Goldman (publicado originalmente na revista “The New Yorker” e reproduzido na Piauí de maio), Filhos da guerra suja, duas questões brotaram dele.
A primeira tem a ver com a perversão. Tenho tendência a pensar na perversão como uma questão de foro íntimo. Desvio que acontece na relação entre homem e mulher, adulto e criança, mas, claro, há a perversão comandada pelo Estado, sempre houve, talvez haja sempre. Cito Herodes, que, para liquidar um futuro homem, mandou exterminar todas as crianças de até dois anos de idade. Cito também Hitler, disposto a fazer uma limpeza racial. Perversos ambos. Mas também a ditadura argentina mais recente foi perversa, possivelmente a mais perversa de todas, haja vista que não planejou o extermínio das crianças, mas o sequestro delas. Arrancadas das famílias transgressoras da ordem, seriam educadas num ambiente de pureza ideológica.
O artigo, na realidade, usa essa questão como pano de fundo, pois o que está em jogo é a suposta origem dos filhos adotados da mandatária do Clarín, jornal importante, verdadeiro império da informação nas terras de Maradona e do tango. Depois de idas e vindas, sobre as quais falarei em seguida, a situação atual é que não há evidência de que o casal de jovens adotados pela senhora tenha origem em famílias que contestavam a ditadura. Todavia, não se esgotaram todas as possibilidades de pesquisa.
Foto publicada em El Pais.

Pois bem, as tais idas e vindas lançam luz sobre a questão da verdade. O Clarín é um jornal poderoso, digamos assim. Pertence à tal grande imprensa, essa sobre a qual sempre há suspeita de locupletação com o poder. É uma discussão infindável essa da ligação entre imprensa e poder, foge ao escopo dessa crônica, mas acho que a concorrência (o fato de existirem vários grupos) diminui a chance de uma aliança maliciosa entre essas duas instituições da democracia.
Volto ao caso argentino, baseando-me no artigo do senhor Francisco Goldman. Enquanto o casal Kirchner (no poder desde 2003) manteve boas relações com o grupo Clarín, a questão da adoção irregular dos filhos da proprietária não emergiu, ou não passou de assunto que correu à franja da profusão de fatos ligados ao sequestro de crianças na Argentina. No entanto, quando a presidência e o grupo jornalístico passaram a estar em lados opostos, surgiram as leis que de certa forma obrigaram o uso do DNA para confirmar a origem dos adotados. Os filhos da senhora do Clarín, em nome da lei, sofreram uma série de constrangimentos, que também souberam contornar de forma burlesca. Leiam o artigo, vale a pena.
Enfim, tudo isso para dizer que a verdade é uma construção. A turma lá de cima faz das tripas coração para que o fato em si seja a versão dele. Estamos vivendo, no Brasil, momentos decisivos ligados ao “mensalão”. Claro, há um jogo de interesse tremendo na questão. O episódio, ainda mal contado (pelo menos sem uma versão definitiva), do encontro entre Lula, Gilmar Mendes e Nelson Jobim é apenas uma onda pequena que pode estar anunciando um tsunami. 
Espero uma imprensa comprometida com a verdade. Com a verdade dos fatos. Sem perversão.

