24.12.14

Os bons leitores

Para L., T., M.L., J., D., S. e P., amigas cujos nomes estão preservados,
mas que, espero, se reconheçam na crônica.


                       Meus amigos de escrita que me desculpem, mas eu gosto mesmo é do leitor puro, não escritor, o que vai desarmado para os livros. Sou obrigado a ouvir meus parceiros de literatura, pois eles serão críticos capazes de apontar um problema sério num conto, num poema, seja no que for. Mas o leitor puro, puxa!, esse surpreende.

                  Em 2015, “Contos de homem” completará 20 anos. Livro de estreia, logo me mostrou a força do leitor. Depois de ler o livro, a mãe de colegas de meus filhos, hoje minha amiga, disse que desconhecia questões masculinas tão densas, verdadeiro mergulho em águas profundas. O Nelson Vasconcelos, na orelha, afirmava que o livro não era apenas para homens, quiçá (cito de cabeça) não se dirigisse exatamente a eles (a nós). Mas a amiga foi além, falou em profundidade, espaço no qual, segundo o senso comum, os machos não pisam. A leitura feita por minha amiga me fez olhar “Contos de homem” sob outra perspectiva. Na realidade, não só esse livro, a partir do comentário dela, mudou minha percepção da literatura que faço.

                     Há leitores cuja reação é corpórea e sintética. Ri demais (uma ex-namorada). Sou aquela atriz de “A câmera e a pena” (irmã de um escritor meu chapa que virou minha amiga). Chorei feito boba (amiga virtual e recente). Nó! (uma das minhas irmãs). Gosto dessas leituras, ainda que elas não me façam avançar no entendimento da relação escrita/leitura. Pera lá, fazem avançar sim, afinal alguém riu, e eu não escrevi para provocar riso. Alguém se viu em quem inventei. Alguém chorou, mas não era para tanto. Até mesmo uma leitura interjetiva me leva a crer que, bem, às vezes meu texto espanta.

                 
Pintura de José Ferraz de Almeida Júnior, retirada do blog Fragmentos de uma vírgula
                          Mantenho meu blog já há bastante tempo. A partir dele – que, como regra, guarda as crônicas escritas para jornais – recebo, não com frequência, manifestações de leitores desconhecidos. Uma moça, certa vez, me mandou um e-mail lindo. Nele nomeava de surpreendente minha escrita, em parte pelo fato de eu usar palavras que ela só ouve da mãe (antigas, eu deduzo). Depois ela arremata assim: “Acho que você expõe tudo que nós somos, mas fazemos questão de esconder debaixo do tapete para passar uma impressão de ‘casa limpa’”. Falou pouco e disse muito, expôs um alcance muito maior do que eu poderia supor atingir. Depois dessa aproximação, eu e ela, aqui e ali, nos correspondemos.

                     Um último exemplo. Ela deve ser da minha idade, mas estava adiantada no colégio. Andava com minha prima Maria Cândida e com outras meninas que faziam parte das mulheres lindas e inalcançáveis de minha adolescência. Por isso, e apesar de eu ser amigo de seu irmão, nunca tivemos muita intimidade. Pois bem, o Facebook nos aproximou, e ela foi ao lançamento de meu “Qual é, solidão?”. No dia seguinte, me mandou uma mensagem tão certeira que eu, ao respondê-la, não consegui ir além do refrão de um personagem antigo do Jô Soares: “ah, é, é!” Ela começou o texto de forma surpreendente: “Li seu livro de um trago só”. (É mais que uma leitora, a imagem sugere.) Tendo dito isso me perguntou como eu consigo transformar instantes em histórias tão completas. Não sei responder, mas ela matou a charada, minha vontade, enquanto escrevo, é estender o instante.

                     Citei só leitoras? Sorry, amigos, homens não transitam nas profundezas. Falo de mim, que, se quase chego lá como as leitoras têm dito, é por acaso, na bamba. Falo dos leitores masculinos, que leem entrelinhas, claro, mas de outra forma, em suas bordas.

