28.12.15

Falando do zero

Em “Chico — Artista brasileiro”, documentário sobre Chico Buarque de Holanda, dirigido por Miguel Faria Jr., Edu Lobo, ao falar do processo criativo, cita Fernando Sabino, que teria dito que escrever é muito simples: o sujeito senta em frente à máquina de escrever — estamos num tempo antediluviano, que antecede o computador —, corta os pulsos e manda ver.

Sabino não exagera, a escrita é tarefa árdua por ser um ofício do qual nunca se sabe, no qual nunca se aprende, sendo assim, todo recomeço se dá a partir do zero. Não é como andar de bicicleta, consertar relógio, recitar a tabuada, dar o golpe do baú, essas ciências que cobram criatividade, memória, mas se baseiam principalmente na técnica. A escrita só faz uso da técnica em seu momento de depuração, mas aí o sujeito já cortou os pulsos, enfrentou o zero e deu seus dois, três, sei lá quantos passos.

Escrever exige vigor físico. Nem sempre o escritor tem grana para ter uma boa cadeira, com isso o desconforto descamba para uma dor eventual nas costas, depois para uma lombalgia crônica, sem contar as lesões por esforço de repetição, causadas pelo uso excessivo do computador. Ao escrever, a pessoa sua, perde o fôlego, ou seja, sofre os efeitos negativos da ginástica, sem que usufrua dos positivos: escrever não emagrece, não baixa o colesterol, não ajuda a controlar a glicose, o que, de fato, é uma injustiça. Quem escreve é potencialmente um forte, não fossem o uísque, a diamba, as noites em claro. Não fosse a infelicidade — irmã siamesa. Sim, qualquer um que se envolva com a escrita é infeliz, mesmo o humorista, ou principalmente ele, uma vez que tirar graça de tudo causa um dessabor tremendo.

Escrever é prazeroso, afinal de contas, saindo-se do zero, chegou-se a algum ponto com um texto bem escrito e comunicativo. É uma vitória. Uma vitória que — quando e se o texto for lido — é colocada à prova e pode causar frustração. Por exemplo, se ninguém gosta daquilo que lê — ficar frustrado por isso é um pouco mesquinho, aprende-se com o tempo, pois as pessoas são livres para gostar ou não gostar do que quiserem —, ou se ele é mal interpretado ou incompreendido. Quem está fadado a escrever vai colher a vitória ou amargar a derrota brevemente, haja vista que deve começar de novo, o zero está lá e lá não pode ficar, é preciso escrever alguma coisa a partir dele, empurrá-lo para o precipício, uma vez que o buraco é seu destino (de onde ele sempre volta).

Tarefa de Sísifo ou vício, a escrita é isso, com ou sem punho — primeiro com, depois sem. É um suicídio que se repete, êxito e fracasso simultâneos. Ao morrer na escrita, o escritor ressuscita. Renasce, melhor dizendo, já que não traz de sua pequena morte nenhuma lembrança. Sempre o zero, início e fim.


14.12.15

Lição de surrealismo (Este não é um texto surrealista)



“Pense que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva depressa, sem assunto preconcebido, bastante depressa para não reprimir, e para fugir à tentação de se reler. A primeira frase vem por si, tanto é verdade que a cada segundo há uma frase estranha ao nosso pensamento consciente pedindo para ser exteriorizada.” (Manifesto do Surrealismo, André Breton, 1924)


René Magritte
Enquanto teço o silêncio que roubei aos mortos, você borra sonhos e lustra angústias. Vamos engolir um sete a um sem eloquência. Vamos sem ir. Para ver se passa. Se passa a dor. Se a roupa se passa sozinha. Se o dia pássaro. Se o pássaro anoitece. Se a noite adoenta. Se a doença compensa. Se o pensamento cala a boca das sobras palavreadas ao longo da vala incomum da mudez.

Enquanto rego meu choro com caldo sulfúrico, você suspira feito amor perdido, cantando a liturgia turva do ocaso. Do ocaso de caso perdido. Das perdas petrificadas. Das pedras lanhadas no lodo. Do lodo esquecido na mão que o tentou deter. Da detenção dos matadores coxos da ingenuidade.

Preciso, masco ventre e mente. Quando não, desvario vazio, consumido em canudos de doce de leite. Você cata coquinhos na manhã lisa e sem brisa, e eu lhe pergunto se já esculpiu vento num soçobro. Quem inespera meus clamores?

Para mergulhar em tudo que nos é tão próprio e único, o empurrão de um baseado, o gosto ocre-duro do uísque, a dança vertical de um coro de violinos ou o segredo que só os oboés guardam quando soprados. Três perguntas secas descansam à escuridão: De quantos navios nenhuma tábua corrida? De quantos rios nenhuma alma varrida? De quanto dinheiro nenhuma felicidade comprovendida?

Chegarei, sim, no dia não. Chegarei a cavalo, cavalo montado em meu cansaço baio. Papai, tenho piolhos ainda. Mamãe, são caraminholas que coçam e caçoam. Nenhum peixe no anzol vergado pela leveza da água — isso que veio da lágrima do peixe, segundo Adriane Garcia. Pisceomasoquistas choram pelo único prazer de nadar nas próprias lágrimas. E nadam. Nado também. Nada. Na(da)dor. 