30.7.12

Os muitos Brasis


Sergio Faraco, escritor.
Não tive uma boa noite, acordei cedo demais, antes do relógio. Gesto automático, estiquei o braço e peguei o livro de cabeceira, boa companhia para insones e madrugadores. Naquele instante, vinha lendo, pela primeira vez, os contos de Sergio Faraco, escritor gaúcho. No caso, uma edição de 2005 com seus contos completos (Editora LP&M). Do nada a tudo, num livro. Num senhor livro. Vinha lendo; agora, quando escrevo essa crônica, já o li todo. E a primeira impressão continua: um senhor livro. Faraco sabe escrever contos. Tem a precisão necessária, que se mede, desculpem o jogo de palavras, exatamente pela imprecisão do que ali, sob nossas retinas, vai acontecendo ou deixando de acontecer.
O personagem principal de Faraco é o desempregado, e seu espaço preferencial de atuação são os encontros amorosos fortuitos, nos quais é possível a um qualquer transbordar de si mesmo. Faraco é um escritor do heterossexual masculino. Principalmente dele, mas não somente dele. Algumas de suas mulheres deixam suas digitais bem na fuça do leitor atento e atuam como se fossem, sem ser, a principal personagem da história. A mulher cujo marido está à morte na capital e que promove um encontro sexual no trem com o protagonista da história é o melhor exemplo disso (“Dançar Tango em Porto Alegre”).
Jaime Alem, violonista.
Para escrever essa crônica, escolho como trilha sonora o CD de Jaime Alem, “Dez Cordas do Brasil” (Repique Brasil, 2009). Alem, que acompanha Maria Bethânia habitualmente, toca viola nas treze faixas do CD. Mergulha no mundo caipira, mundo de onde vim. Uma parte dos contos de Faraco está ambientada no interior de seu estado e é escrita em gauchês. Alem, por sua vez, busca sua música nesse campo imenso formado pelo interior de São Paulo e de Minas Gerais — resvala também no Nordeste. Os dois nos remetem, de certo modo, a um Brasil que está fora de foco, confundido às vezes com um Brasil de ontem, inexistente hoje em dia. 
Faraco e Alem não são artistas desconhecidos. Ao contrário. Mas não estão entre os que frequentam os jornais fora das colunas de literatura ou música. Quando muito (várias vezes são esquecidos), estão nos cadernos de cultura. Para encontrarmos um e outro, temos de nos esforçar, ir além do que os jornais, as rádios comerciais e os programas televisivos insistem em rotular como arte. Esse esforço quase sempre vale a pena. Como troco, ganhamos a visão de um Brasil que persiste, insiste e é múltiplo.