15.12.14

Obrigado, conterrâneos

Na minha última ida a Passos, novembro de 2014, colhi alegrias de toda sorte, mas uma decepção. Começo pela decepção, pois, ao compartilhá-la no Facebook, vi que não é só minha.
Vamos começar por uma afirmação categórica: Passos não gosta de seus prédios históricos. Quase sempre os derruba. Um deles, ainda em pé: o Educandário. As lembranças que tenho do Educandário são as melhores possíveis. Ali joguei muita bola. Para ser sincero, via as partidas, mas dificilmente participava delas, pois não era um bom jogador. No meu time, da rua do Ouro, meus primos Branco, Cássio e Raul davam conta do recado. Uma vez o Branco, depois de infernizar a defesa adversária, levou uma entrada tão desleal que o Cássio saiu lá do meio de campo e partiu para o soco. A briga poderia ter sido daquelas terríveis — corriqueiras na época de minha juventude —, porém, por alguma razão, foi contornada. Melhor assim.
Melhor assim principalmente porque pude preservar a memória do campo do Educandário como um lugar de alegria. Do mesmo modo, há uma alegria quando me lembro das canecas das festas do chope que aconteciam ali. Eu, por ser bem novo, não bebia, mas meus pais e/ou meus irmãos compareciam ao evento, e as canecas acabavam na minha casa. Eu as achava extraordinárias, um objeto mágico a meus olhos de rapazote. Essas festas, se não estou enganado, eram organizadas por clubes como o Rotary e o Lions e visavam a arrecadar fundos para alguma de suas obras. Imagino que o próprio Educandário também recebesse uma remuneração pelo uso do espaço. Aliás, remuneração justa.
O fato é que o Educandário está ali, do mesmo jeito, desde sempre. Nós, que derrubamos construções antigas sem piedade, o preservamos. Imagino que pela força da instituição que o administra, a Igreja. Seja por que razão for, temos de agradecer o fato de um prédio dessa importância estar lá, intacto.
Intacto? Sim, o prédio está, mas um telão eletrônico obstrui a vista completa dele. Quem vai pela Sete de Setembro não o vê em toda a sua extensão. Depara-se, no lugar dele, com anúncios que emitem uma luz cegante. Um único telão e vários problemas decorrentes dele: não se vê a construção histórica, o motorista sofre interferência na sua visão pelo excesso de luz, as casas vizinhas se veem invadidas por essa mesma luz. Enfim, ao lado da questão ligada ao patrimônio, há outras ligadas à segurança do trânsito e ao direito das famílias ao descanso em suas casas. Imagino que o telão seja uma fonte de renda necessária para o Educandário, mas, a meu ver, a forma de obtê-la fere os direitos alheios. É uma questão política, miúda, mas política. Creio que os que concordam comigo podem e devem questionar os religiosos do Educandário sobre essa questão. E, além deles, as autoridades.
Prometi falar de coisas boas. Falo então.
Depois que meus pais morreram, vou a Passos particularmente para encontrar meus amigos, numa reunião anual que fazemos. Fiz o mesmo este ano, e não foi menor a alegria de estar com eles. Somos todos muito diferentes, mas temos um passado comum, importante para cada um de nós. Isso é liga que não se quebra.
Detalhe da decoração do Ladybug Rock Café, em Passos/MG.
Fui também lançar meu novo livro (Qual é, solidão?, Editora Oito e Meio). Escolhi às cegas um local: o Ladybug Rock Café. Não poderia ter sido melhor. Vivi ali, rodeado de amigos, uma noite perfeita. Helder, Roberta e Marcela, os donos do local, fizeram com que eu e meus convidados nos sentíssemos em casa, e o Tchurcão, tocando um repertório na medida, tornou prazeroso cada minuto que passamos ali. Para somar a tudo isso: os amigos, os primos, a cerveja, a noite nem quente nem fria. Ali, naquelas horas, fui um homem feliz.
Obrigado, meus conterrâneos.

