30.12.13

Filosofias de botequim à moda antiga

Foto copiada do seguinte blog.

A vida, grã, é um trem grande demais da conta e passa rápido que nem avião. Às vezes se parece com um carrinho de sebo descendo pelo passeio da Bonsucesso, da esquina do doutor Breno até às raias do corgo — quarteirão mais íngreme da rua. Ou seja, vai zunindo e ainda deixa sebo na calçada, um risco para senhoras e senhores, andem de bengala ou não. Aquele moço de Cordisburgo, o tal Guimarães Rosa, dizia que viver é perigoso. Renga, se é. Por isso eu bebo. E bebo também porque, tonto, é mais fácil andar em corda bamba — ou em passeio torto ou ensebado.
Veja se concorda com a minha falta de ciência. Tem é coisa errada entre o aquém do Tula e o além da Praça do Rosário. Professor ganhar pouco. Polícia desrespeitar um sujeito só porque ele é preto ou pobre ou pobre e preto. Homem bater em mulher. Essas são graves, mas outras nem tão graves assim são também gravíssimas. Dono de botequim servir cerveja quente. Playboy ouvir no carro música no último volume (eu nos meus ontens). Mulher bater em homem. Cruz, credo!

Se existe um troço que não entendo é a falação que dentista arranja enquanto cuida da gente. O paciente — anestesiado, boca aberta por imposição e necessidade — não consegue responder, nem com movimento de cabeça. No máximo, mexe os olhinhos. E isso de mexer os olhinhos, Jesus Cristim, é estratégia de flerte no rela, não tem nada a ver com sim, não, talvez, pensando bem, palavras boas para entabular uma prosa. Dentista é chegado numa torturinha, já não bastassem os preços. Sai de mim, boi de Garça.
Nó, sô, me lembrei de uma dor de dente que tive num carnaval. Os dentistas todos lá pras Furnas e suas beiras. Ligo, no desespero, pro meu primo, o Cássio. Ele me atende no consultório e, sem desperdiçar palavras, abre meu dente. Era um canal, não poderia cuidar dele, pois, como eu logo voltaria ao Rio de Janeiro, não daria tempo. Milagre, só de abrir o dente a dor sumiu. Cassinho me explicou a química daquela maldição. Fiquei boquiaberto e despossuído de palavras ao saber que, presos entre as paredes do dente, alguns gases comprimidos provocavam, nas palavras do primo, a ondontalgia. Portanto, feito pessoa ou mesmo bicho, esses gases só precisavam de liberdade. Dentista é mesmo uma bênção, esqueça tudo quanto já foi dito antes.
As pernas da Martinha foram cantadas em marcha de carnaval. Eu alembro, das pernas e da música. O engraçado é que, logo de cara, a musiquinha insistia “Martinha, Martinha, está na hora de você entrar na linha”. Erraram de musa. Quem deveria entrar na linha são os lalaus de todos os naipes, esses blefadores de truco apostado com o dinheiro alheio. Se prefeito, secretário, vereador, deputado, senador, juiz, governador, presidente, esse mundaréu todo — seja do Manda-brasa ou da Arena, do Pato ou do Peru, seja vermelho ou de outra cor, tucano ou outro bicho — andasse nos trilhos, virge, o mundo, de tão leve, avoava. Sabe quando esses velhacos se emendam? Mané hoje, não; e nem amanhã.

Vorte! Tô que nem doido, mas não vario. Com a cabeça no “Bem bolado”, as costas na “Primor” e os pés no “Zé Feio”, dou um galeio, salto no lugar-nenhum e espio pela fechadura só pra ver se encontro mulher vestida. Resolvi devolver o nu pra imaginação. É difícil, mas eu coiso assim mesmo.

7.12.13

Pensando alto

No agora há muitos tempos. Enquanto alguns transitam na mais sofisticada banda de internet, outros não chegaram sequer ao telefone ou à luz elétrica. Enquanto a indústria diz estar pronta para oferecer roupas íntimas que não deixam escapar o pior de nossos cheiros, o esgoto ainda é uma realidade de poucos.
Sempre ouvi a história segundo a qual político não gosta de investir em esgoto porque é uma obra subterrânea e invisível. Preferem pontes, ruas, praças. Ou metrô, subterrâneo visível e transitável. No novo filme de Bruno Barreto, “Flores raras”, o foco é a relação amorosa entre a poeta americana Elizabeth Bishop e Lota de Macedo Soares, brasileira que, depois de botar a cara a tapa e convencer o governo da então Guanabara da importância da obra, comandou a criação do Parque do Flamengo — embora não fosse, como dá a entender o filme, arquiteta. Sob sua coordenação estavam nomes como Affonso Eduardo Reidy, Sérgio Bernardes, Burle Marx e outros tantos, estes, sim, donos das pranchetas que definiram a feição do parque. No filme, Lota aconselha Carlos Lacerda a esquecer essa coisa de esgoto e apostar numa obra vultosa, ao mesmo tempo bela e útil, neste caso para o lazer da população. Se foi licença poética do cineasta, não sei, mas não tenho dúvida de que a opção estivesse sobre a mesa. A situação do esgoto era mais aguda nos anos de 1960, quando se fez a obra, portanto, não havia como não estar em debate.

Foto do autor. Aterro, Rio de Janeiro.

Ganhamos todos com o Aterro, é certo. Mas muitos continuaram e continuam sofrendo das doenças causadas pela falta de esgoto e, de quebra, talvez poucos tenham desfrutado ou desfrutem ainda do parque.
Escrevo uma frase lugar-comum: viver é optar. Ou isso ou aquilo. A maneira como escolhemos, no Brasil, não tem sido feita de forma clara e democrática. Houve, e não sei como anda, o orçamento participativo nas gestões do PT em Porto Alegre, primeiro, e em outras cidades depois. A ideia é ótima. A população discute — em seus bairros e levando-se em consideração que não há dinheiro para tudo — se é melhor asfaltar uma rua ou colocar mais um poste de luz. Se houver a opção pelo poste, o asfalto da rua necessariamente ficará para amanhã (e não esquecido para sempre). Nunca a participação política foi tão radical. Nessa solução, problemas há aos montes (como se escolhe quem representa a comunidade? Quem fiscaliza a obra? Como tratar o descumprimento de um acordo por parte do município? Quanto do orçamento é, de fato, aberto à negociação?), mas o sujeito está metido até o talo nas questões de sua cidade.
A exposição de Sebastião Salgado, Gênesis, até há pouco tempo aqui no Rio — e agora em São Paulo —, é um registro de vários tempos no tempo presente. Acredito que o desenvolvimento também deve ter princípios. Isso quer dizer que as fronteiras agropecuárias têm de respeitar os aborígines, sua cultura, seu habitat natural (tão bem retratados por Salgado). Mas não vai faltar terreno para plantar e, com isso, alimentar sete bilhões de pessoas no mundo? Ora, vamos comer insetos. A ONU testa um projeto que transforma insetos em pó comível (tipo shake). Fonte fabulosa de proteína, essa criação requer pouco espaço. Não torçam o nariz, cedo ou tarde nos acostumaremos. Conheço gente que não se arrisca ainda hoje na culinária japonesa, mas, principalmente, os mais novos, aqui no Brasil mesmo, já nascem hábeis com o hashi, o pauzinho com que se come sushi ou yakisoba.
Ufa, me entusiasmei e disparei a falar feito um doido. Peço-lhe desculpas, leitor, mas é o Brasil que me tira do sério. Prometo não cometer erro semelhante outra vez. Agora vou me recolher e pensar baixinho um monte de coisas da pá virada, todas com um quê de pecado.