Agora, daqui a pouco, nunca. O tempo coleciona relógios famintos, cuja fome mal tiquetaqueia, berra. O berro atravessa a hora. Ao ir sem ir, a hora é uma luz vagarosa. Você paranda pelo sono dos sapatos e pisa em mim, capacho ao pó recolhido. Somos cágados, sujos filhos de um dos deuses desbraçados, esses mitos que crucifixam uns nos outros. Nós somos o prego. Nós somos o pau chutado da barraca. (E aproveitado na cruz. Também no credo.)

Isso não é tudo.

29.11.15

Outros tons de cinza


Era sexta-feira, e eu e o mundo estávamos entre uma tragédia e outra. Uns dias antes, em Mariana, uma das barragens com rejeitos da extração de minério havia rompido e jogado nos povoados vizinhos da cidade histórica — os mais atingidos foram Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo — uma quantidade de lama que soterrou tudo, dando cabo à vida de muitas pessoas. Mas isso era só o começo, apesar de a Samarco, dona da mineradora, afirmar, em suas primeiras declarações, que a única questão era o volume de lama derramado. Em não havendo toxicidade no lodaçal, prosseguiu a empresa, as consequências do desastre estavam limitadas àquele ali e agora. Não se eximiam de responsabilidade, mas afiançavam que a lama era do bem.

Aos homens, mulheres e crianças atolados no primeiro golpe somaram-se animais, vegetação, água. A lama, feito monstro de filme B, entrou pelos riachos, mergulhou no Rio Doce, passou por hidrelétrica, foi comer o mar (atualizemos Caymmi: é doce comer o mar). Enquanto cumpria seu caminho, as notícias passaram a dar conta de que não era só lama, restos tóxicos iam agarrados a ela. Um rio morto, como se tem dito que está o Rio Doce (que, aliás, já não andava bem do leito), acarreta mortes hoje, amanhã, depois. No Facebook, nos dias que se seguiram à avalanche, escrevi o seguinte: “Chamem um dactiloscopista, essa lama tem digitais (esquecidas nas mortes somadas aos dedos).” Fala de quem não se deixava e não se deixa convencer pelo discurso da empresa.

A outra tragédia viria ainda naquela sexta, o ataque à França. Mais de cem mortos. O país, na mira de radicais não é de hoje, além de tomar medidas de exceção emergenciais, tratou de entrar de arma e cuia na guerra, bombardeando, no dia seguinte, as regiões da Síria dominadas pelo Estado Islâmico. As mortes a serem contadas, nesse caso, não são apenas as desses dias, haja vista que tudo teve início muito antes, num caldo que vem sendo temperado por interesse econômico, fé obscurantista, corrupção e pelo simples prazer de exercer o poder ou a força do poder.


Lupicínio Rodrigues, em foto extraída do blog de Milton Ribeiro.

Mas era sexta-feira, e eu e o mundo ainda estávamos entre uma tragédia e outra. Eu corria da praia de Botafogo até a do Flamengo, no parque do Aterro — corria com um fone no ouvido, usufruindo da música, que me distrai do cansaço. Não estou muito certo do que ouvia, mas, depois da corrida, ao parar em uma lanchonete para beber água de coco, coloquei para tocar uma antologia do Paulinho da Viola. E ele foi cantando sambas daquele jeito tão próprio até chegar ao gaúcho Lupicínio Rodrigues. “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?/Ter loucura por uma mulher/E depois encontrar esse amor, meu senhor/nos braços de um outro qualquer.”

Ali, entre não saber o que aconteceria pouco depois em Paris e remoer sobre a destruição que a lama gerada pela negligência causara, continuaria e continuará a causar, Paulinho da Viola me jogou no colo do drama miúdo. O abandonado, no samba de Lupicínio, chega a dizer que não sabe se mesmo os de nervos de aço não reagiriam ao passar por aquilo que ele passou. Diz ainda que, quando revê seu amor perdido, é tomado por um desejo de morte ou de dor. Alguns iluminados seguram as pontas e fazem um samba, no entanto, um número expressivo de homens, sob pressão, costumam matar. Matam a mulher, matam o estranho, matam. No dia anterior ao que descrevo, um dos 100 mil habitantes da minha cidade natal desceu de uma moto, entrou numa padaria, atirou e matou o dono.

Lupicínio fez música a partir de sua fúria masculina, retratando um homem que, hoje, não deveria mais existir, mas que insiste em existir. Um deles quer ser prefeito da cidade do Rio de Janeiro.

Ao pensar em um adjetivo para encerrar esta crônica, quase escolho um da alçada do best-seller ao qual o título dela remete, mas não, seria grosseiro e gratuito. Assim, digo a vocês, amigos, estamos (somos?) podres — e a ponto de explodir.



16.11.15

Drummond, uma professora, poetas na plateia e a pele da poesia

Não sou de frequentar saraus de poesia, pois, a meu ver, a poesia pede intimidade e recolhimento. Mas, por favor, não tirem conclusões apressadas, escutem-me: sei que há pessoas que recitam magistralmente, com arte (uma arte a serviço da outra). A primeira memória que tenho de poesia vem de um compacto simples (disquinho de vinil) no qual Juca de Oliveira falava Drummond e Vinícius de Moraes. Para ser sincero, essa é uma segunda memória, a primeira são os poemas que circulavam em minha casa, entoados por meu padrinho, por meu irmão mais velho e pelos primos da idade dele. Mesmo sabendo da força da palavra dita, ainda prefiro, livro na mão, manter-me só e deixar os olhos correrem pelas páginas e, se tanto, a boca segredar-me aquele verso estupendo que não cala em si. 