29.6.12

Dica de um Rio menos óbvio



Quem vem ao Rio vai à praia. E dança na Lapa. E toma o bonde para o Cristo — para Santa Teresa, enquanto as autoridades tentam limpar a caca daquele acidente, não. Também é possível ir ao Pão de Açúcar e até mesmo, como adoram os estrangeiros, subir os morros, visitar as favelas. Alguns, neste caso, vão para ver a solução de engenharia e arquitetura encontrada, ou para ver a vida das pessoas numa urbanidade tão distinta. Mas muitos vão mesmo como se fossem ao zoológico ver o bicho enjaulado nas grades da pobreza. Seja como for, o Rio é uma cidade aberta à visitação, não resguarda sua beleza e suas contradições de ninguém.
Porém, há o Rio menos óbvio. E nele estão listados museus e centros culturais fantásticos. Dos exuberantes e aclamados — Centro Cultural Banco do Brasil, Teatro Municipal, Museu de Belas Artes etc. — aos miúdos ou mais modestos — Museu de Arte Popular Brasileira, Casa de Rui Barbosa, Museu Nacional, não sei quantos mais. Cada um tem seu charme, sua característica.
Não bastasse isso, há um projeto no Rio, o “Música no Museu”, que adiciona ao acervo dos museus música. Música da melhor qualidade, clássica ou não, instrumental ou não. Eventos gratuitos, abertos a músicos novos e outros já consagrados, brasileiros ou estrangeiros. Se alguém vier à cidade maravilhosa, visite o site do projeto e tome nota da programação. Garanto que a mistura praia e boa música, adoçada com obras de artistas plásticos que vão do popular à vanguarda, não faz mal, nem tem efeitos colaterais maléficos. No máximo, você, que foi ouvir Villa-Lobos, saiu de lá uma pessoa melhor, fortalecida. Acontece.
A ideia de falar do “Música no Museu” veio à tona porque, dia desses, no meio da tarde, recebi um e-mail anunciando um recital. Quem o enviou foi um amigo alemão, o Johannes Defner. Ele e Geisa Felipe tocariam, como parte da programação desse projeto, um repertório de música brasileira (Baden Powell, Villa-Lobos, Altamiro Carrilho e outros).
Conheci Johannes por intermédio do Paulinho, amigo que foi viver na Alemanha, casou-se e teve filhos por lá, mas que, quando chegou a hora prematura de cruzar a derradeira fronteira, escolheu vir passar seus últimos dias aqui conosco (seus pais, irmãos e amigos). Trouxe a mulher e os filhos. Nos seus últimos trinta dias, mesmo sofrendo, não deixou de nos acolher. Paulinho era assim, um ser sociável, até mesmo na hora indesejada.
Paulinho apresentou Johannes à Geisa. Ela, uma menina que saiu do Brasil para estudar flauta na Alemanha e caiu nas graças de Paulinho e Ilse, sua esposa. O que cimentou as amizades comandadas por Paulinho mundo afora foi a música brasileira — em particular o choro e o samba. Ilse, doutora em violão, já estudava nossa música e, imagino, a paquera entre ela e Paulinho começou por aí. Johannes, hoje, depois de intensificar sua relação com o Brasil, toca violão que nem esses meninos da Lapa. Ganhou cancha tocando choro lá na terra de Bach, acompanhando, primeiro, o Paulinho e, depois, a Geisa. Ele ainda compõe música brasileira sem cerimônia. Quem quiser conhecer um pouco do trabalho do alemão, passeie por aqui.
Geisa, por sua vez, é uma “menina prodígio”. Aos nove anos de idade, levada pela mãe para estudar flauta (a mãe incluiu a música na educação das filhas por acreditar que isso facilitaria o aprendizado de matemática, de português, enfim, das matérias tradicionais), foi descoberta por um professor. Ele, dedicado a alunos de mestrado, deu um passo atrás e foi lapidar o talento dela. Não deve ter se arrependido, pois Geisa se formou em Freiburg, Alemanha, com conceito máximo. Saiba um pouco mais sobre ela dando um pulo aqui.
Para além da emoção experimentada pelo recital, síntese de tantas coisas (a beleza da música, as amizades que se fazem de maneira especial, a sombra do Paulinho que, por Deus, nunca nos abandona), fiz contato mais de perto com esse projeto, “Música no Museu”. E gostei tanto que rascunhei esse guia turístico de um Rio menos óbvio, talvez o mais interessante.