3.11.13

Herança miúda

Em março de 1980, eu botava os pés no Rio de Janeiro, daquela vez para viver na cidade. Fui morar com meu irmão e sua família, o que me ajudou na fase de adaptação. Havia também meu tio, mas, por azar, justo nesse ano, ele adoeceu e veio a falecer. Eu e Norma, sua companheira, estivemos juntos dele nesses meses nada fáceis.
Sobre meu tio havia certa mística. Ele seria um sujeito pouco sociável, metido com o trabalho e tímido no afeto. No nosso convívio, descobri um homem diferente do que deixava transparecer. Foi ele, por exemplo, quem me catalogou como homem, ou seja, o Alexandre que estava ali não era o rapazote meio desajuizado do Joaquim e da Haydée, e sim um homem que tomava decisões e o ajudava. Ouvir isso não é pouco para um rapazote meio desajuizado.
Tio Hélio, em sítio em Jacarepaguá. Foto de família.
Depois que tio Hélio foi embora, a família achou por bem que eu tivesse algum privilégio na escolha das coisas do seu espólio afetivo. Escolhi um chapéu, que já não sei onde está. Também um casaco, que só há pouco, quando o tecido esgarçou de vez, deixei de usar (guardo-o ainda no armário). E, não poderia ser diferente, discos e livros.
No baú estavam Campos de Carvalho e seu “Vaca de nariz sutil” (prefaciado por Jorge Amado). Dificilmente um garoto de dezoito anos vê cair em suas mãos, sem ser por indicação, um autor desses (para mim, um dos melhores). Estava também “Solitude on guitar”, disco do Baden Powell.
O disco do Baden tem muitos de seus clássicos, mas tem, sobretudo, “Márcia, eu te amo”. Num econômico diálogo entre violão, baixo acústico e percussão, a música, de cinco minutos, não pede licença e se abriga na gente — isso sem melodia fácil e cantante. Naquela época, algumas Márcias haviam passado por minha vida. Vieram e se foram daquele jeito de ir e vir das primeiras experiências amorosas: com leveza, mas ferindo. Estranhamente, ouvir uma, duas, três — sei lá quantas vezes —“Márcia, eu te amo” me curou das Márcias que não se quiseram minhas. E me descurou de meu tio. Perdi alguém que poderia me dar a mão nos momentos vacilantes pelos quais, jovem percorrendo seu caminho, eu passaria e passei.

9.10.13

O bichano experimental

O gato que não tenho teme o Zorro, o cachorro que eu já tive. O temor não tem a ver com a possibilidade de ser devorado pelo cão, já que o tempo de suas existências é distinto: um viveu ontem, o outro, o gato, talvez viva amanhã. Não sendo temor físico, só pode ser ciúme. O gato que não tenho quer que todo afeto que devoto aos animais seja dele e que ele não corra o risco de me ouvir dizendo: o Zorro, sim, era o bicho. O gato que não tenho é um absolutista.
O gato é gato porque tem olho de gato. Um gato sem olho de gato gato não é — embora uma rodovia com olho de gato não seja um gato. (É mais ou menos a mesma história contada por Mary França e Eliardo França — “O rabo do gato”, Editora Ática —, só que, na visão deles, o rabo define o gato.) O gato que não tenho tem olhos azuis tão intensos que a cor, como a batatinha quando nasce, se esparrama por toda a extensão do seu corpo. Seu pelo branco parece azul. Seu focinho é azulmente triste.
O gato que não tenho gosta de unhar a porta, de arranhar as paredes e de rasgar o tecido do sofá. Quando se entusiasma, destrói porta, parede e sofá, mas, em contrapartida, perde as garras (por um tempo). Resta-lhe o bigode, que passa a exibir como símbolo fálico. No caso do gato que está por nascer e que, depois de nascido, poderá ser meu, seu bigode (preto, mas com halo azul) vive eriçado, e ele roça seus fios por todos os cantos da casa. Menos no terreno da gata que não tenho nem terei para evitar a procriação e o problema de distribuir gatos entre amigos.
Em vez de jantá-los, o gato que não tenho gosta de sair com ratos, dar umas bandas esgotos afora. Além de franquear minha casa à visita de seres tão asquerosos, no fim das farras, ele volta sujo e esfarrapado. Em tom de ironia e ameaça, digo-lhe que até mesmo sete vidas se consomem com alguma rapidez. Ele então me confessa que já queimou seis das sete e veio para morrer comigo. Em seguida, com calafrios e olhos púrpuros, o gato que não tenho ataca, com as unhas, uma fileira de poeira e rói o silêncio matutino de nossa casa.
Quem disse? Não sei. Drummond? Talvez. Mas ouvi que os gatos se acariciam em nós e não aceitam que nós o acariciemos por nossa vontade. O gato que não tenho age desse modo, sem tirar nem pôr, e, assim como vem, vai. Se arrisco um gesto espontâneo em sua direção, ele me morde. O que faz lembrar seu parentesco com tigres-de-bengala. Aliás, o bichano sonha se encontrar com os poucos tigres-de-bengala ainda existentes no mundo e não entende, por mais que eu explique, a existência de um valão oceânico que, ao separar a América da Ásia, estabelece a lonjura. Ser nascido depois da internet, todos os lugares, para ele, são o mesmo sítio pontocom. Como não bastasse sua dificuldade com latitudes e longitudes, os tigres não respondem suas mensagens no facebook, com o que ele sofre uma frustração cavalar e passa a falar mal da família.
Há uma relação amorosa entre escritores e gatos, que se explica, segundo certa hipótese, pelo fato de ambos serem solitários; pode ser, mas acho que a razão é outra. O gato é excelente revisor, e não há escorregada gramatical que lhe escape do olhar (azulado em alguns casos). Na língua do gato, os próprios advogam, não se comete erro. Talvez seja verdade, mas acredito que, na base do miado, ninguém consiga registrar um delírio causado pela larica de uma dor profunda. Como esse que arrisquei fazer agora.
Feito por mim. Mais experimental impossível.


1.10.13

De enfiadinha

Dia desses, no Facebook, falei uma mentira. Disse que, desde que lera e relera no mesmo instante um livro de Nabokov (Machenka, Companhia das Letras), só agora, ao ler “O que deu pra fazer em matéria de história de amor” (Companhia das Letras), de Elvira Vigna, voltara a ter experiência similar. Na realidade, essa de dar duas leituras assim de enfiadinha havia me ocorrido um pouco antes com livros de dois amigos meus. Um do conterrâneo Alexandre Marino (Exília, Dobra Editorial) e o outro do também mineiro Sérgio Fantini (Novella, Jovens Escribas).
Foto de Alexandre Brandão.