Sarau imperdível: Sabadoyle, com a presença de Drummond.


Vencendo a minha resistência, neste ano participei, no dia 31 de outubro, de uma parte das comemorações do aniversário de Drummond. Sentadas num dos jardins da casa dos Moreira Salles, transformada em sede do instituto que leva o nome da família, umas vinte pessoas ouvimos uma professora do Colégio Pedro II, Mariana, se não estou equivocado, comentar “A flor e a náusea”, do livro “A rosa do povo”, lançado pela José Olympio em 1945. Sua palestra teve início com a leitura do poema — contra a minha expectativa, pessimista como de hábito, lido de forma sóbria (uma murmuleitura bem a meu modo, com a vantagem de a voz da Mariana não ser anasalada feito a minha). Depois contextualizou o poema, chamando a atenção para o fato de a publicação ter ocorrido quase no final da II Guerra Mundial (“O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.”). Acrescentou que Drummond, ao longo do tempo, foi se definindo em torno de uma militância não partidária (“Posso, sem armas, revoltar-me?”), tendo se afastado com certa rapidez (e rispidez) do Partido Comunista. 
Esticado seu pano de fundo, Mariana percorreu o poema verso a verso, estrofe a estrofe, especulando quanto daquele mundo convulso ecoara em cada um de seus trechos. O poeta criticava a coisificação (“Melancolias, mercadorias espreitam-me.”), sem, contudo, perder o compromisso rítmico. Com entusiasmo, analisou o verso: “As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.” Ao não fazer uso de uma só exclamação, a falta de ênfase sobressai, tornando as coisas mais tristes ainda. Mariana, dispondo de não mais que uma hora, raspou essas questões e foi adiante: debruçou sobre o momento em que o poeta se mostra solitário (“Quarenta anos e nenhum problema/resolvido, sequer colocado./Nenhuma carta escrita nem recebida.”). Resumindo: a professora fez e aconteceu. (Professora feito a Mariana dá alento a nós que andamos imersos na desesperança dos dias atuais.)
Havia, entre os ouvintes, um poeta famoso, que, enquanto esteve entre nós, tanto quanto eu, não deu um uivo — apesar de ser, em grande parte do tempo, o foco da professora, que o reconheceu. Lá pelas tantas, quando ele já havia deixado a palestra, outro poeta se juntou ao grupo. Fumando, manteve-se afastado e igualmente mudo até o final, quando então, meio de gracejo, perguntou ao vento qual a cor da flor que nasceu no asfalto. O ponto central do poema é o anúncio feito pelo homem coisificado, solitário, cuja arma é um poema: “Uma flor nasceu na rua!” Flor descrita mais adiante: “Sua cor não se percebe./Suas pétalas não se abrem.” O tal poeta piadista queria instigar os ouvintes ou, quem sabe, nos convocar a enxergar a cor que não se deixava perceber.
A flor, na visão da professora, tinha muitas características alheias a ela. “Seu nome não está nos livros./É feia. Mas é realmente uma flor.” Flor que, descobrimos no desfecho do poema, “furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”. De uma forma ou de outra, a flor, ao irromper, estava apta a cumprir seu papel e empurrar o mundo para um lugar no qual a coisificação e a solidão indesejada (tudo que afasta o humano de sua integridade) não encontrariam espaço. “Façam completo silêncio, paralisem os negócios,/garanto que uma flor nasceu.”(1)
Um verso não foi comentado pela professora ou por qualquer um de nós, espalhados pelo jardim. Na descrição da flor, contrária em essência a uma flor, Drummond escreve: “e lentamente passo a mão nessa forma insegura.” Forma insegura? As formas não deveriam ser planas ou não? Simétricas ou não? Até mesmo frágeis? Que forma é essa que é insegura?
Um poema não pode ser desvendado por completo nem por uma professora dedicada a ele, nem por um poeta que abandone uma palestra cujo tema é aquele poema, nem por outro que adentre por ela como um tufão histriônico. É da natureza sedutora do poema ocultar-se sob medida. Em “Procura da poesia”, que, no mesmo livro, antecede o “A flor e a náusea”, Drummond alerta e provoca: “Chega mais perto e contempla as palavras./Cada uma/tem mil faces secretas sob a face neutra/e te pergunta, sem interesse pela resposta,/pobre ou terrível, que lhe deres:/Trouxeste a chave?”
O que um bom poema propõe — mostrar a pele, esconder o corpo — é um jogo erótico, talvez por isso goste tanto de lê-lo em silêncio, na cama, quando posso comê-lo e por ele ser devorado.
Do acervo da Casa de Rui Barbosa.




(1) O poema completo pode ser lido na Revista Germina.


2.11.15

Escrevendo e andando


Gosto de caminhar: areja o espírito. Faz bem a si mesmo quem leva o cérebro para tomar sol e depois o corpo sarado para ler/escrever/cogitar à sombra. A ciência já mostrou que mente e corpo são uma coisa só, em processo permanente de retroalimentação. Em nichos específicos, a resistência em aceitar o benefício recíproco entre o trabalho intelectual e o físico é alimentada com ironia, mas, apesar disso ou justamente por isso, há um monte de histórias mostrando que o exercício corporal, mesmo o mais tênue e indisciplinado, ajudou muitos pensadores/escritores/leitores.