7.11.14

Coisas que eu quase vi

Os meninos — sem se desgrudarem de suas garrafinhas de plástico, utilizadas não para beber água, mas para cheirar benzina e cola — corriam em disparada pela Voluntários da Pátria, via movimentadíssima do Rio de Janeiro, sem se importar com carros. Pensei em assalto, em briga, no pior. Logo me dei conta de que corriam na direção de uma Kombi parada em fila dupla. Pude ouvir então que gritavam a plenos pulmões: sorvete, sorvete. Imagino que se aproximaram da Kombi, onde se distribuía sorvete. Só isso, não mais que isso.
Assim serão as histórias que contarei daqui até o final desta crônica. Não sou jornalista, não tenho compromisso com a história inteira, muito menos com a verdade. Sou antena de rádio a válvula, capto pouco e chio muito.
Em São Paulo, um dos escritores mais respeitados entre os contemporâneos contou numa roda de bar que anda sempre com fone de ouvido, mas não escuta música alguma. É apenas uma estratégia para as pessoas que estão na rua, especialmente nos bancos do metrô ou dos ônibus, não se importarem com ele e falarem à vontade, sem pudor. Ele anota tudinho e aproveita depois num diálogo de um romance ou como o primeiro sopro de uma história. Pertenço a essa grei.
Duas mulheres caminhando. Primeiro na minha frente. Depois a meu lado. Por fim, atrás de mim. Não diminuíram a voz com minha aproximação. Sentiam-se sozinhas na rua, e uma reclamava que não era mulher dessas, o que estavam pensando?
Certa vez, ao sair do trabalho, a lua já no céu, duas meninas andavam em sentido contrário ao meu. Elas vinham, eu ia. Uma perguntou a outra: “E o fulano?”. “Não estamos mais juntos” — foi a resposta. “É?” — estranhou a primeira. “Sim, amiga” — justificou-se a que tinha terminado o namoro —, “não dá para ficar com um cara que tem a bunda maior que a minha.” (Confesso que, tão logo pude, me virei para saber se era fácil ou difícil ter uma bunda maior que a dela. Era fácil.) Elas passaram, e eu não sei como foi a reação da amiga curiosa. Sendo eu um poeta óbvio, resmungo: naquele momento, além das duas amigas, só a lua soube os desdobramentos do fim de um namoro cujas razões foram tão corpóreas. Eu chupei o dedo, eu vi navios.
Sob o plástico preto, um corpo. Talvez de mulher. Pode ter sido atropelamento ou tiro. Pode ser que, antes da chegada da ambulância dos bombeiros, como na música do Aldir Blanc e do João Bosco, alguém acendesse uma vela e outro vendesse quinquilharias aos curiosos. Certo, certo mesmo, é o que ocorreria mais tarde: escorrendo num rosto diferente daqueles então em torno do defunto, lágrimas fariam crer que a dor nunca teria fim. E teria. Ora, sempre tem.
O rapaz passa tresloucado em seu skate pela rua perigosa. A mulher anda às gargalhadas. O que foi feito do pirulito Zorro? O namorado segura a namorada e a encosta no muro. O engraxate vai contando seus trocados pela calçada. O ônibus não para no ponto. Seu Frota voltou para Natal, ainda nos anos de 1960. Alguém que não conheço me cumprimenta. Do lado de fora, ouço um zunzum na fila do caixa do supermercado. O jornaleiro pendura uma revista na parte externa da banca. O cachorro para, olha para o céu e late. O pai faz careta para o filho que leva no colo. Não existem mais velocípedes de ferro.
Tudo eu não sei. Nem quase.

3.10.14

A conjuntura do ponto de vista de um desencantado ainda esperançoso

O mendigo, dono de uma nova carência, bate à porta da casa e pede um copo d’água, “da pia mesmo, moça”. A casa – toca contra o frio, despensa com o básico e o supérfluo, colo de alvenaria – responde surpresa: “Água? Logo água?”
Aviões não caem para dentro do céu, puxados pela força do sol, pelo abismo de outros universos. Caem sempre no chão e deixam à mostra seu CNPJ forjado, seu pagamento na moeda não corrente dos favores. E espalha mortos, que a curiosidade retrata e compartilha nas redes sociais.
O jogo sujo é sujo e é jogo não é de hoje. Todavia os meios propiciam que o jogo sujo, na versão século XXI, seja feito em doses alopáticas, nas nossas fuças, sem que possamos dar-lhe as costas. O jogo sujo é o deus-onipresente de todos os matizes.
No Brasil sem fome há um monte de famintos. Assim como no Brasil menos desigual há desigualdades revoltantes.

De macaco não pode. De veado parece que pode. Um coro único vaiar aquele que foi chamado de macaco e cobrou respeito pode. Pode tudo nesse cantinho do mundo no qual floresce uma alma branca e gentil.
Depois de toda a engenharia, fazendo uso de todas as ferramentas e, claro, valendo-se também da sabedoria mais excelsa, o resultado está aí: o aeroporto deve ser (deve?) construído ali, ao lado da fazenda da família do mandatário.
Para que verdade se existe hipocrisia e marketing?
Morre-se mais pelo mundo em torno da droga do que pela droga em si.
Morre-se mais pela clandestinidade do aborto do que pelo aborto em si.
Errar é humano? Onde, amigo? Errar é inadmissível. Ou por outra, só o erro de quem apontou o seu erro é admissível. Ele ou ela são humanos, você não.
Senhor, diga-me com quem andas e direi quem és. Ando com safardanas e escroques. Portanto safardana e escroque tu és. Sendo assim, como a senhora anda com uns um-sete-uns e cinco dedos, um-sete-um e cinco dedos a senhora é. Calma lá, senhor, no meu caso é apenas pragmatismo visando ao bem.
A democracia, com todos os seus tropeços, nos trará um futuro menos sombrio. Espero. Acho que posso esperar.