O que leva um sujeito a ler duas vezes em seguida um mesmo livro? Ou encanto ou assombro. Encantado, é impossível abandonar o livro. Assombrado, é imperativo voltar a ele para, de fato, compreendê-lo ou decifrá-lo — e ser, enfim, devorado por ele.
A releitura de Nabokov esteve ligada à questão do assombro — li e reli, confesso, por não entendê-lo na primeira leitura. Se não estou enganado, já que busco na memória algo acontecido há muitos anos, não é um livro fácil. Do mesmo Nabokov, é melhor ler “Lolita” (Alfaguara Brasil).
Nos casos de Fantini e Vigna, a questão tem a ver com o encantamento, mas, como escritor, a releitura foi também um golpe baixo, quer dizer, tentei decifrar, na segunda visita, os truques dos nobres colegas. Fantini, por exemplo, é dono de um texto enxuto, mas de um enxuto comparável ao sujeito magro de nascença, daqueles (não sou eu, mas foi meu pai) que passam a vida sem saber o que é gordura. Assim, meu amigo de Belo Horizonte, ainda que trabalhe muito para ter o texto pronto e seco, não deixa vestígios de seu bisturi no que escreve. Seus contos estão de um jeito que parecem ter sido desde o nascimento. Assim especialmente nesse “Novella”, livro de narrativas curtas, que flertam com a poesia.
Já Vigna nos conta uma história que a própria personagem e narradora conhece, digamos, de ouvir falar. Isso não seria nada surpreendente se ela não se agarrasse àquela história como forma (quase) única de estruturar a própria vida. Ela relata a vida de seus sogros, se é que os pais de um parceiro com quem vive e deixa de viver com certa frequência podem ser chamados de sogros. Bem, ao narrar e confrontar-se com a história contada, a personagem (sem nome) vai fazendo o que dá em matéria de história de amor com seu homem, que talvez não seja filho do pai dele e que é pai, sem saber, do filho dela. Vale situar o período histórico da narrativa, pois, me parece, ele é fundamental: começa, no período da Segunda Guerra, com a migração de uma família judia, a do sogro, da Alemanha para o Brasil, passa pelo período da ditadura militar e desemboca nalgum momento mais recente, no qual, por exemplo, a AIDS já tinha dado a sua cara e feito suas primeiras vítimas. Seja como for, para quem associa literatura feminina a Clarice Lispector, um conselho: interne-se numa clínica e desintoxique-se antes de ler Vigna. O feminino são muitos, destaco e teclo sem motivo aparente o óbvio.
Resta meu xará, Alexandre Marino, dono de uma poesia que me encanta e me assombra. Para falar dele (ou da própria poesia), tenho de confessar uma idiossincrasia: nunca dou por terminada a leitura de um livro de poemas. Se me perguntam se já li um livro qualquer de poesia, mesmo que já o tenha lido, respondo que não, que não li, que estou lendo. Por que tamanha sandice? Ora, porque os livros de poesia são como a Bíblia ou o Alcorão, leitura para a vida inteira, portanto interminável. Se agora eu confesso que li e reli o Exília de enfiadinha estou apenas anunciando o início do embate. Voltarei ao livro, hoje ou amanhã, ou hoje e amanhã, para reencontrar “Os pássaros de Bagdá”, poema que diz que “ninguém pensou nos pássaros de Bagdá,/desafios canoros/que os ditadores ignoram”. Antes do poema estive entre os que não pensaram nos pássaros — nem nas baratas, nem nas árvores que velam os generais mortos em combate.

9.9.13

Conselhos (quase) inconsequentes

Desarme a polícia.
Libere as drogas.
Proíba a publicidade governamental.
O poder não legisla, julga ou administra em nome de Deus (ou de Deuses). O bagulho é entre nós.
Rir pelo menos três vezes ao dia é bom para a saúde. Rir do governo, do vizinho ou de nós mesmos — não necessariamente nessa ordem. O governo também deve ser saudável, assim deve rir do governo, por óbvio, de outro governo, por exemplo, o nosso poderá rir do americano ou do russo. No caso do vizinho, o governo não reservará seu riso apenas para a  fronteiriça Argentina, devendo contemplar do mesmo modo andinos, caribenhos e platinos. Numa coletiva o governo rirá de si mesmo.
Reuniões entre agentes do governo e entre eles e agentes não governamentais poderiam ser filmadas, transmitidas ao vivo e mantidas na internet por tempo indeterminado. Nada de edição.
São péssimas as soluções de emergência, logo que se faça uso delas apenas quando de fato houver urgência (desastre natural, invasão das fronteiras). Diante das manifestações populares, o governo decide... Nada disso: diante das manifestações populares, o governo ouve antes de sugerir.
Incentivar artista, empresário, agitador cultural, enfim, todo aquele que receber dinheiro público (ainda que por renúncia fiscal) a escrever e tornar público um texto com críticas ao governo (seu mecenas). Construtivas, se achar por bem. Se optar por crítica leve, um senão à roupa usada pelas autoridades, que, em seguida, aponha outra mais contundente, que ajude o governo e o próprio estado a serem mais justos.
Imagem tirada daqui.

Uma vez por mês, formar uma mesa de biriba com os chefes do Executivo, do Legislativo e o do Judiciário. Transmitida ao vivo, claro. Depois de um ano, aquele que fizer mais pontos terá direito a um mimo do Estado: uns dias mais de poder, isenção de imposto de renda ou qualquer coisa que faça os jogadores lançarem mão de todas as suas artes e artimanhas para ser o vencedor.
O presidente, pelo menos duas vezes por ano, os governadores, quatro vezes, e os prefeitos, doze, bem que poderiam passar um dia inteiro na rua olhando as modas. As escolhas de por onde flanar respeitariam a diversidade: um dia de Leblon e outro de sertão sem chuva. Durante esse dia, o chefe do Executivo estaria obrigado a entrar num boteco, pedir um café, contar uma piada. E ouvir, ouvir muito.
Abrir as seções eleitorais para o eleitor arrependido justificar seu arrependimento e deseleger o antes eleito. Como consequência, a prática de desvoto de cabresto seria crime.

3.9.13

João

“Deus é propício” ou “graça divina” são significados dados ao nome João. Entre aqueles que fundaram a era cristã, dois Joões se sobressaíram: João Batista, que batizou Jesus, seu primo, e João Evangelista, o mais longevo dos apóstolos.
Meu padrinho era João, mas ninguém o chamava pelo nome. Lôzo, o apelido. Não se casou. Gostava de tomar uns tragos. Fumou bastante e, por isso, um câncer na boca desdentada havia não sei quanto tempo.
O primeiro a quem chamei de João, porque João era, foi meu tio João Ernesto. Sobrevivera a um derrame, tinha dificuldades motoras e brincava de boneca. A casa na qual ele e tia Maria viviam, na rua Formosa, tinha um quê de magia: na sala, um homúnculo de madeira batendo um pequeno sino anunciava as horas no relógio de parede e, no quintal, um banco que eu só via nas praças ficava a minha disposição para subir, deitar, pular e até me sentar nele para ficar, menino ainda, burilando minhas primeiras caraminholas.
Foto do relógio de tio João Ernesto e tia Maria (foto cedida por seus netos Guilherme e Vanessa).

João Batista virou Tista, amigo de escola em cuja casa a Bá torcia, como eu, pelo Botafogo. João Gaiola, hoje perdido no tempo, decerto gostava de prender passarinho. Nós todos gostávamos. Deixei de gostar ainda criança.
Tratavam o João Veloso como retardado. Dançava sozinho tanto na pista das matinês dançantes quanto na rua, neste caso para chamar chuva. Houve uma época em que ele passou a visitar a casa de meus pais — com seus prováveis um metro e noventa apanhava mangas na árvore alta e custosa. Foi quando descobri sua inteligência. Retardado não era — era (deve ser ainda) um ser especial, que, quando queria, fazia chover.
João Timponi, um terapeuta para meus dezoito anos de muitas incertezas e certa gana de ferir o mundo com a unha.
Quando ouvi o “Amoroso”, de João Gilberto, comecei a prestar atenção à dobradinha técnica e emoção. Uma vez, num bar no Leblon, sem razão aparente, eu estava sentado no banquinho do piano. João Donato cutucou um de meus ombros e pediu licença para se sentar ali e improvisar uma coisinha. Com aquela trilha musical, tive a ilusão de que a vida é sempre generosa.
João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, João Gilberto Noll: Joões para meu bico de leitor respeitoso. João Paulo Vaz e João Bastos são de outra natureza: dividimos nossos originais, portanto o que espero deles — e acho que eles esperam o mesmo de mim — é que não respeitem em demasia meus rascunhos.
Chegou meu dia de ser pai; isso há tempo. O primeiro filho, João. Não para homenagear alguém. Foi o gosto comum meu e da Bia. Meus pais, que não escolheram nomes bíblicos para os filhos, estranharam. Não liguei — não ligamos. Meu João, hoje um homem, um homem que admiro, caça seu rumo. E viver não é outra coisa senão caçar o rumo, sabendo-se que o rumo adora brincar de pique-esconde. 