30.5.12

FLIPassos: o presente pelos 154 anos de Passos


Há muito tempo não passava tantos dias em Passos, certamente desde a morte de minha mãe, em 2007. O motivo que me levou à cidade desta vez era nobre: a I FLIPassos (Feira Literária de Passos), evento que fez parte das comemorações do aniversário do município.
Eu e outros tantos escritores, passenses e de diversos cantos de Minas, tivemos uma agenda cheia. Visitamos escolas, fizemos leituras em praça pública e lançamos livros. Participamos de reuniões de escritores e batemos papo com os leitores. Nada diferente das feiras literárias. Porém havia um diferencial que atingiu com certeza a mim e aos demais conterrâneos: a feira foi em nossa cidade.
Assim, os relatos que ouvíamos, seja nas reuniões formais, com a presença da secretária de Educação, Cultura, Esporte e Lazer ou da diretora de Cultura, seja nas informais, tanto nos emocionavam como nos deixavam ainda mais certos da importância de um evento como esse para uma cidade. Ao participar de encontros em escolas, nos damos conta, por um lado, de como é importante para o estudante-leitor ver o escritor, conversar com ele. Talvez essa seja uma das maneiras mais atrativas de estimular a leitura, afinal de contas o escritor é uma pessoa que sabe fazer a ponte entre sua literatura e a atualidade, esta uma vivência comum a todos. Essa ponte, creio, é um facilitador, além de estímulo. Por outro lado, ao participar desses encontros com as escolas, há um caminho inverso, qual seja: os escritores descobrem como sua obra alcança o leitor, enfim, que leitura ela ganha. Essa via de mão dupla enriquece escritores e leitores.
Não posso deixar de mencionar o relato emocionado de Nelson Cruz, Neusa Sorrenti, Cristina Agostinho e Maurílio Andréas G. Silveira ao voltarem de visitas que fizeram às escolas, em particular às escolas rurais. Nelson Cruz, por exemplo, nos disse que, numa escola rural, encontrou, numa modesta biblioteca, três de seus livros. Uma vitória pessoal, mas também uma certeza de que a política de compras do governo está bem direcionada. Nelson não só chamou a atenção para esse deleite pessoal, como também registrou a qualidade do trabalho das crianças, feito com desenvoltura e criatividade. Disso tiramos uma conclusão óbvia: há professores dedicados em Passos, e eles estão fazendo um excelente trabalho. Aliás, sabemos, o ensino é sacerdócio. Coisas assim nos dão esperança de que a educação esteja sendo levada a sério.
Por tudo isso, a FLIPassos deverá ser um evento perene, incluído no calendário da cidade, independentemente de quem a esteja administrando. Isso não é fácil, pois a política gosta do personalismo. Cabe então a nós, que não somos políticos, reivindicar que esse evento — e outros de igual dimensão, ligados ao teatro, à música, ao cinema etc. — seja do povo e para o povo. E, mais do que isso, cabe a nós tentar atrair nossos agricultores, pecuaristas, donos de fábricas e comerciantes a participar da feira. Participar com grana, claro, mas também de outra forma, por exemplo, divulgando e abrindo a porta de seus estabelecimentos para eventos.
Desfile pelo dia da cidade. As escolas homenagearam os escritores da FLIPassos. Desfilei com o meu colégio, o Polivalente (fui da primeira turma, em 1972).
Para terminar, agradeço a todos que me prestigiaram. Em particular, agradeço ao pessoal do Polivalente, a escola em que estudei e que me homenageou no desfile do dia da cidade. De todas as emoções que tive nessa passagem em Passos, as mais fortes estiveram ligadas à escola. O encontro com os alunos para bate-papo. O desfile em si. Além disso, o encontro com Cecília Barros, a vovó-diretora de meu tempo, e com alguns colegas contemporâneos (Nilo, Auro e Teresinha) me deixou... me deixou... me deixou sem palavras.
Ah, no fim do evento, outro assassinato em Passos. A literatura não salva nada, mas, onde se lê mais, a vida é vista em sua real importância.

15.5.12

Notícias apressadas - No Osso: Crônicas Selecionadas

Meu novo livro, No Osso: Crônicas Selecionadas (Cais Pharoux), já está em circulação. O primeiro lançamento ocorreu em Passos, durante a I FLIPassos (I Feira Literária de Passos), evento sobre o qual falarei em breve.
Por enquanto, gostaria de deixar a reprodução de matéria saída no Estado de Minas (11/05) e o link do programa de rádio, Universo Literário, na Rádio da UFMG. O link é este.

Como está difícil ler a reprodução em anexo, o texto segue abaixo em sua íntegra.


Força do cotidiano
Eduardo Tristão Girão (Estado de Minas, 11/05/2012 – Caderno de Cultura, pg. 4)

Alexandre Brandão “produz e convive com números”, como ele mesmo diz. Mineiro de Passos radicado no Rio de Janeiro, o economista do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística também sabe lidar com as palavras, como atesta No Osso (Cais Pharoux), livro de crônicas que lança hoje na 1ª Flipassos, Feira Literária de Passos, que é realizada na cidade do Sul do estado até segunda-feira. No dia 24, ele participará da Bienal do Livro de Minas, em Belo Horizonte, como escritor independente.
São quase 50 crônicas escritas de 2000 para cá e publicadas na Gazeta de Passos, Folha Carioca e CNP Notícias. “Efetivamente, criei um critério. A linha geral dele era alternar justamente o poético e o rigoroso. De certa forma, o livro tem esse equilíbrio, mas, ao selecionar crônicas, penso que é preciso escolher aquelas que, mesmo baseadas em fatos da atualidade, possam sobreviver a eles. Isso me remeteu ao espaço da memória, talvez a peça-chave de minhas crônicas”, explica o autor.
Alexandre usou frequentemente o cotidiano como inspiração para seus escritos. Para evitar a completa banalidade ao optar por esse caminho, explica ele, alguns cuidados precisam ser tomados: “Mesmo sendo objetivo e muito claro no que se vai dizer ao leitor, também é preciso dizer a ele com um pouco de beleza, com ironia ou graça, se possível. Além disso, tento fazer dos fatos do cotidiano algo que será perene”. O mineiro também é autor de Contos de homem (Aldebarã, 1995), Estão todos aqui (Bom texto, 2005) e A câmera e a pena (Cais Pharoux, 2009).