30.9.14

Qual é, solidão - Informações

1) O livro chega a Belo Horizonte no dia 18/10, no Letras e Ponto (Rua Aimorés, 388, sala 501, Funcionários - telefone: 31-3273-2374).

2) No momento, é possível comprar o livro diretamente no site da Editora Oito e Meio, basta acessá-lo por esse caminho.

3) O lançamento de "Qual é, solidão?", no Rio de Janeiro, em um filmete muito bacana feito por Ricardo Birbeire Seffrin Ferreira. Basta clicar aqui.






15.9.14

Notícias do novo livro

"Qual é, solidão?", meu novo livro de contos, que sai pela Editora Oito e Meio, terá seu primeiro lançamento, no Rio de Janeiro, no dia 25/09/2014.

A reunião será na sede da empresa - das 19h às 21h30m, Travessa dos Tamoios, 32C, Flamengo. Essa rua é paralela à Paissandu, e a editora fica quase na esquina da Marquês de Abrantes. Um mapa pode ser consultado aqui.

Pessoal que trabalhou no livro:

Editora responsável: Flávia Iriarte
Capa: Paula Nestorov
Revisão: Marilena Moraes
              Teresa Cristina Pessoa Brandão
              Beatriz Werneck
Foto do autor: Beth Brandão. Tratamento da foto: Enderleila Conte
Orelha do livro: Miriam Mambrini



Além dessas pessoas, contamos com a colaboração fundamental de Tatiana Kely.


27.6.14

O Sol

Tenho cinquenta e dois anos e seis meses e uma única esposa e três filhos e alguns porres que me tornaram inconveniente e outros alegre e muitos cujos efeitos ainda ecoam na minha singularidade e cabelos brancos em todos os cantos, menos nas sobrancelhas, e alguns livros escritos e outros lidos e incontáveis nem lidos nem escritos. Com essa idade toda, digo “ontem” a tudo relacionado ao passado. Não é um ontem propriamente poético; é que o tempo, ao nos marcar com sua passagem, reduz-se a uma dimensão imprecisa. Ontem pode ser ontem, anteontem ou vinte, trinta anos atrás.
Portanto foi ontem que, morando em Passos, ouvi os versos de Caetano Veloso: “O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça”. Na época, eu não sabia ter havido (quiçá ainda houvesse) um jornal, editado por poucos meses a partir de setembro de 1967, chamado “O Sol”. Talvez Caetano fale dele na sua “Alegria, alegria”, mas, no documentário “O Sol – caminhando contra o vento”, de Tetê Moraes e Martha Alencar, ele mesmo duvida disso. Para mim, a música cantava e canta o Sol, o astro — o astro-rei, como o nomeava Miss True, colega tratada pela orientadora de uma oficina literária como exemplo de quem se exprimia num estilo ultrapassado. É verdade, ninguém fala mais astro-rei, mas, apesar disso, Miss True — de quem nunca mais tive notícias, nos vinte e tantos anos passados desde aquela época — tinha jeito para a escrita e era uma senhora bem divertida. Miss True era o pseudônimo de Vera, ao qual se chegou a partir das associações entre “vera”, “verdade” e sua tradução para o inglês, true. Fugi do assunto. Eis o ponto: eu via, ou a música do Caetano me fazia ver, o sol entrando nas bancas de revistas que frequentava. E aquilo me aprazia e acalentava minha companheira, na doença e na saúde, desde menino: a preguiça.
Foto retirada do blog "Grande Fraternidade Branca". 