4.8.13

Torcedor acanhado

Senti falta de negros na torcida durante a Copa das Confederações. Meu amigo, o Alberto Mattar, reclamou da ausência do torcedor desdentado, com radinho de pilha colado ao ouvido. Eu e o Beto não somos apenas uns nostálgicos empedernidos, ao contrário, nós, como muitos outros, captamos o aspecto excludente do evento. A ausência do negro ou do desdentado significa que à camada mais pobre da população não foi franqueada a entrada nos jogos. Uma pena, principalmente porque o País tem se empenhado em diminuir algumas de suas diferenças mais abissais, como a de renda, por exemplo. E mais pena ainda: o futebol é o esporte queridinho dos brasileiros, ricos ou pobres.
Imagem retirada deste site.

Em maio de 2010, Daniela Pinheiro, numa matéria para a revista Piauí, questionava as benesses de uma Copa do Mundo, tomando o caso da África do Sul, onde discussões parecidas com as que travamos hoje aconteceram. Em seu artigo, ela diz: “Quando a Fifa alardeia que os estádios devem estar lotados, portanto, é mais uma questão de estética de show do que financeira. O lucro da entidade em nada depende da venda de ingressos, mas para o sucesso do espetáculo as arquibancadas precisam estar cheias. ‘É o que o Berlusconi disse: o futebol ideal vai ser o dia em que a torcida receber para estar no estádio e se comportar exatamente como uma claque de auditório de um programa de tevê’, comentou Alvito“ (antropólogo Marcos Alvito, da Universidade Federal Fluminense).
Se essa é uma questão estética, o pobre não coaduna com os padrões de beleza definidos justamente por quem não é pobre — e é quem manda na Fifa, na televisão etc. e tal. Portanto, o que se vê é o seguinte: o país que aceita sediar a Copa do Mundo aceita cumprir todas as exigências da entidade. E essas funcionam como se, durante os jogos, uma área do país fosse extraída dele, passando a ser de responsabilidade da Fifa. De responsabilidade não, pois a Fifa faz as exigências, mas não arca com os custos delas. A segurança, por exemplo, é garantida pelas polícias nacional, estaduais e municipais.
Estive no Maracanã para ver um dos jogos da Copa — a festa dos dez a zero da Espanha sobre o Taiti. O estádio está confortável, vê-se bem o gramado de todos os cantos. Os banheiros são bons e havia sempre alguém cuidando de sua manutenção. (Vejamos como funcionará a coisa em jogos dos campeonatos nacionais ou estaduais.) Enfim, ainda que possamos ter saudade do antigo, o de agora responde bem aos anseios de inovação.
Não vou tocar na questão de custo e corrupção porque, em relação aos custos, todo mundo sabe que foram exorbitantes e, no caso da corrupção, como brasileiro e mineiro desconfiado, não boto a mão no fogo por ninguém, mas não tenho elementos para dizer se houve ou não.
Sei que tudo que esteve e está fora dos campos de futebol (que, diga-se de passagem, não é novidade) fez de mim um torcedor acanhado. Não fui o único, ouso dizer. Como o Brasil estava em alvoroço cívico, gritando aos quatro ventos a frustração com uma pá de coisas, paralelamente à Copa das Confederações — e até por conta dela –, o grito de gol encontrou resistência numa garganta que pedia passagens mais baratas, escola de melhor qualidade, saúde para todos. Minha torcida desbragada está em virar o jogo das mazelas brasileiras.

A verdadeira festa junina

A polifonia das ruas zumbe e zumbirá por um bom tempo nas dobras do País. Esqueça o vandalismo e pense: um sopro só e os políticos se mexeram. No Congresso votaram projetos guardados nos armários havia séculos. A presidente viu entrar por sua sala uma pauta com a qual não contava. Todos sabemos que as reformas política e tributária, entra governo, sai governo, não passam de assuntos tratados nas campanhas eleitorais, se tanto. 
Como não somos burros, não comungaremos a unanimidade das ruas por muito tempo. Nem tudo que quero para o País meu vizinho quer. Quero andar num ônibus confortável, ter metrô de alcance compatível com o tamanho da cidade em que vivo, ele quer lugar na garagem para mais um carro. Ele quer estourar o Maracanã, eu, poder assistir meu futebol em paz. Teremos pensamentos distintos em relação à ideia de cura dos gays, ao lugar que devem ocupar as igrejas nos espaços público e representativo.
Nossas manifestações arranharam a importância da política, dos partidos. As mudanças que estão sendo demandadas (multifacetadas e nem sempre convergentes) dependerão da política — portanto dos partidos. Esse atrito abre espaço para experiência de exceção? Sim, claro, mas também pode reforçar os protocolos da democracia e, por conseguinte, a própria democracia.
Acredito que nossa trajetória recente — viver a ditadura, superá-la, entrar na democracia, viver sob o comando de aventureiros devidamente expulsos do poder e, depois, ter governos menos distantes dos anseios populares (PSDB e PT), ainda que reféns do jeito ancestral de fazer política em nossa terra — nos fará optar pela democracia. Então será fatal reforçar os partidos, dar cor bem definida a cada um deles. Essa tal reforma política, de um jeito ou de outro, terá de vingar.
(Faço um ato de fé, agarrando-me ao meu otimismo atávico.)
Antes de terminar, dedico duas ou três palavras à questão do vandalismo. Acredito que houve aquele incentivado por forças retrógradas, mas também houve o espontâneo. Houve, no abuso das polícias, o vandalismo de farda (uma pequena passeata iniciada em Bonsucesso terminou com um verdadeiro massacre, comandado pela polícia do Rio de Janeiro, na favela da Maré).
Partindo desse ponto de vista, minhas palavras serão voltadas aos vândalos espontâneos. No muque, no furto, na destruição, não dizem nada? Dizem, ora se dizem. Eles dizem que há uma fatura não paga. Não bastam as bolsas isso e aquilo — boas, sem dúvida nenhuma —, mas é preciso agregar algo que as mercadorias por si só não são capazes de satisfazer. Há um desejo de inclusão, que, muitas vezes, não passa de uma demanda básica, como é o pedido de saneamento (e não de teleférico) na Rocinha. Aliás, a passeata que saiu da Rocinha e engrossou no Vidigal, a meu juízo, foi o momento máximo de todo esse movimento. Quebrando todos os estereótipos, nenhum ato de vandalismo. Ao contrário dos vândalos espontâneos, estes souberam dizer muito bem.
Imagem retirada deste site.