Modulações As vivências em Passos, Rio de Janeiro e nas outras duas cidades onde morou — Belo Horizonte e São Paulo — também ajudam o escritor a criar suas crônicas. “Como a memória dita o livro, o menino que fui em Passos vocifera por quase todo ele. Ao lado do menino, o homem que sou hoje, do jeito que posso ser hoje, esse morador carioca, modula o menino e olha para o mundo que vai correndo aos nossos olhos, mundo danado de confuso, cruel, mas também belo”, conclui.


19.4.12

Em clima ditatorial


Eu ditador


Gosto muito daquela música do Almir Sater e do Renato Teixeira que diz assim: “Ando devagar porque já tive pressa...”. É linda, mas o que é que eles dizem antes desse trecho ou depois dele? Sei lá, parece que falam em “massas e maçãs”. Este é um problema meu: não presto atenção nas letras de músicas. Tanto esforço dos letristas, e eu guardo apenas pedacinhos aqui e ali de seus trabalhos.
Sou tão abestalhado que certa vez um amigo me disse: “E esta música da bicha feita pelo Chico Buarque, hein?”  Pensei: Bicha ? Era “Geni e o Zepellin”. (Ufa!, faz tempo essa história.) Eu sabia apenas o refrão: “Joga bosta na Geni”, mas nem dava pela trágica e cômica história contada na canção.
Se vamos para o inglês, idioma que sei menos que o básico, a coisa piora. Meus amigos dizem maravilha das letras de Bob Dylan e Leonard Cohen, verdadeiras poesias. Eu, deles, canto alguns refrãos fazendo uso do falso inglês — língua dos cantores de conjunto de bailes, imortalizada por Toninho Horta numa música antiga. De Bob Dylan, gosto dos arranjos e de sua voz fanhosa. Em Leonard Cohen, além da voz e do clima que envolvem suas canções, me encanta seu poder de reduzir a alegria de qualquer cidadão. O canadense é mestre em nos fazer esquecer os iê-iê-iês do axé e assemelhados. Quando estou alegre demais, tomo duas gotas de Cohen e fico na medida. Não chego à tristeza, outra ponta dessa reta longa que liga o ponto lágrima ao ponto riso solto. Aleluia! Aleluia!
Para complicar, adoro cantarolar. Dirigindo, sempre ronrono alguma coisa. Disparo um “ando devagar porque já tive pressa” e fico em silêncio; passam alguns minutos, lanço no ar um “joga bosta na Geni” e caio em novo silêncio. Posso ainda soltar o gogó com “tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim”. No caso desse samba do Paulinho da Viola, não bastasse não sair desse trecho, canto-o de forma errada, sempre com essas palavras: “mas não despreze o samba tanto assim”.
Não me peça carona, caro colega, pois, além dos apertos de entregar sua sorte a um navalha, a trilha sonora, na voz desafinada deste que vos fala, é esse milho que pula na panela e nunca chega a pipoca.
Como o mundo, obviamente, gira em torno do meu umbigo, segue como corolário o seguinte: é preciso decretar que, a partir de hoje, as músicas não terão mais letras. Nem tudo será jazz, mas serão trocadas as zilhões de palavras das canções por simples lá-lá-lás. Isso facilita tudo. E, ainda, aumenta a segurança no trânsito, pois, para lembrar os pequenos trechos das músicas, faço um esforço tremendo, com isso me distraio e viro um risco sério a todos.
Cumpra-se.