Falei em bancas, mas era uma banca só, a do Tavares. Ficava onde hoje funciona um destacamento da Polícia Militar, ao lado da Matriz, e onde funcionou a Justiça do Trabalho, na qual trabalhou por um tempo o forasteiro Adão Ventura, poeta dos bons, infelizmente já morto. Eu ia à banca por dois motivos. Pelos gibis, embora não tenha sido um fiel leitor deles. Pelas figurinhas (de cowboys e de jogadores de futebol), colecionadas com paixão, ainda que, no bafo, perdesse grande parte delas, mesmo aquelas que faltavam no álbum. Minha mãe, sempre chegada a um joguinho, ao saber que os álbuns davam prêmios, encontrou uma boa chance de simultaneamente jogar e investir seu modesto capital. Preenchendo determinada página, ganhava-se um brinquedo qualquer; conseguindo o quase impossível – tirar todas as figurinhas carimbadas e raras e assim completar o álbum –, o prêmio era mais vultoso. Eu e minha sócia-capitalista, dona Haydée, ganhamos um fogão Continental muito do chinfrim. Não sei se o vendemos ou demos, essa parte financeira era mesmo com ela.
A imagem da cortina de pó subindo pela luz do sol que entrava pela janela da casa de meus pais faz parte das minhas mais fortes lembranças. Devia acontecer logo depois de passarem a vassoura pela casa, não sei. Apreciar o desenho feito de poeira e luz me tirava do mundo por longos minutos, isso sim, sei muito bem. O sujeito afeito a esse tipo de distração não pode ser muito diferente do que fui, ou sou, ou estou sendo. Alguns me chamam de viajandão, mas, nomeado assim ou assado, adoro contemplar o por pouco invisível e acredito piamente na possibilidade de tirar leite das pedras. Certa vez, me expus assim, ó: “Gosto do movimento das montanhas. De assistir ao coito das pedras.”
Foco no sol, cronista.
Nossa infinita ânsia de consumir até o talo da terra reduziu a camada que a protegia dos raios maléficos do Sol, e agora somos obrigados a aguentar o tranco e as consequências de nossa boçalidade. No meu tempo de criança, eu vivia sob o sol, era moreno e não me preocupava com a agressividade da radiação ultravioleta. Em casa, me chamavam, e ainda chamam, de Nego. Esse apelido carrega uma característica bem brasileira: mistura um pingo de racismo — embalado em ironia — com outro de carinho excessivo.
Hoje, ô vida, por ficar pouco exposto ao sol, sou obrigado a tomar vitamina D.

9.6.14

Conto no Suplemento Literário de Minas Gerais, março-abril de 2014


Conto publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais, em março-abril de 2014. Acesse aqui a publicação completa.

29.5.14

Mulheres longe de um ataque de nervos

Recentemente um filme e um livro me chamaram a atenção por contarem histórias de mulheres, longe da juventude, que se “perdem no mundo”.
Em “Ela vai” (no original, “Elle s'en Va”, de Emmanuelle Bercot), Bettie, a personagem de Catherine Deneuve, é dona de um restaurante, divorciada e vive com a mãe. Com a velha desculpa de “vou ali comprar cigarros”, Bettie começa a dirigir a esmo pelo interior da França. Ela se depara com um velho que lhe arranja um cigarro, entra num bar de beira de estrada, frequentado por pessoas sem muitas opções numa cidadezinha daquelas. Desse bar, bêbada, ela sai para um motel com um homem mais jovem. As andanças poderiam levá-la a sabe-se lá onde, mas a filha, com quem vive uma relação conflituosa, pede socorro: por conta de um compromisso de trabalho longe de onde vive, não tem com quem deixar o filho. Avó e neto, distantes de início, aproximam-se, pouco a pouco, pelo afeto e passam a fazer com cumplicidade a viagem sem rumo iniciada por ela. Vivem contratempos (inclusive a falta de dinheiro e um piripaque da avó) que os levam à fazenda do avô do menino, ex-sogro de sua filha. Sim, haverá uma história de amor, que eu, longe de querer tirar o prazer de quem venha a ver o filme, não conto. Seja como for, se filmes dessa espécie estão muito associados a homens (no topo, “Easy Rider”, com Peter Fonda e Dennis Hopper), as mulheres, quando se metem em aventura desse tipo, são jovens (“Corra, Lola, corra”, “Thelma e Louise”). Assim, o mérito do filme é mostrar que, como se diz, a vida só termina quando acaba.
Na literatura, não consigo me lembrar nem mesmo de uma personagem jovem que, à moda dos “perambulantes” de João Gilberto Noll, se perde em ruas ou cidades. Minto, há a do livro da Stella Maris Rezende, “A mocinha do Mercado Central” (Globo Livros), mas é uma mocinha, não uma senhora. Por conta de seu ineditismo, “Quarenta dias”, livro de Maria Valéria Rezende (Alfaguara), é pura surpresa. Impelida a se mudar de João Pessoa para Porto Alegre para ficar próxima da filha com planos de ter filhos, a professora aposentada, ao chegar à nova cidade, se depara com a mudança da filha, que, por conta de um doutorado no exterior, deixa a mãe ao deus-dará. Assim, Alice — podem pensar na personagem de Lewis Carol — conhece Porto Alegre na marra. Quando digo conhece, tenho de dizer que, na verdade, ela se mete na parte menos esplendorosa da cidade, a do povo que vive nas vilas — palavra com a qual os gaúchos nomeiam as favelas. É nesse canto que a paraibana encontra outros “brasileirinhos”, como ela e seus conterrâneos são chamados por lá, inclusive ou principalmente, pelos próprios pobres.
A razão pela qual Alice deixa o apartamento e vai às ruas da cidade desconhecida é um pedido de ajuda, vindo de sua Paraíba, para localizar o filho de uma amiga. Com a história da dor da mãe que perdeu o filho, Alice vai abrindo as portas das vilas e, logo, vai se transformando — ela mesma — de uma tal maneira que já não encontra meios de voltar à vida solitária, mas confortável, estabelecida em Porto Alegre. A incumbência de encontrar o filho da amiga perde o sentido e passa a ser usada apenas quando Alice precisa se aproximar de alguém, conquistar a atenção da pessoa. Durante os tais quarenta dias, a ex-professora, retirada de sua terra natal, se torna uma sem-teto. É uma aventura que, enquanto se desenvolve, dá ao leitor a dimensão de como há solidariedade — quase invisível — entre aqueles que têm pouco ou já não têm nada. No último caso, os dois mendigos com quem Alice trava uma amizade de fato representam o humano sem deformação, sublime. Aliás, será com outro empurrão, dessa vez de sua amiga de rua — e, fora do esperado, uma com teto —, que Alice voltará ao apartamento e, com urgência, passará a contar sua história num caderno em cuja capa estará a gravura de Barbie, essa boneca que representa o oposto do que a ex-professora é, mas que passa a ser a outra com quem Alice dialoga.
Apenas como curiosidade: a religiosa Maria Valéria Rezende viveu quarenta dias zanzando por Porto Alegre, dizendo, como Alice, que procurava o filho de uma amiga. Chegou a dormir em bancos de hospitais e rodoviárias. Isso está relatado em matéria do Estado de São Paulo, do dia 3 de maio de 2014 . Mais uma curiosidade: Maria Valéria, que chama muitos passenses de primos, tem raízes na cidade, passava férias por aí e se lembra até hoje do pontilhão da Santa Casa, coisa que quem nasceu depois da construção do “Tobogã”, ladeira que liga a rua Santo Antônio à Santa Casa, nem sabe que existiu.