7.7.13

ABC da rata

Não sei quem e quantos conhecem a expressão “dar uma rata”. Significa cometer uma gafe, dar uma mancada. O sujeito que dá ratas é o sem-noção, o mané, não sei mais quais adjetivos aproximam a expressão tirada do fundo do baú de outras hoje em voga. Pouco importa, não estou aqui para platitudes vocabulares e sim para destrinchar a rata com um pingo de didática; e só.
A rata pode ser da alçada íntima, por exemplo, alguma estranheza que, sem saber, um ou outro do casal recém-formado deixa escapar durante o sono: uma frase enigmática balbuciada entre dentes; uma virada de lado com energia descabida e distribuição de socos ao deus-dará. Ratas íntimas e inconscientes são para deleite e análise de Freud, não para o meu. As conscientes, ou pelo menos aquelas que encontram os namorados acordados, interessam mais ao meu rascunho didático. Um segredo revelado numa mesa entre amigos ou uma reclamação do caráter do parceiro na casa dos sogros são ratas típicas. E doloridas. Quem viveu, sabe; quem não, esteja preparado, acontece com alguma frequência.
Pode-se definir a rata coletiva, cometida por um amigo e absorvida pelos demais. Quando adolescente — na realidade, pré-adolescente, ali com uns doze anos —, o Mosquito (que foi feito dele?) foi operado de fimose, e uma amiga não sabia que diabo era isso. Num tempo em que sentíamos vergonha de fazer comentários sobre aquela região do corpo que até nossos pais não costumavam nomear, não encontrávamos palavras para tirar a inusitada dúvida. Apostamos na generalidade: tratava-se de uma cirurgia feita com o propósito de não inibir o crescimento. Não dissemos do quê, mas, se bem me lembro, fizemos um gesto. A amiga, incapaz de perceber a sutileza de nossa comunicação e sabendo, como todos sabíamos, que o Mosquito não era um menino alto, diagnosticou que ela também deveria render-se ao bisturi, pois era baixinha além da conta. A rata dela virou folclore entre nós, mais que isso: tornou-se nosso patrimônio coletivo. Sempre que nos encontramos, relembramos o bafo. Para quem chegou depois, maridos e mulheres que não pertenciam ao grupo, rata, rata mesmo, é contar e recontar coisa tão desimportante — e sem graça. Essas ratas fraternas, na prática, alinhavam e sustentam as relações duradouras. É a rata mosqueteira: uma por todos, todos por uma.
Nas barbas da diplomacia, prolifera a rata internacional. Não pode ser confundida com atrocidades do tipo invadir países ou promover golpes de estado. A rata internacional é o rei da Espanha mandando Hugo Chávez calar a boca. Ou Reagan dizendo que Buenos Aires é a capital do Brasil. É coisa mais jocosa que grave, mas, nem por isso, isenta de danos. A Guerra de Troia começou com uma rata: entre todos os deuses, a deusa da discórdia, Éris, foi a única não convidada para o casamento de Peleu e Tétis (que viriam a ser os pais de Aquiles). Ora, não deu outra: a deusa, vingativa e manipuladora, fez e aconteceu, jogando, ainda que de forma indireta, Paris nos braços de Helena, a esposa de Menelau. Daí em diante foi o que foi; se é que foi.

Haverá — é lógico, mas não se prova — a rata intergaláctica. Vai que a noite e o dia (resultado de uma complexa engrenagem), do ponto de vista de galáxia distinta da nossa, não passem de um tropeço risível do sistema solar. Ou que um cometa, que só de rai e rui corre visível a olho nu pelo céu, equivalha a um pum impertinente, que escapa no meio de uma reunião de negócios. A ideia de rata nesse nível não parece desajuizada, embora poucos se preocupem com ela, talvez nem mesmo, ou muito menos, a própria cosmologia.
Deus comete ratas. Os muito céticos afirmam que o homem e a mulher foram um erro divino. Não vou discutir essa questão delicada, que julga o ato divino, que o considera errado. Não vou por aí, meu foco é a rata, coisa miúda. E a rata de Deus foi dar próstata ao homem e marcar o ciclo da mulher com a menstruação. Havia soluções de engenharia ou arquitetura mais eficazes. 


30.6.13

Imagens colombianas e outras

Em maio circulou pela internet reportagem sobre um dicionário muito particular, o “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças” (não há notícia de que tenha sido traduzido no Brasil, e o título é o que consta das matérias). O livro, um apanhado de definições genéricas, foi resultado do que o professor colombiano Javier Naranjo recolheu no seu convívio com crianças ao longo dos dez anos em que lecionou numa região rural de seu país.
Naranjo, autor do livro.
Há coisas realmente surpreendentes. Uma pequerrucha de sete anos, Natalia Bueno, diz que a igreja é “onde a pessoa vai perdoar Deus”. Imagino que o professor catalogou essa “definição” sem fazer nenhum juízo de valor a respeito. Já não sei se, ao sair o livro, a menina não tenha levado um bom corretivo. De seus pais. Do pároco local. Eu considero a frase um soco nas nossas certezas religiosas, o que me apraz, não por ser assunto religioso; de fato me apraz tudo que vá contra qualquer outra certeza. É meu espírito anárquico, e cínico.
Menos controversa é a frase de Duvan Arnnulfo Arango, que, no alto de seus oito anos, definiu o céu como sendo “de onde sai o dia”. Com a mesma idade, Leidy Johanna García afirmou que a lua “é o que nos dá a noite”. Para terminar as citações, com pitada poética e uma ironia desmesurada, ao definir mãe, Juan Alzate (seis anos) disse que “mãe entende e depois vai dormir”.
Ao ler a matéria, me lembrei de Gabriel García Márquez. Se há algo que marque a literatura do colombiano são algumas das imagens que ilustram suas histórias. Boi que sobe escada (“O outono de um patriarca”). Borboletas amarelas que anunciam a presença de Maurício Babilonia (“Cem anos de solidão”). O médico que, ao auscultar um coração, ouve as lágrimas que o paciente derrama dentro do peito (“Crônica de uma morte anunciada”).
García Márquez.

Por pouco não alinhavo uma teoria. Já ia dizendo que o realismo mágico é apenas uma reportagem de García Márquez sobre as entranhas de seu país, haja vista que os meninos do dicionário são tão realistas mágicos quanto ele. Mas aí me curvei às minhas lembranças de pés quebrados. E Kafka, lá doutra banda? E Juan Rulfo, anterior ao colombiano? E os surrealistas? Não encontro razão, mas, nessa viagem rasa, aportei em Murilo Mendes, ele também cheio de imagens brutas. Num de seus poemas mais conhecidos, uma paródia à “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, ele canta: “Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade/ e ouvir um sabiá com certidão de idade!” E noutro momento, em “O homem, a luta e a eternidade”, seus versos finais são estes: “Um dia a morte devolverá meu corpo,/minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins/meus olhos verão a luz da perfeição/ e não haverá mais tempo.”
Murilo Mendes, por Guignard.

Entre o pensamento bruto das crianças colombianas (e de qualquer outra, na verdade) e os trabalhos de García Márquez ou Murilo Mendes, há uma linha estendida, longa; numa ponta, o bárbaro; na outra, a sofisticação, o pensamento profundo e articulado. Mas pergunte a um escritor, os que citei ou outros, o que procuram. Aposto um contra mil que todos querem recuperar a criança que um dia foram, querem abraçar a espontaneidade e a visão assustada e virgem que os pequenos têm.


9.6.13

Hablan Español

         Na década de 80, éramos comunistas, pero no mucho. Na realidade, alguns mais, outros menos, e nenhum metido em lutas armadas. Ficávamos no nível dos comitês de solidariedade. Na PUC, fizemos um pró-Nicarágua. Muitos latinos metidos aí, e entre eles, sim, uns exilados argentinos e chilenos com maior comprometimento político. Líamos Cardenal, o poeta e padre da Nicarágua, país do qual ouvíamos as músicas de resistência. Uma delas nos levava a dançar como só a música de um Tim Maia ou de uma Madona ousam fazer. O refrão desse verdadeiro hit era mais ou menos assim: “los oligarcas de ayer, los verdes claro de hoy”.

       Bem, daí a Borges foi um pulo. Daí aos Parras outro pulo. E tome Cortázar, Garcia  Marques, Sábato, Neruda, Inti Illimani e não sei mais quem.

          Pouco a pouco, foi-se construindo uma geografia inexistente, que definia um país que tinha início no sul do Uruguai e terminava no sul dos Estados Unidos. Tudo isso teoricamente, friso, ainda que não pareça necessário, porque, vocês sabem, ninguém se livra de pequenos rancores. Nem sempre o abraço de um argentino caiu bem num chileno, nem o desse num boliviano ou peruano. Porém, era no mundo das ideias que transitávamos, e nele, uma América só.