Os outros ditadores


Sabem quem é Luiz Eduardo Rocha Paiva? Um general. Infelizmente, ao ler sua entrevista a Miriam Leitão, não me ocorreu uma cena distante — acho que da novela “Nino, o italianinho” (da finada TV Tupi), na qual Juca de Oliveira, Marcos Plonka e outros cantavam: “Chegou o general da banda, êh, êh, chegou o general da banda, êh, ah.” Não, não fiquei empacado nos refrãos que não decoro corretamente, mas sim com uma pulga atrás da orelha. O general da reserva, senhor Luiz Eduardo, duvida que nossa presidente tenha sido torturada nos porões da ditadura, pois não conhece as provas. Diz mais: ele está na reserva e pode falar, ao contrário dos que estão na ativa, mas sua opinião é a que prevalece no seio das forças armadas. Ai, ai, ai... Cucurrucucu Paloma.

Estamos num momento crítico. Este ano deverão ser nomeados os membros da Comissão da Verdade, cujo objetivo é apurar violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988. Essa data foi definida como forma de não deixar que a apuração fique restrita ao período da ditadura militar recente, fugindo assim da resistência dos militares. Na prática, eu acho, o período sob análise será aquele que se iniciou com o golpe de 1964.
Precisamos curar algumas feridas da ditadura recente. Nossa anistia, sabemos todos, recaiu tanto sobre os que contestaram o regime ditatorial quanto sobre os que serviram a ele, porém, muitas famílias dos contestadores, até hoje, não sabem o paradeiro de seus filhos. Mais ainda: se politicamente é possível justificar essa anistia em cima do muro, sob o prisma de qualquer outro aspecto, não dá para conviver com a ideia de que assassinos, a mando do Estado, estejam soltos por aí. Inadmissível.
Se a Comissão da Verdade funcionar bem, diminuirá o constrangimento pelo qual o Brasil tem passado desde 2010, quando a Lei da Anistia foi condenada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Essa condenação não teve efeito prático e direto nenhum sobre nós. É uma mácula na imagem da sexta economia mundial e, com isso, uma marca indelével em cada um dos brasileiros. Pesa.

30.3.12

Arranjos fresquinhos para uma velha cantiga pornográfica e outra antipatriótica


Mariquinha do Fubá

Ô, Mariquinha do Fubá, se eu pedir você me dá a mão e me consola. Diz pra mim: “Menino, não tenha medo, o escuro dura um segundo, passa logo”. Lá de trás da bananeira, é, Mariquinha do Fubá, a gente pode mirar o resto do mundo e rir dos que levam tudo tão a sério. O prefeito carrancudo, a dona de casa para quem, se a roupa não seca, a vida acaba. O professor que não entende a ironia do Joãozinho lá da classe dele.
Se eu pedir você me dá, Mariquinha do Fubá, a misericórdia por eu me assustar tanto com a fanfarrice dos dias que nascem mansos, passam em tempestades pela hora do almoço e dormem de lua cheia?
Se você me dá mão e misericórdia, vou andar de bonde com meus sustos. Em cada susto, rabisco um desenho. Em cada susto, alinhavo um poema. Em cada susto, em vez de envelhecer, fico eterno — ou tento.
Você me dá, ô, Mariquinha do Fubá?