3.5.14

Modos de crescer

Na edição brasileira do El PaísLuiz Ruffato conta, em crônica de 1º/4/2014, “Voando pelos ares”, como se tornou adulto. Não dou detalhes, corram ao site e leiam vocês mesmos, mas adianto que o processo de amadurecimento do escritor esteve ligado a uma bicicleta. Sim, a uma bicicleta. Cada um com a sua história.
No primeiro final de semana de abril, li notícias de mais morte de jovens em Passos, todas por acidentes automobilísticos. Antes e depois, outras notícias também de Passos — corriqueiras nos dias atuais — deram conta de dois ou três assassinatos de meninos de alguma forma ligados ao tráfico de drogas e a todo o submundo que se forma em seu entorno.
A morte de alguns amigos meus ainda jovens foi, penso, parte importante do meu processo de amadurecimento. O maior baque foi a morte do Branco. Era um garoto cheio de vida e que, para a alegria de seus colegas, tinha um fusca equipado com um som da melhor qualidade. Metidos naquele carro, enquanto a fita cassete repetia, à exaustão, o Deep Purple, descíamos a rua do meio, subíamos ao trevo, contornávamos mil vezes a Praça da Matriz. A música era nossa praia. Um pouco depois, ele ganhou ou comprou uma moto de 50 cilindradas e, nela, perdeu a vida. A notícia da morte dele, depois de dias e mais dias hospitalizado, me pegou dormindo. O Glã passou lá em casa e pediu que me acordassem. É, ser despertado com uma bomba dessas não é bolinho.
Velamos nosso amigo a madrugada toda. (No corpo cercado de flores, não restou nenhum pingo da beleza que lhe havia garantido sucesso com as meninas.) Na volta para casa, pela Rua dos Brandões, em algazarra, pedimos pão na padaria que se preparava para abrir. A moçada, nos bafos de seus dezesseis anos, não sabia sofrer em silêncio. Na verdade, nessa idade não sabemos fazer nada sem certo estardalhaço.
A partir da perda do Branco, nunca mais fui o mesmo. (A vida, insatisfeita, ou a morte, faminta, ainda levaram outros tantos: Nuna, Diminhas, Caco, Boda, Serjão, Cunha... não foram poucos). Morremos, descobri. Para adiar a morte eu teria de aprender a cuidar de mim, me sugeriu a intuição. Dar-se conta de que é preciso cuidar de si mesmo, a meu ver, é amadurecer. Não deixei de fazer besteiras — opa, fiz poucas e boas — mas quem fez ou deixou de fazê-las não era o filho do pai, da mãe, nem de deus, e, sim, alguém que, no soco, havia perdido a inocência e tomado a vida nas próprias mãos.
Deixando a questão pessoal de lado, o fato é que jovens morrem aos montes e, na maioria das vezes, engrossam as estatísticas de morte violenta. No passado, em acidentes e por excesso de drogas. Hoje, ao lado disso, muitas mortes associam-se ao tráfico, o que mostra que, num intervalo de mais ou menos 30 anos, mesmo em cidades do porte de Passos, o tráfico se consolidou em uma estrutura empresarial. Armada. A liberação das drogas e a consequente legalização de um mercado que deve persistir fariam diminuir o número de mortes violentas entre os jovens (não só entre eles, é verdade). Antes que alguém levante a mão e questione, já respondo: não, não acredito que o consumo aumentará com isso, ao contrário, com uma campanha forte (vide a de cigarros) poderá mesmo diminuir.
Num mundo menos violento, crescem as chances de o amadurecimento resultar de uma experiência como a vivida pelo Ruffato. Mas, não se animem, tornar-se adulto por conta de uma bicicleta é tão intenso quanto por qualquer outra forma. Crescer dói.
Imagem captada no site "Ai, minha nossa senhora".