         Não sou dos saudosistas de plantão, no máximo sinto falta de quando não tinha barriga e o cabelo era pretinho — bem, mas isso não vem ao caso. O que interessa é que essa nostalgia me veio durante a viagem que fiz a Lima, no Peru.

          Encontrei a cidade em obras, o que aumenta o seu contraste explícito: uma cidade moderna, transitada por veículos — em especial os do transporte público — velhos; uma cidade cosmopolita, habitada por Incas ancestrais.

        Povo hospitaleiro, boa comida, trânsito caótico em ruas de poucos sinais, em suma, várias camadas do tempo num mesmo lugar. Susana Baca, cantora do país, retrata bem essa síntese. Canta seus folclores, canta também a música negra americana e ainda Milton Nascimento. Se não estou enganado, foi, como nosso Tom Zé, uma das pérolas (re)descobertas e lançadas nos Estados Unidos pelo bom líder do Talking Head.

        Minhas visitas a países de língua espanhola sempre se transformam em uma oportunidade para conhecer novos artistas, particularmente os ligados à música. No Peru, foi, graças a uma dica de meu primo Lucas, essa Baca, de voz doce e interpretação contundente. Na Argentina, conheci uma moçada nova, que anda sacudindo o velho e bom tango. O senhor Joaquín Sabina é da Espanha.

          Acho estranhíssimo que se conheça tão pouco a música dessa turma. Sabina, por exemplo, é um espetáculo moderno e antenado com o mundo em que estamos vivendo assoberbados. No Brasil, o único disco dele que encontrei nas lojas foi um gravado com Fito Paez, o argentino que o pessoal do Paralamas nos apresentou. Uma pena! Sabina transita pelo mundo de Almodóvar, artista que conhecemos tão bem, ainda que o cineasta seja mais novo que o músico. Não por acaso, uma de suas músicas é intitulada “Yo quiero ser una chica Almodóvar”. Sabina é engraçado, maldito e, como soam às vezes os hispânicos, um pouco brega — um produto com açúcares de Lobão, farinhas de Chico e baunilhas do Rei.

         Enfim, minha viagem a Lima trouxe de volta a sensação de que estamos longe daqueles que estão aqui mesmo, ao nosso lado, grudados até. Não deveria ser assim.

29.5.13

Tá limpo

Do site Bolsa de Mulher.

Gosto de sabão de coco. Sei lá por que razão, mas gosto. Fico chateado quando vou às compras do mês e falta esse item na lista.
É um sabão de múltiplas funções. Com ele, eu lavo o material usado na ginástica. Quando digo eu, sou eu mesmo. Volto da piscina e esfrego a sunga e a touca. E, para isso, sabão de coco, o mesmo com que se pode lavar a louça, embora lá em casa ao detergente líquido de maçã esteja reservada essa função.
Meu barbeiro conta que certa vez recomendou a um cliente usar sabão de coco no cabelo. O cliente chamou-o a um canto e disse-lhe que tinha uma condição financeira razoável, poderia comprar algo melhor. Sujo preconceito.
Nicolau, um colega de meus tempos de Belo Horizonte, lá pelos anos de 1977 ou 1978, só usava sabão de coco em seus longos cabelos. Nicolau, nunca mais o vi. Uma vez levei-o a Passos. Chegamos bêbados e saímos trêbados. Numa reunião na casa de um rolo meu, o Nicolau, em certo momento, se meteu na cozinha para preparar mais um drinque. Que drinque! Nunca vi nada igual antes ou depois daquele dia. Como haviam acabado o limão, a laranja e outras frutas (o próprio coco ou sua água cairiam bem) com as quais se faz uma boa batida, ele misturou a cachaça com leite e Nescau. A combinação não ficou boa, aliás, ficou péssima, mas bebemos tudo até o fim (dela e nosso). Reforço que o sabão de coco aplicado ao cabelo de meu amigo não explica a experimentação insana que fez. Foi a contingência, momento de uma sede transviada.
Na avenida Brasil, um dos principais acessos ao Rio de Janeiro, na altura de São Cristóvão, havia uma fábrica de sabão; de sabão de coco, inclusive. Era algo repulsivo, fedorento. A desindustrialização do Rio poderia ter melhorado a qualidade do ar, mas a avenida continua com cheiro ruim, agora por outra razão: há por ali uma usina de reciclagem de lixo. Atividade louvável a reciclagem, mas o odor...
A empresa de sabão foi desativada faz tempo e o prédio da fábrica sofreu um incêndio no ano passado. Dizem que a prefeitura pretende construir no local uma segunda cidade do samba, ou seja, um espaço para as escolas montarem seus barracões e, neles, prepararem o carnaval. Assim, concluo, o sabão cede espaço ao samba; ou a indústria, à cultura, coisa rara. Resta torcer para que os envolvidos nesse projeto mantenham suas mãos limpas, lavadas ou não com sabão de coco.
O sabão de coco é apenas umas das maravilhas produzidas a partir do coco. Fruto moderno, muito antes de os dias atuais demandarem trabalhadores capazes de desempenhar mais de uma função, já era usado tanto como alimento (doce ou salgado) e óleo quanto como matéria-prima para bijuterias, enfeites e instrumentos musicais. Não é pouco, e só mesmo um desalmado compositor se atreveu a dizer que havia enjoado de um amor, que nem era doce de coco. Iê-iê-iê mais bobo, sô!
Não, nunca lambi sabão, nem de coco. Quando me mandam, e mandam com frequência, desobedeço de cara limpa. Sou dissimulado; assim mesmo, ou justamente por isso, invejo um amigo por afirmar orgulhoso que na casa dele quem manda é a mulher, mas quem desobedece é ele.

6.5.13

Decisões de um fim de domingo


Amanhã, logo cedo, vou escrever uma carta nos moldes antigos — colocarei no envelope e, depois de selada, levarei aos correios — para a Perpétua, antiga auxiliar de minha mãe no Lactário. Direi a ela que sempre gostei do seu jeito calmo e, do mesmo modo, do seu nome. Se eu me chamasse Perpétuo seria um fiasco paternal sem rima alguma, mas nela o nome tomou feições de sublime, artístico.