Da Independência

Japonês tem quatro filhos, todos quatro nascidos no lajeado. O primeiro é filho de búlgara, o segundo de uma que quase transformou o japa num desgraçado. O terceiro nasceu prematuro e o quarto foi adotado. Vivendo sua terceira viuvez, depois de crescidos os filhos, o japonês largou as beiras do lajeado, berço de pedra de sua prole, e se mandou pra capital. Tentou ser meganha, a idade não permitiu. Arriscou-se como compositor, suas rimas não caíram no gosto da plateia. Foi boxeador até levar o primeiro soco. Acabou, como muitos, no informal; no caso dele, no ilegal. Passou a contrabandear. No circuito Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela, tirou seu ganha-pão. Dali trazia um cadinho da felicidade guarani, outro da felicidade dos descendentes de Tupac Amaru, outro da cota dos guerrilheiros da selva amazônica e até mesmo um pouco daquela que persiste no coração dos descontentes com Hugo Chavez. Distribuía gotas de felicidade nos quatro cantos do Brasil. Para trabalhar, corrompeu. Escondeu-se. Um dia foi preso. Em defesa do réu, o rábula, contratado por alguns clientes desacorçoados com a abstinência forçada, não poupou palavras: “Esse homem, ceteris paribus, compôs o hino de nossa independência, posto que, sem felicidade, não há nação”. Talvez por não compreenderem o latim e o português da defesa, todos no Palácio da Justiça fecharam os olhos diante de tal argumento. O japa percebeu que, estando cega a justiça, bastava andar na ponta dos pés, porta afora, aeroporto afora, Brasil afora. No debate que se seguiu à fuga, jornalista armado de ironia bradou em sua coluna: “Ficou a pátria livre sem que ele (o contrabandista, bem entendido) morresse pelo Brasil”. Especula-se que hoje o japonês, que tem quatro filhos, todos quatro nascidos no lajeado, é monge tibetano numa terra de homens coxos nas barbas do Arzeibaijão.

Ilustrações retiradas de site de imagem livre.

16.3.12

Yoani Sánchez não vem


Cuba vive uma ditadura. Ponto final. Ou ponto e vírgula, sinal que induz a tomar fôlego e completar o raciocínio. Ditadura engendrada no maior movimento revolucionário da América, justo aquele que encheu muita gente de esperança e influenciou seu jeito de viver vida afora.
Há coisas interessantes feitas sob o manto do socialismo cubano. O país tem medicina de boa qualidade e nível de escolaridade alta, por exemplo. Todavia, não apenas pela pressão dos EUA, particularmente depois do fim do império soviético, os ganhos se deram à custa do cerceamento da liberdade.
Recentemente, a presidente Dilma esteve em Cuba e deu uma mancada ao fugir do debate sobre a existência de presos políticos e de outras formas de constrangimento individual naquele país. Não bastasse negar-se a falar da situação, jogou luzes sobre o absurdo de Guantânamo e, dando mostras de um comportamento de líder justa e altruísta, chamou a atenção para o fato de a situação brasileira, no que tange aos direitos humanos, não ser exemplar.
Muito bem, não discordo da presidente, a situação nos EUA e no Brasil tem de melhorar muito, mas e a de Cuba? O Brasil não quer fazer mais negócios lá? Então, bom momento para pressionar positivamente o país, clamando por maior liberdade. Quando for aos EUA, Dilma que trate de falar de Guantânamo. E, quando estiver no Brasil, arregace as manguinhas e cuide dos problemas de cá.
Tenho imensa simpatia por Cuba, até mesmo por seu ditador-mor, Fidel Castro. Mesmo cometendo erros, o país se arriscou a seguir adiante com aquela ideia (hoje chamada de maluca) de socialismo. Todavia, um país socialista, ao garantir o bem da coletividade, minorando as diferenças, deveria promover as individualidades. No socialismo, a individualidade não seria essa nossa — agarrada ao direito ao consumo desenfreado — e se basearia fortemente na liberdade de expressão e no compromisso de criar mentalidades críticas. Seria algo mais elevado. A diminuição das diferenças materiais entre os indivíduos deveria estimular o aumento de suas outras diferenças. Cuba, ao negar essa face da complexidade social, derrapa na curva. Pena.
Que raio caiu sobre minha cabeça para me meter em análise tão rasteira e desentendida da política internacional brasileira e do modelo de socialismo cubano?
Tem a ver com a proibição de Yoani Sánchez vir ao Brasil. Pela décima nona vez, o governo cubano proibiu a moça de sair da ilha. É uma questão seriíssima. E, do ponto de vista cubano, burra. Com a proibição, a imagem do país piora numa extensão maior do que ocorreria com as acusações que ela viesse a fazer.
Yoani Sánchez estudou filosofia e gosta de internet. É da geração Y (nome de seu blog, plataforma a partir da qual dialoga com o mundo), gente nascida na década de 1970 e batizada com nomes em que aparece a letra Y. Jovem. Inconformada como devem ser todos que se deparam com a delinquência das ditaduras. Corajosa, pois não se cansa de denunciar as atrocidades cometidas pelas forças governamentais, como a que recentemente levou à morte o ativista político Wilman Villar Mendoza. Na versão oficial, um marginal em greve de fome para angariar a simpatia das pessoas.
Negar a essa moça que circule no mundo faz com que eu reforce minha ideia de que Cuba não passa de uma ditadura, uma droga de ditadura. Mesmo que a medicina de boa qualidade esteja disponível a todos, Cuba é um país menor. Mesmo que todos estudem, Cuba é um país menor.
Será que um dia Yoani Sánchez vem? Não estou otimista.