Rimbaud.

Em “Autobiografia poética e outros textos” (Editora Autêntica), Ferreira Gullar pontua que Rimbaud foi um viajante — com notórias idas e vindas da casa da mãe, no interior da França — que encarou as distâncias caminhando. Quando partiu para a África, no último terço de sua vida (período nebuloso e pouco conhecido), ele cumpriu a pé o trajeto da França à Turquia, dali à Síria e, por fim, à África — caminho similar, ainda que em sentido oposto, ao que se percorre nesta diáspora contemporânea a que assistimos — quase sempre vexados — pela televisão. É verdade que, nesse período final, não se tem notícia de que Rimbaud tenha escrito (traficava armas), mas, enquanto fez seus poemas, seus deslocamentos não foram esporádicos. Da caminhada, concluo, alimentava-se o poeta — e, depois, o traficante.


Hemingway.

Rimbaud nada mais foi que um depositário dos ensinamentos de Aristóteles, criador da Escola Peripatética. Segundo o Aurélio, peripatético é aquilo “que se ensina passeando”, e era isso que o filósofo fazia: ao ar livre, indo de um lado para o outro, repassava suas lições aos estudantes. Por sua vez, Hemingway — e também Victor Hugo, segundo Mario Vargas Llosa, em recente artigo em El País — escrevia de pé, colocando os papéis em branco em um atril. Ele não andava, veja bem, mas seu trabalho de escritor, associado a sentar e produzir, fugiu do lugar comum. Isso sem contar que Hemingway era adepto da pesca, da caça, enfim, um cara que se mexia — e bebia atleticamente, o que não vem ao caso. Outro americano, Philip Roth, não só escreve de pé como caminha para burilar as ideias, se é que não caminha para encontrá-las.

Numa época em que eu não estava nada bem, passei a caminhar pelos sete ou oito quilômetros da lagoa Rodrigo de Freitas. Lembro-me de que, ao começar o exercício, eu me via refém dos tais problemas que me afligiam, porém, a partir do primeiro quilômetro, os pensamentos tornavam-se leves, e essa leveza acabava por dar um nó no baixo astral. Não raro, entre um passo e outro, surpreendia-me um clique “poético”. Eu não suportava encarar a folha em branco sem que pudesse, de cara, emoldurar nela o título do que, incerto, escreveria dali em diante. Numa dessas caminhadas surgiu “Relato das taturanas”, título de um conto de meu primeiro livro, e, de quebra, vislumbrei o próprio conto.

Ao longo do tempo, alguns escritores — quem sabe desejando compensar o sedentarismo — têm criado personagens que caminham. Fiando apenas na memória, listo Geraldo Viramundo — o louquinho de “O grande mentecapto” (Record), de Fernando Sabino, perdido em andanças por Minas Gerais —, tantos errantes na literatura de João Gilberto Noll, uma andarilha de distâncias curtas, Alice, de “Quarenta dias” (Alfaguara/Objetiva), o mais recente romance de Maria Valéria Rezende, e, ainda, Don Quixote, verdadeiro atleta montado em seu Rocinante, ou o ladrão de Jean Genet — à maneira de Rimbaud, cortando a Europa a pé.

Estou feliz. Levantei a bola da relação entre o trabalho intelectual e a atividade física, listei exemplos — meio besta, um meu — e, assim, desenhei um honesto painel sobre a questão. Posso me preparar para finalizar esta crônica com bafos de ensaio (de banda de garagem agarrada a dois ou três acordes). Então, para concluir...

Opa, espere, ouço vozes.
O quê?
Onde?
Quem?

Ah, é ele, o diabo que me habita. Vem dizer que Rimbaud morreu de um câncer que brotou em uma de suas pernas — logo amputada depois de o poeta que não mais escrevia voltar, já doente, mas ainda a pé, da África para a França. O coisa-ruim vai além e me pergunta o que acontece ao personagem de “Hotel Atlântico” (Francis), de João Gilberto Noll. Perde a perna, lembro-me bem. Pergunto ao chifrudo o que afinal tem a ver o fato de um andarilho acabar morrendo de uma ferida em suas pernas. Evasivo, ele se cala. Aproveito seu aparente desânimo e afirmo que a morte é um acidente. No caso de Rimbaud e no do personagem de Noll, um acidente com toque elevado de ironia, pois suas pernas eram a fonte da qual eles emergiam e se firmavam na vida.



Rimbaud. foi da Europa e voltou para ela. Muitos estão fazendo o contrário, com ganas de voltar para suas casas.






18.10.15

Outubro


Não consigo pegar o pulso da crônica que começo a escrever, o que não quer dizer que eu não tenha assunto. É tão somente uma advertência que faço levando em conta que a crônica da falta de assunto, em algum momento, foi, é ou será escrita por todo cronista, bom ou não. Eu diria até que, feito os temas clássicos do jazz, valorizados pelos improvisos dos músicos, a crônica da falta de assunto é um clássico que se apresenta ora num improviso de Rubem Braga, ora noutro de Clarice Lispector e até mesmo no improviso “preso à pauta” de um AB qualquer.