A Pair of Shoes, Van Gogh

Fugindo de um dos meus princípios, o de não engraxar sapatos para não tirar deles sua história, é provável que, depois dos Correios, eu entre na engraxataria da Rua da Assembleia e encomende o básico: graxa, sem tinta. O sapato é velho, não nego, mas nada de apuro exagerado. Lá — sei porque já fui outras vezes — o engraxate nos convida a subir numa banqueta alta, da qual se vê o mundo de cima. Confesso que fico um pouco constrangido, tanto por me ver em destaque, mas principalmente por ter alguém a meu serviço em posição tão subalterna. Mais uma razão para odiar engraxar sapatos. Mas, é fim de domingo, bom momento para quebrar ao meio certezas arraigadas.
Com os sapatos limpos — ou seja: sem as digitais de minha história recente (os sapatos duram pouco e guardam, quando muito, um cisco de nada de nossas vidas) —, sentarei numa praça. Uma mulher bonita há de passar por ali, então, planejo de antemão, olharei para ela com todo o respeito possível. Nas suas formas caberão tão bem as minhas! Mas evitarei esse caminho do desejo e trilharei outros. Se ela tiver pedigree de moça bem-sucedida, cujos estudos em boas escolas deram-lhe o emprego cobiçado por um a cada dez jovens no mundo, pedirei a Deus na sua infinita bondade que a poupe de despautérios, que não a faça viver momentos de decisões amargas, muitas vezes cruéis. Que não se coloque em sua vida, por exemplo, financiamento de guerras, maracutaias empresariais, canalhices dessa ordem.
Posso evitar a praça. Sair do engraxate, tomar o rumo do antigo Cais Pharoux, ali embarcar numa balsa para Niterói e, lá, encostar-me a um balcão de um bar qualquer. Provocarei o atendente, dizendo-lhe que consigo lamber o cotovelo enquanto pulo num pé só. Decerto ele estará cansado de fregueses tão sem-noção e, automaticamente, se debruçará sobre o balcão a fim de ver o espetáculo. Eu, que desconheço quem tenha essa dupla habilidade, recorrerei a um escancarado blefe para forçar uma simulação. Quando terminar, raciocinarei que cometi um ato vil, desrespeitoso, mas será tarde, restando apenas o consolo de culpar o domingo por decisão tão disparatada. Como forma de compensar o rapaz, disposto a pagar o dobro do preço registrado no cardápio, pedirei um caldo de cana e um joelho. O joelho fará com que me lembre do cotovelo e acabarei rindo, o que poderá deixar o balconista severamente chateado.
Se sair ileso de Niterói, terá chegado o momento de trabalhar. Ou já até terá passado. Neste caso, farei uso do banco de horas, essa invenção das empresas para cobrar nossos atrasos e não pagar nosso excesso de horas trabalhadas. No escritório, não sei se notarão o lustre de meus sapatos. É possível que um ou outro brinque com o fato, insinue que estou de olho em alguma moça nova, coisa ridícula e corriqueira que acomete homens de meia-idade. Darei de ombros, mais interessado em contar da Perpétua à turma. “Foi uma paixão?”, perguntarão curiosos. Quando lhes disser que não, Perpétua é apenas um nome bonito para identificar uma moça amável que trabalhou com minha mãe há uns quarenta anos, ficarão decepcionados. Não me restará alternativa a não ser a de confessar-lhes que, não faz muito tempo, assisti a um milagre. “Verdade?”
Sim, vi uma senhora na casa dos oitenta anos cair de uma altura de dois metros, dar uma cambalhota no ar e pousar no chão sem sofrer nada além de uns pequenos arranhões. Não é um milagre? Na segunda-feira, contarei isso aos que não creem nas leis da física.

3.5.13

De volta ao miojo


Numa prova do Enem, um rapaz, não de todo bobo, ao escrever sua redação sobre a questão da imigração tascou, entre raciocínios que capengavam com sujeitos separados de verbos por minúsculas vírgulas, uma receita de miojo. Ferva a água, jogue a massa e o tempero, espere três minutos e pronto! Assim mesmo. O encarregado de corrigir a redação não achou nada de outro mundo e deu ao rapaz uma nota razoável.
Mal começou a circular a notícia, os batalhões dos apaixonados por todas as causas começaram a duelar. De um lado, os que viram no fato o fim do mundo. De outro, os que contemporizaram e disseram que, numa perspectiva menos rígida, a coisa não seria tão terrível assim. Poetas, como o meu xará Alexandre Marino, consideraram poética a atitude do rapaz — de fato, é.
Alphabet Soup Talk

Parei de acompanhar o bafafá quando os linguístas saíram da toca e entraram na luta. Ao prender-me a questões eruditas, perco horas que podem ser gastas na vagabundagem, tempo suficiente, por exemplo, para fazer uns quinze miojos e umas três redações sem grandes erros. A gula e a pretensão são meus pecados interioranos.
Bem, não posso ficar aqui dourando a pílula, que, aliás, nem sei se teria uma receita própria para ser dourada. Sou A? Sou B? Sou da laia dos poetas? Respondo assim: grã, foi engraçado, mas é triste.
Foi engraçado o bafafá todo, a inteligência daqueles que, diante da jogada arriscada do candidato, saíram em defesa da lógica menos cartesiana, a mesma que rege o texto literário. No limite, seguindo esse raciocínio, o garoto tirou uma nota baixa.  
É triste, e cozinha meus miolos, o fato de o Enem, que está sob a supervisão do MEC, colecionar mais um desacerto. Não bastou o vazamento das provas na época em que Haddad era o ministro. Agora não é a redação do rapaz, nem seus erros, muito menos sua nota, mas o fato de o MEC não sair em defesa dos critérios das provas que aplica, preferindo acenar para a mudança deles, que passariam a não permitir brincadeiras como as do miojo ou a do hino do Palmeiras, incluído em outra redação.
Ou seja, se o rapaz não é um alienado e ignorante, mas um cáustico humorista, a vida para ingressar na faculdade não será fácil. O governo decidiu, numa canetada e atônito diante da pressão da mídia e das redes sociais — e sem ouvir os poetas, aliados do momento—, sangrar o bom humor. Não adianta ter simpatia pelo Haddad e pelo Mercadante, os fatos jogam contra eles.
O jovem no futuro chorará no ombro da história, nostálgico do tempo em que quem sabia uma receita de miojo era douto. E como de douto pra doutor falta um errezinho de nada, coisa que sempre se acha nessa sopa de letrinhas que é viver no país da bagunça cotidiana, ele, coitado, terá chegado atrasado à festa. Aí não adianta bom humor. Nem chorar sobre o leite derramado.

12.4.13

Que fevereiro foi esse?


Do ponto de vista do universo, dos universos, melhor dizendo, caiu um pedregulho na Terra, logo ali na Rússia. Um pedregulho, e todo aquele estrago. Como somos pequenos!
Duas estagiárias do Senado Federal foram demitidas por terem postado no Facebook a foto de uma ratazana encontrada na gráfica do próprio Senado ao lado de um comentário do tipo: “Renan Calheiros não é o único problema.” Abandono a discussão importante a propósito de se as meninas deveriam ou não ser demitidas, se as empresas deveriam ou não bisbilhotar a vida virtual de seus funcionários etc. e tal. Prefiro dizer que essa história mostra bem como o Renan está “pedindo”. Não só ele, claro, todos os senadores que o recolocaram como presidente da casa em que nem deveria entrar.
Há uns vinte anos, o médico que trouxe à luz meus filhos mais velhos mudou-se do Rio para Santa Catarina. Fugia da violência. O mundo dá voltas, camará.
Não entendo dos meandros do poder do Vaticano, sei avaliar, quando muito, como Bento XVI tem-se mostrado conservador em muitos assuntos. Logo, não reajo nem com alívio nem com apreensão a sua renúncia. Por outro lado, ri com algumas tiradas em torno desse assunto. No Facebook, além de lançarem Sarney, Lula e Malafaia como candidatos à sucessão, fizeram uma charge na qual o Papa incentiva a renúncia do Renan, pois, se ele, que é Papa, renunciou, o que impediria o senador de fazer o mesmo? Tenho amigos sérios e que entendem de política de modo geral, a do Vaticano em particular. Eles me disseram que alguns possíveis substitutos do Papa podem fazer com que consideremos light o conservadorismo do que se despediu em fevereiro.
Um acidente na Avenida Brasil envolvendo um ônibus não é raro, mas acidente provocado por conta de um passageiro indignado ter agredido o motorista que não quis parar fora do ponto já não é assim tão comum. O passageiro é um desequilibrado, não resta dúvida, e, se hoje ele agride por motivo tão banal, amanhã poderá fazer coisa pior por outros vãos motivos. Não conheço o desfecho da história, mas aproveito o incidente para refletir sobre o seguinte: ponto de ônibus no Rio de Janeiro é mais uma ideia do que um lugar onde as linhas A e B param e a C não. Sim, os motoristas fazem o que querem. Não só eles, nós, os passageiros, igualmente. É um tal de pedir ao “motô” — somos sempre transgressores gente boa — para abrir a porta um minutinho. Além disso, acho incrível uma coisa: em frente a minha casa, há um recuo para os ônibus pararem para embarque e desembarque. Com isso, saem um pouco da rua, e o trânsito flui normalmente. O que acontece? Os passageiros ocupam esse lugar, e os ônibus param no meio da rua, e a rua vira o caos. Somos miúdos, mas nossa estupidez não.
Vaticinei há um tempo: Yoani Sánchez não viria ao Brasil. Naquela época, não viria por não conseguir o visto para deixar Cuba. Pois bem, minha “profecia” se concretizou, só que agora, apesar de ter estado por aqui, ela continuou não vindo, pois não a deixamos circular livremente, lançar seu livro, participar do debate sobre um filme no qual dera um depoimento. Cerceamos a moça que, se não tivesse sido constrangida, poderia ter respondido a muitas perguntas que esclarecessem exatamente quem ela é. Qualifico essa passagem da blogueira por aqui como um vexame nacional. 