28.2.12

Com os olhos na Babilônia


        Lá fomos nós, eu e meus filhos homens, para Minas Gerais, para a vizinhança de Passos. Como é bonita a região, farta em água e trombas d’água. Passamos ao largo do perigo, atirando-nos ao mar de Minas, como se diz, na boa, quando o tempo mostrou-se seguro. Não conhecia o Vale do Céu e, até agora, não encontro palavras para descrever tudo aquilo que vai do caminho morro acima, passa pela estrutura do hotel e termina na série de cachoeiras. A natureza caprichou naquele trecho.

Vista da Babilônia a partir da Parada dos Lagos. Foto própria.


Antes de chegar ao Vale do Céu, alojei-me na Parada dos Lagos, pousada de um casal amigo, Parada e Deucélia. Poderia falar maravilhas dessa estada, mas vou me ater a um único detalhe. Enquanto estive lá, meus olhos cuidaram da Serra da Babilônia. Ora ela estava emoldurada pelo céu azul. Ora coberta de nuvens. Ora tampada pela chuva. Não me distraí dela em momento algum, pois ela é filha da gente e mãe da gente. Meu pai levava boi por aquelas dobras de Minas, nas sombras da Babilônia, vez ou outra fazendo os cascos do cavalo pisarem em seus aclives. Agora a Serra está, como diria Drummond, presa às minhas retinas nem tão cansadas e fixada em alguma foto de qualidade duvidosa. É pouco, voltarei para contemplá-la, para, de tanto olhá-la, tirar-lhe algumas lascas invisíveis e tomar, assim, posse intangível dela.
Um parêntese: Parada me contou que Deucélia começou a escrever contemplando a Serra: musa num mundo sem musas. E ela tem levado tão a sério isso de escrever que acaba de lançar “Léa e a lua”, livro prefaciado pelo Barreto. As palavras são dele, nosso poeta: “Nesta história deliciosa — igualzinha aos seus pratos, quitandas e confeitos mais saborosos — Deucélia nos coloca nas asas de uma mariposa que, metaforicamente, retoma a trajetória da humanidade inteira quando quer se ver, se conhecer, ou viajar para o distante, o inatingível... a fim de descobrir sua própria beleza.” É livro pra ler (nem todos são), como a Serra é pra ver.
A viagem não foi só deslumbre e reencontro. Um certo Barba me disse que, pulverizado do céu por um avião amarelo, ave mecânica, o veneno que mata as pestes sempre prontas para destruir as plantações de soja e cana tem matado também os pássaros, bicho que enche a pança com insetos. Tanto mosquito morto ali no chão, banquete pantagruélico, e os passarinhos nem para se darem conta de que, como cantava Ataulfo Alves, “laranja madura na beira da estrada, tá bichada, Zé, ou tem maribondo no pé”. Lá na Ponte Alta, pássaro-preto, sanhaçu, canarinho e não sei mais quantos estão degustando veneno e, pumba, caindo durinhos no chão. Morrem e, do mesmo veneno, matam os filhos e as cobras, que comem sem esforço pais e filhos largados no chão. Enfim, há um desastre ecológico pras bandas de Delfinópolis. Quem cuida disso?