O que não falta a minha crônica é assunto — triste, de uma tristeza mais triste que a tristeza comezinha presente em alguma outra, por exemplo, a de quando minha mãe morreu, na qual eu comentava o abandono de seus cachorros e a coincidência de sua morte com a tragédia do voo da TAM ao pousar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

É difícil dosar a tristeza e, de resto, qualquer estado de espírito. O lado de lá da tristeza, a alegria e suas imediações, também não se dá à crônica com mansidão. Se em torno do arco da tristeza estão, doces, o recolhimento e a introspecção e, ásperos, o melodrama e o sentimentalismo rasteiro, na beira do arco da alegria cabem a parcimônia da ironia e a devassidão da comicidade. É árduo equacionar os sentimentos, o que beira ao tormento quando está se falando de um lá depois da tristeza. E o que pode haver nesse tão longe? Uma dor não exatamente nossa, do nosso íntimo, mas que reverbera nele de forma aguda, impiedosa.

Tomo as rédeas da crônica e, com ou sem pulso, digo logo o que tenho (e não gostaria) de dizer.

Outubro, no Brasil, é o mês das crianças. Essa data não surgiu de uma ação do comércio — ainda que bem aproveitada por ele. Foi, ao contrário, uma recomendação, no âmbito da ONU, de 1954 — esforço que culminou, em 1959, na “Declaração Universal dos Direitos da Criança” e, em 1989, na “Convenção sobre os Direitos da Criança”. A intenção de todos esses documentos está, a meu ver, sintetizada no de 1959. Nele são listados dez princípios que deveriam ser seguidos em qualquer lugar. O primeiro é a igualdade, o que significa não haver discriminação por raça, religião ou nacionalidade, e o último o de “crescer dentro de um espírito de solidariedade, compreensão, amizade e justiça entre os povos”. Entre os dois, o direito ao amor, à educação gratuita, ao socorro prioritário em caso de catástrofe.

Tudo faria crer que uma preocupação política dessas, sexagenária, já deveria ter revertido o quadro de sofrimento de nossos meninos, mas sabemos que isso não aconteceu. As crianças morrem vítimas da violência policial (veja o recente relatório da Anistia Internacional, com foco no Brasil), morrem de doenças insignificantes, têm dificuldade de entrar na escola e, quando entram, de permanecer nela. Em nosso país, segundo a Unicef, 25% das crianças de 4 a 6 anos não frequentam a escola e 64% das pobres não o fazem durante a primeira infância. E mais: o Brasil ainda tem 535 mil crianças de 7 a 14 anos — faixa na qual 98% delas estão matriculadas — longe da sala de aula, das quais 60% são negras. Sobre os jovens negros e pobres, no Brasil ou não, o relho da inação bate mais forte.

Não bastasse esse quadro de desamparo, as guerras que não cessam tornam o grave um ponto alocado no meio de uma escala que alcança o trágico. Debruce sobre as notícias da Síria, de onde a família de Aylan Kurdi, o garoto encontrado emborcado numa praia turca, tentava fugir. Imagine a situação do Afeganistão. Se o leitor não tem uma referência sobre o país, sugiro a leitura de “Terra e cinzas” (Estação Liberdade), de Atiq Rahimi, romance no qual é contada a história de uma longa jornada em que avô e neto buscam avisar ao filho do primeiro e pai do segundo que a vila em que viviam foi destruída por um bombardeio e, da família, apenas os dois sobreviveram. O menino é surdo, melhor, ficou surdo pelos bombardeios. A guerra era a dos anos 1980, e pelo Afeganistão de hoje passa outra guerra no lugar daquela. Como estarão as crianças, que insistem em nascer? A mesma preocupação se aplica às palestinas e, de outra maneira, às israelenses.


Se a África, em regiões conflagradas ou não, fez alguma coisa para suas crianças tendo em vista a lista da ONU, baseou-se apenas no rascunho do que ali era intenção. Sabemos da penúria de povos que sofrem, ao lado da pobreza, a violência de estados corruptos e a insanidade de grupos radicais como o Boko Haram, que, não por acaso, elegem como alvo preferencial de ataque as crianças, em especial as meninas. Ferir a inocência e apressar seu fim é uma orquestração bem pensada, cujo intuito é melhor não compreender.

Eu erraria a mão ao escrever a crônica, sabia disso desde a primeira frase. Todavia, neste ano da graça de nosso Senhor, ano que faz questão de não jogar o pó da maldade para baixo do tapete, não posso me dar ao luxo de cantarolar por aí o leve refrão de Michael Sullivan e Paulo Massadas: “Hoje é o seu dia / que dia mais feliz”.  A felicidade tem passado longe.

4.10.15

Boa Nova


Fui agraciado com uma boa nova. Neste mundo de tantas precariedades, de angústias em doses pra lá de tantas, regozijo-me e dou publicidade a uma titica de nada, mas o que fazer, não é? Ao cronista é reservada a tarefa de lidar com o desimportante, com as miudezas, não raro com as coisas do próprio umbigo. Pois lá vou eu compartilhar um deleite pessoal. Digo compartilhar na esperança de não ir só, isso é, de levá-los comigo.

Antes de contar a razão de tanto contentamento, dou um passo atrás para falar de Philip Roth.

Foi meu amigo Átila, ao me presentear com “A marca humana” (Companhia das Letras), quem me aplicou o escritor americano. Uma das leituras mais instigantes que já fiz, o livro é daqueles que a gente vê passar por suas páginas a vida quase sempre mal resolvida de um país, no caso, os Estados Unidos. O personagem é um negro que não se aceita como tal. Abandonando os pais, passa a se apresentar como judeu, e é como judeu que se casa, cria os filhos, torna-se professor universitário e sofre um processo por racismo (contra um negro) em sala de aula. A história trata com pesos iguais o drama de um homem e o de um país, e um espelha e influencia o outro.