                                  

29.4.14

O ônibus

O ônibus está associado a algumas mazelas da cidade: o caos no trânsito, em parte por conta da indisciplina de motoristas, que têm de cumprir metas estabelecidas por seus patrões; o desconforto, evidente quando se sabe que a frota é quase toda sem ar-condicionado, numa cidade-inferno como a que vivemos; a suposta relação escusa entre os empresários que desfrutam da concessão de um serviço público e as autoridades. Apesar dos pesares, nem tudo é contratempo na vida dos que fazem uso das não sei quantas linhas que servem ao Rio e às cidades adjacentes.
Alterada a partir de foto do "Gatas do lotação"
Logo de manhã, com o ônibus em movimento, algumas moças tiram da bolsa o batom, o lápis e o espelhinho e, com eles, terminam de se arrumar. Acordaram tarde, ou perderam tempo com o jornal ou com o filho ou com as orientações passadas à diarista, à babá, quem sabe à pessoa com quem dividem a vida e que pode dormir até mais tarde. Seja por que motivo for, fazem do banco duro do ônibus uma extensão da própria casa e expõem, leves e soltas, um dedo de sua intimidade. Não é só a habilidade de passarem, enquanto o ônibus avança, nem sempre vagarosamente, o lápis no contorno dos olhos que chama a atenção, mas também o fato de adivinharem os solavancos — a freada brusca, a mudança repentina de faixa, qualquer outro — e, de, com isso, manterem longe dos olhos o lápis cuja ponta pode até cegar.
No trajeto de ida e volta entre a Baixada e Botafogo, há pelo menos vinte e cinco anos, e sempre de ônibus, Solange gasta, no barato, um quarto do seu dia — isso apesar do mais ou menos recente bilhete único, um avanço para o passageiro ao reduzir o custo e, em menor grau, o tempo de viagem. Quando há algum acidente, uma chuva daquelas, uma batida policial nas favelas (sempre nas favelas) que estão no caminho — e são muitas —, as três horas para chegar a Botafogo e as outras três para voltar à Baixada podem se transformar em quatro, em cinco, em horas sem fim. Tudo isso, vale registrar, num ônibus sem ar-condicionado e, na maioria das vezes, cheio ou mesmo lotado. Mesmo ultrajada, a turma que viaja rotineiramente no mesmo horário (madrugada ainda quando saem da Baixada) promove festas dentro do ônibus: o amigo oculto no Natal, um bolo no dia do amigo, salgadinhos nos aniversários.
Nos últimos anos, houve uma pequena renovação na frota do Rio de Janeiro. Os mais novos – minoritários — são rebaixados, ou seja, é mais fácil entrar neles, um alívio principalmente para os mais velhos. Mas, sabemos todos, a cidade responde sempre do mesmo jeito a qualquer chuvisco mais encorpado: as ruas ficam repletas de poças d’água, quando não inundadas. E o que acontece com os novos ônibus? Seus corredores, tomados pela água que adentra pela porta, viram uma piscina indesejada. Certa vez, não sei o que havia de (mais) errado naquele ônibus específico em que eu andava, a água da chuva esguichou nos passageiros próximos ao trocador. Muitos saímos molhados dos pés à cabeça.
Tanto em trajetos pequenos (toleráveis) quanto em grandes (insuportáveis), os ônibus desrespeitam seus usuários. Se o prefeito, corretamente, quer que as pessoas deixem seus carros em casa e se movimentem pela cidade de ônibus (falar em metrô é brincadeira, dado o alcance limitado das linhas cariocas; e falar de trem é pisar em ovos mais frágeis ainda), ele que trate de promover mudanças rápidas, caso contrário, vai ficar querendo, e o trânsito no Rio se tornará cada dia mais um caos. Um caos violento.
Pensei que a luta pelo não aumento de vinte centavos fosse o início das transformações necessárias e urgentes nas condições da frota e, em consequência, no trânsito do Rio e em seu entorno. Qual nada. Mudanças na estrutura viária da cidade têm causado um transtorno terrível — que, se espera, não se prolongará por muito tempo. Os ônibus não mudaram nada, nadinha. E as passagens subiram vinte e cinco centavos.