Fevereiro não foi um mês como outro qualquer. Nunca é, por causa do carnaval, essa coisa toda. Mas a renúncia do Papa, a queda de um meteoro e a vinda/não vinda da Yoani Sánchez ao Brasil tornaram o esquisitão fevereiro mais esquisitão ainda. Que doideira! 

______________________________________________________________
E veio março. Um Papa Argentino: de um lado, mais piadas e, de outro, uma esperança política na sua figura controversa. E outra briga num ônibus municipal no Rio de Janeiro vitimou 7 pessoas. E três homens, enlouquecidos e reincidentes, estupraram na van (deveria ser apenas mais uma possibilidade de transporte público) uma turista francesa. Esperamos por abril ou já jogamos a toalha e ficamos na expectativa de 2014?

30.3.13

O passado é azul coisa nenhuma


Mamãe ralhava comigo só de pensar nos possíveis amigos mais velhos que eu pudesse ter. Tinha medo de que, inocente, eu aceitasse uma proposta para fazer bobagem com eles. Fazer bobagem era alusão ao sexo, portanto mamãe tinha medo de que os meninos mais velhos (nunca as meninas) abusassem de mim, seu caçula. Naquela época não vinham à tona os casos de pedofilia, mas Dona Haydée era ciosa de sua prole e temerosa de que algo de ruim atingisse os filhos. Nada diferente de outras mães, a não ser o fato de a minha ter sido um pouco mais medrosa que a maioria delas.
Os meninos “grandes” não me fizeram nenhum mal, e pela vida afora, sem trauma, sempre tive amigos mais velhos. Ainda os tenho, apesar de um ou outro já não estarem entre nós. Fazem-me falta, mas morrer é desígnio da vida e conformar-se é imperativo.
O convívio com os mais velhos — não na infância e adolescência, quando, de fato, a diferença de idade não passava de dois, três anos, mas agora, na aurora dos meus cinquenta anos — coloca dois mundos em confronto. O meu, de rapaz do interior de Minas, da década de 1960; o deles, de nascidos em torno de 1940, vindos ou não do interior. No espaço de vinte anos, menos até, o Brasil sofreu uma tremenda mudança, e isso fica patente se me comparo àqueles que vieram à luz durante a II Guerra Mundial, por exemplo. Eles estudaram latim no primário, viveram na pele a ditadura militar e, para não ser exaustivo, sofreram um bocado para transar com a namorada. Nunca estudei latim; a ditadura estava dada quando “virei gente”, portanto sofri suas consequências — uma delas a de ter uma escola menos crítica, mais tecnicista —, mas não fui submetido aos constrangimentos físicos pelos quais passaram aqueles que se voltaram contra ela; e as namoradas da minha geração, nem todas, claro, mas uma grande parte delas, foram mais liberais.
Matuto a respeito de manter amizades como essas. Acho que perduram em grande parte pelo fato de nenhum dos meus amigos “velhos” serem nostálgicos. Deles não ouço nunca, ou quase nunca, a afirmação de que o passado era melhor que o presente. O presente tem o rabo preso com o passado, e eles sabem disso. Acertos e erros atuais foram semeados ontem.

Otto Lara Resende dizia que tudo visto de longe — seja em termos de distância (a terra, pelos astronautas), seja em termos de tempo (o passado longínquo) — é azul. Bela imagem do escritor mineiro, mas, na realidade, o passado é bom porque nele fomos jovens. E, quando se é jovem, tudo é fulgurante. Amamos com intensidade. Não somos moderados ao comer e principalmente ao beber. Como dizia o Renato Russo, vivemos como se não houvesse amanhã.
Os medos de minha mãe foram infundados, e hoje ela se espantaria ao saber que seu caçula passou a ser o amigo mais velho de muita gente por aí. Nessa condição, espero não perder de vista que o azul do passado é apenas o reflexo dos tempos em que fui senhor do mundo.

1.3.13

Rir e chorar


Meu caçula diz que pela primeira vez me viu rindo, rindo pra valer, agora à porta de seus treze anos. O riso fora provocado por uma matéria de Felipe Marra, publicada na Piauí de dezembro de 2012, sobre o comportamento das torcidas de futebol no Reino Unido. Bem, o grave disso tudo foi eu não ter rido durante treze anos. Como pode? Como pude?
Devo explicar a meu Pedro que não comungo de extremos. Quase nada me mata de rir. Tampouco me leva às lágrimas. Coisa de homem desconfiado, cético, sempre com um pé atrás. Homem também (principalmente) ignorante. Sim, sou um ignorante incapaz de rir a rodo. Ou de chorar baldes de lágrimas.
Aqui levo tudo ao pé da letra. Rir é gargalhar, abrir a boca, fechar os olhos, tremer-se todo. Chorar, contorcer-se, fungar, desidratar-se até. Nos dois casos, sair de si. Difícil que eu chegue ali ou lá. Falei em ceticismo, mas talvez seja insensibilidade, incapacidade de me matar (de rir) na piada e/ou de morrer (de chorar) numa possibilidade de tragédia. Burrice emocional.
Preciso dizer a meu filho que não veja em mim um homem duro e pessimista. Ao contrário, acho a vida boa, apesar de tantas coisas estranhas que acontecem por conta de nossa irresponsabilidade. Por exemplo, a morte dos jovens que dançavam na boate em Santa Maria.
A maldição é como me apego com unhas e dentes à razão, ancorado no mar sem eira nem beira da minha ignorância. É grave, gravíssimo. Mas é assim, sou refém desse meu traço.
Dou um cavalo de pau nesta crônica e, à procura de um exemplo que me ajude na explicação ao meu filho, falo do livro do Keith Richards (“Vida”, Editora Globo). O cara é um doidão, todo mundo sabe. Ao longo do livro, ele descreve coisas do arco da velha, algumas devem ser hilárias. São, de fato são, eu que não consigo me entregar simplesmente ao riso. Todos os excessos do cara me deixam um pingo e meio amargo.
E Amor (“Amour”, de Michael Haneke)? Uma amiga, escorpiana como eu, afirmou que somos dos poucos que conseguem ver um filme desses sem abandonar o barco. Ele é duro. A linguagem é dura. Não há, aparentemente, uma linha de escape, os velhinhos estão mais pra lá do que pra cá. (Mas com que elegância percorrem o último caminho!) A atuação dos atores, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, não deixa meia-brecha para pensarmos que estão apenas encenando. Está ali a verdade. (Mas é arte, não é vida; é imitação da vida, como se diz por aí.) Não sucumbi à decadência. Vi todo o esplendor do amor semeado naquele casal de velhos, vi, por exemplo, que eles tiveram uma vida sexual boa e saudável. Não me perguntem como vi, mas eu vi. Não dei banana para a tristeza que há na história contada pelo diretor austríaco, mas encontrei motivos para não chorar.