Philip Roth virou um escritor de cabeceira. Ao longo do último agosto, incerto entre o calor e o frio, me debrucei sobre “O professor do desejo” (Companhia das Letras). Essa leitura abriu o caminho para a boa nova que em breve anuncio. O personagem principal, primeiro estudante de letras e, depois, professor, lida em suas pesquisas com Tchekhov. (Também com Kafka, o que o leva a Praga e, por conta disso, Roth escreve uma meia dúzia de páginas de beleza irretocável.) Roth, para dar solidez ao personagem, discute em vários momentos a obra de Tchekhov e, com isso, me jogou nos braços do médico e escritor russo.

Corri atrás de uma antologia que tenho, uma edição (ou reedição) do início dos anos de 1990, da Cultrix. Comecei a folheá-la e encontrei no prefácio, escrito pela tradutora Tatiana Belinky, a seguinte citação de Tchekhov: "Sei falar curto de coisas longas". O conto é isto: falar curto de coisas longas. Vencido o prefácio, li um conto, depois outro. O livro está ordenado cronologicamente, assim, é possível perceber que a pegada de humor de Tchekhov se impôs nos seus primeiros textos. Um humor duro, que surge constantemente a partir de uma situação na qual está em jogo uma questão delicada, até mesmo moral.




Avançando pelos contos cheguei a “Brincadeira”. Não, não pude acreditar. Esse conto, amigos, eu o havia lido na década de 1990, não sei bem, e sua história martelava imprecisa em minha cabeça. Eu o considerava uma obra linda, mas, que conto era esse? Ah, agora sei, é “Brincadeira”. Apesar do título e do bom humor habitual, o conto é triste até mandar parar — o que não macula sua beleza. Quanta alegria em reencontrá-lo! Sem me aguentar em mim, corri aqui para dividir minha felicidade.

Coisa miúda e desproporcional ao contentamento despertado? Quem gosta de ler sabe que não é. Um achado dessa magnitude equivale a um reencontro com alguém querido, que andava perdido no mundo. No caso da minha leitura, o amigo ausente trouxe com ele dois caras, que, num instante, tornaram-se íntimos, irmãos mesmo — como é o caso do próprio Átila, que chegou pelas mãos da Wânia. Na nova leitura de Tchekhov, “Inimigos” e “Angústia” (“novos amigos” colhidos entre inúmeros contos estupendos) subiram para a estante virtual em que guardo os marcantes.

Em nome da alegria, juro lutar contra minha memória frouxa e nunca mais esquecer nenhuma das histórias desse monstro, o russo Tchekhov.

Celebremos!















17.9.15

Quatro

Silêncio

É de dentro do silêncio — caverna sem sombra, colo extemporâneo para um homão feito eu — que escrevo agora e de onde imagino não sair tão cedo. Silêncio, com medo de se quebrar, não dá margem nem a pensamento, pequeno que seja.


O canto das cigarras faz parte do silêncio. E, no extremo silêncio, ouve-se o formigar das trabalhadeiras. Logo, concluo, o silêncio silencioso é uma invenção, mas o meu, agora, este —  ah, este silêncio! — fechou as portas para o mundo, e o mundo foi fazer barulho lá longe, na p que o pariu ruidoso. 


Preto e branco

Leio o livro duplo de Nilma Lacerda. De um lado “Viver é feito à mão”, de outro, “Viver é risco em vermelho” (bela edição da Editora Positivo). Duas histórias muito parecidas e, assim mesmo, inconfundíveis. Parecidas porque as duas personagens se envolvem com a escrita, porto ao qual chegam como forma de lidar com suas dores. Distintas porque a menina da primeira história é de classe média, branca provavelmente. A da segunda, negra, vive sem pai nem mãe na favela da Maré. Os problemas da primeira estão associados à família e a toda aquela engrenagem que roda a partir da intriga de um contra o outro, do amor de um pelo outro. Os da segunda advêm da penúria — ponto além da pobreza. O arranjo gráfico do livro é tal que “Viver é feito à mão” se lê da forma habitual: à esquerda, as páginas lidas; à direita, as que devem ser lidas. Já em “Viver é risco em vermelho” ocorre o contrário, à esquerda ficam as páginas ainda não lidas. Simplificando: o primeiro se lê de frente para trás e o segundo de trás para a frente (do objeto livro, não da história). As duas narrativas confluem para as páginas centrais, nas quais o livro acaba, mas — uma vez que aquelas personagens ganham, a partir de contornos tão claros, existência —, as histórias não. Maurício Negro, responsável pelas ilustrações, talvez para evitar a dicotomia cromática sugerida pela pele das meninas — ponto importante no que se conta —, opta pelo vermelho como a cor dominante. Um acerto e tanto, pois o livro é, para resumi-lo em uma só palavra, ardente.
Música




Para me acompanhar vida afora, se tivesse de escolher uma música, uma única, eu estava frito — à milanesa. Uma só? Isso não existe. Por natureza, gosto das que chamam ao repouso ou à reflexão e, se a hipotética escolhida convidasse à dança, seria um acaso, uma interferência no destino da música que não foi feita para dançar.