3.4.14

Primos, Prumos e Planos

Lembrança de primo quase sempre tem conotação sexual. Os primos estão associados à brincadeira de médico, forma de iniciação que, pelo menos no passado, era comum. Não, por favor, não esperem revelações de minha parte, mesmo porque minhas primas sempre foram moças muito distintas, e sua chegada ao mundo adulto se deu com uns caras que, se pudesse, eu trucidava.  Exagerei.
Exagerei bastante, ainda mais levando-se em conta que o que desejo falar não tem nada a ver com sexo. Tem a ver com primo. É isto: quando a crônica começa errado é difícil salvá-la. Portanto esse início claudicante fica de exemplo para futuros cronistas. Rapazes e moças, nunca comecem uma crônica desse modo troncho.
O fato é que perdi um primo, o Wanderley. Primo em primeiro grau, mais velho que eu. Somos de uma família enorme, meu pai e o pai dele eram apenas dois de vinte e um irmãos nascidos — dos quais quatorze cresceram e, quase todos, se multiplicaram. Meu pai era o mais novo dos homens, e tio Manuel, pai do Leley, um dos mais velhos, o que explica nossa diferença de idade. 

Eu e Leley num improvável encontro numa praia oceânica de Niterói, em jan/11.

Leley era um sujeito ligado à alegria. Como todos, tinha seus perrengues, mas não me lembro de ele fazer fé nos maus momentos. Pelo jeito, citando Noel, nem no frio ele cria muito. Era um tipo solar. Deu sorte por ter se casado com uma mulher bonita, aliás, linda. Eu me amarrava em pegar no pé dele, insinuar que ele era rico, pois bonito não era — eu dizia que ele era mesmo feio —, logo, não fosse a grana, não havia como explicar esse casamento. Ríamos dessas bobagens. Agora a bomba: o tempo me fez ficar parecido com o Leley. Não exatamente de rosto, muito menos de jeito, mas, feito ele, tenho os cabelos brancos e as sobrancelhas negras. E também me casei com uma mulher bonita. Não somos ricos, mas temos um tchã qualquer.  Quer dizer, ele tinha. Não, ele tem.
De primo a prumo. Uma cidade, qualquer delas, não vive sem verde. Os bulevares, os parques, as praças públicas são o fator de equilíbrio nos aglomerados urbanos. Tanto no espaço público como no privado, Passos não cuida com carinho de seu verde. Tenho visto pessoas que, comprando uma casa, tratam logo de derrubar as árvores do quintal, transformando-o numa área de cimento. Por outro lado, não tenho visto um compromisso público de esverdear a cidade, o que a tornaria mais bonita, mais fresca e mais segura contra as tormentas. É uma pena, e, mais que isso, é um desastre. A luta — com minha amiga Isabel Pereira na dianteira — que se vem travando pela preservação da árvore centenária que nasceu e ironicamente vive na praça do cemitério pode ser o início de uma mentalidade verde entre os conterrâneos. Que ela prospere.
Tenho poucos planos. Quase nenhum, para falar a verdade. Sou um sujeito de ambições limitadas. Nem mesmo em sonhos, conscientes ou não, já me ocorreu me ver como ministro, prêmio Nobel, um magnata montado na grana. Tudo que quero é ler mais e escrever mais. Exatamente nesta ordem: ler primeiro, escrever depois. Porém não sou um acomodado. Tenho um plano. Um. Acho que já no ano que vem vou colocá-lo em prática. Se tudo der certo, vou mentir mais. Por quê? Ano que vem eu conto.