Dito isso, elejo “Clube da esquina”, parceria do Milton com os irmãos Márcio e Lô Borges, como a música que tenho levado pela vida. Ouvi-la me remete ao período no qual fui deixando de ser menino para me tornar esse homão capenga que sou. Sua letra é noturna e esperançosa, duas grandezas que não se somam, dois touros bravos mantidos apartados em seus domínios. 
A lua


Foto do autor. Lua na Praia Vermelha, Urca, RJ.
Eu e Bia fomos ver a lua na Praia Vermelha. Lá encontramos o poeta e sua Cristina. Ficamos os quatro conversando amenidades, vendo e fotografando a lua — aqui e ali nos espantávamos mais uma vez com a sua beleza e então, como se quiséssemos não cair no golpe de seu encanto, voltávamos à conversa miúda, a um comentário sobre o frio ou a vida de nossos filhos. Se havia poesia ali, éramos nós essa poesia — não estávamos na condição de escritores, mas de escriaturas.

Não sei se, de volta a casa, o poeta escreveu para aquela lua. Eu não, a lua não é para o meu bico de escritor, além do mais, já existe o “Moon do cão”, poema de meu amigo Antonio Barreto (no livro Vastafala), vindo ao mundo sabe-se lá sob qual feitiço. Fiquem com ele, enquanto eu caço por aí alguma musa menos luminosa.


                Lua, deixa de ser assim tão branca
                  e egoísta!


           Que vida besta esta tua:
           aí parada entre tantas coisas
                  inúteis

           satélites, estrelas, naves noturnas:
                  tanajuras de verão!

           Lua capitalista! Uivo branco de Deus!

                 Urubu do Além!

           Desça daí... Vem morar comigo, vem,
           que te dou um Sonrisal e um Cadillac
           em troca de um soneto de Olavo Bilac!


7.9.15

No lombo do Brasil


Acomodo-me no vagão nem luxuoso nem simples do trem que me levará do interior de Minas a Florianópolis ou, via Pantanal, de Quixeramobim ao último povoado ocidental do extremo sul. Mas não existe essa possibilidade. Poderia existir, não fosse a falsa modernidade à qual nos agarramos ao longo do século XX e que sepultou os trens, sem que ninguém soubesse ou saiba quem garfou os trilhos.
Estou bem instalado no trem inexistente, e de sua janela num instante passo a contemplar o sertão árido, o resto de mata atlântica, o cerrado. (O Pantanal, preso num poema de Manoel de Barros, não pode ser mais visto, apenas lido, mas lemos pouco.) E sobe montanha e desce montanha. E margeia rio e se afasta de rio. Café com pão, café com pão. Bandeira, sedento de Brasil, invade o vagão e me sequestra.
No Brasil ninguém diz “eu digo”, ninguém diz “eu roubo”. (Tampouco eu.) Aqui, a esquerda benze meia dúzia de empresários: mais-valia pura pra quê se cinco letras em forma de banco abastecem os ungidos com dinheiro barato e pedalado? Aqui, a direita tem nostalgia da palmatória, mas investe mesmo é em arma pesada e sonha com um sistema prisional lucrativo: menino preso é capital sadio e, por isso, bom reprodutor.
O trem parece andar fora dos trilhos. Virge Maria, que foi isso, maquinista? Nada de susto, ele avisa pelo sistema de alto-falante, estamos apenas passando por cima de um rol de Adílios. No trem da Central, continua em tom muito formal, a operação de passar sobre o corpo de Adílio Cabral dos Santos ocorreu por necessidade: Quem seria o doido de tumultuar a vida daquele que precisa chegar ao trabalho na hora? Apesar do improviso, a profanação foi um ato de humanismo, ápice da consciência coletiva. Agora — a voz soa bonita e cheia de si —, produzimos Adílios em prostibolatórios de última geração e os jogamos já mortos sobre os dormentes. O trem que conseguir esbarrar no menor número deles ganha um prêmio. Qual? Dizer que foi ideia do outro. No Brasil gostamos de apontar o dedo e dizer “foi ele”, “foi ela”. Precavidos, não afirmamos coisa alguma defronte do espelho. Quanta sabedoria a desse homem!
O trem-bala já contornou o Chuí e, não tarda muito, desceremos em Manaus para, de acordo com o cardápio, comer carne de índio tucunaré. Sou repreendido pelo vizinho de assento: Não seja inocente, o índio é haitiano ou guianense, ninguém sabe ao certo. E não vem ao caso. Nunca vem ao caso, e ninguém jamais sabe ao certo. O tempero vai ser nativo, corre de boca em boca, para dar sabor à nossa eterna vingança pelo que fizeram ao bispo Sardinha.
Há pela frente o Pico da Neblina. O trem não está preparado para tamanha escalada, mas uma voz prática convoca homens de fome eterna para empurrá-lo até o cume. Lembro-me de Fitzcarraldo, o lunático filmado por Herzog, cineasta idealista que fez subir um navio pela montanha, uma linda imagem à custa da vida de outros famintos nativos dessas mesmas bandas amazônicas. Agora, são índios e negros — outra vez escravos, se é que algum dia deixaram de sê-lo — os que, tropeçando em Adílios, cumprem a missão. Ninguém poderia imaginar que ainda houvesse relho, chibata e cipó de aroeira, mas eles estão lá, troando no lombo de quem nunca mandou dar — tamanha violência cujo efeito colateral inesperado é deixar cada um de nós nu e, com isso, nu e transparente o próprio Brasil. Um rápido olhar para os lados é suficiente para se perguntar: onde foi parar a África nos machos, a Europa nas fêmeas? Quem lavou nossa miscigenação com água oxigenada e óleo de peroba?
Para cruzar o pico e depois descer, o governo empenhou no orçamento do ano que não vem dinheiro insuficiente e desnecessário, diz uma voz que não é a do maquinista, sabe-se lá se de um Adílio, de um Herzog, de um Deus dessas tantas butiques da fé espalhadas pelo Brasil. Outra frase brota no ar: No alto do morro, passa boi, passa boiada, só não passa solução já pronta para tormenta encomendada. Quem diz é ele, o do lado ou aquele mais adiante, mas, segundo ele, fui eu quem disse.
Em terras tropicais, odiamos o outro.















23.8.15

A primeira vez

A primeira vez que eu vi o mar, não o vi de cara. Mal pisei na areia, corri feito um louco e me atirei na água para, depois de um caldo, beber a espuma da onda recém-quebrada. Eu esperava uma água salgada, mas não tão salgada quanto aquela que provava a contragosto.

Desenho do autor, feito a partir de gotas de café.
Houve quem caçoasse do mineiro que tossia engasgado depois de levar um caixote. Saí humilhado ali da beirada, me sentei na areia e, aí sim, mirei o mar. Lancei sobre ele já então um olhar perspicaz, de quem o sabia cruel.

***
As mulheres de Argel, Picasso.
Numa casa em construção, talvez no espaço que viria a ser a sala, vi pela primeira vez uma mulher nua. Noutro futuro cômodo, dois amigos esperavam a vez de vê-la — o combinado, seguido à risca, era apenas vê-la. Ansioso e sentindo-me vigiado, eu não poderia estar inteiro na cena, e não estava. Vi os seios de maneira muito clara, rijos ali onde de fato os seios crescem e ficam, mas todo o resto do corpo — não só o que eu buscava, desconhecia e até aquele momento estivera sempre encoberto, como também a cabeça, os braços, enfim, as partes públicas — não estava no lugar. A primeira vez que vi uma mulher nua, ela parecia um desenho de Picasso.

***
A mãe da dona Antonieta, minha professora do terceiro ano do ensino fundamental, foi a primeira pessoa que vi morta. A diretora da escola nos levou ao velório e nós nos comportamos muito bem: não demonstramos medo, não evitamos estender a mão para a professora, alguns até mesmo deram-lhe um abraço. Em fila passamos ao lado do corpo, baixamos a cabeça com resignação, fizemos o sinal da cruz e saímos para a varanda. Não sei se tive dimensão do que aconteceria a partir dali, mas creio que, ao olhar aquela velha tão velha, decidi que não tocaria jamais num morto. E assim tem sido.

***
Foto do Globo, Brasil X Iugoslávia, 1971.
A primeira vez que fui ao Maracanã, em 1971, foi a última que Pelé jogou pela seleção brasileira no Rio de Janeiro: era um amistoso contra a Iugoslávia, país que não existe mais. Eu não tinha dez anos, e o estádio lotado com mais de cento e trinta mil pessoas, um número inconcebível para quem, feito eu, vinha de uma cidade com menos de sessenta mil habitantes, chamou mais minha atenção do que o jogo em si, ainda que fosse também a primeira e a última vez que via Pelé. Os quatro gols do jogo, que terminou em dois a dois, só fui ver à noite, pela televisão.

***
O primeiro poema que fiz era para uma canção, que eu e o Carlinhos, do alto de nossos oito anos, fizemos à beira do tanque da casa de meus pais. A letra dizia: “Vem, meu pedaço de papel, um papel não muito comum, mas uma folha de amor, uma folha de amizade”. Dois pirralhos, nos anos de 1960, deveriam falar de mocinho e bandido ou de corrida de carrinho de rolimã, nada a ver com folha de amor ou de amizade, a meus olhos de hoje, pouco condizente com o mundo infantil, coisa de gente mais velha. Não sei explicar o meu espanto, contudo, fosse eu meu pai ou minha mãe, temeria pelo futuro de seu filho, que dava mostras de que envelhecia bem antes da hora.

***
 Viejo desnudo al sol, de Mariano Fortuny.
Rola por aí que a velhice chega quando você se dá conta de que não faz, há algum tempo, algo pela primeira vez. Mentira. Velhos fazem várias coisas pela primeira vez, muitas, é verdade, como um sinal da decadência física (é a primeira vez que não se enxerga nem com óculos, é a primeira vez que não se ouve bem, é a primeira vez... a lista é grande) e outras, ainda que não sejam novidade na vida de ninguém, como a oportunidade de fazer pela primeira vez sem tanta ansiedade, sem tanta ignorância.

Além do mais, no meu caso pelo menos, será na velhice que vou morrer pela primeira vez.

6.8.15

Dez ideias soltas para uso futuro

I
O pássaro é um diletante e canta ao léu suas mazurcas do instante.

II
Eu e minha mulher andando de mãos dadas pela rua movimentada do bairro, depois de assistir à sessão de cinema, é uma crônica pronta e inacabada.

III
O suicídio, a possibilidade do suicídio, é a questão filosófica, na visão de Camus. Todavia estar dentro ou fora da indústria do sucesso e vê-la ou como o espaço ocupado pelos inescrupulosos ou como o altar sagrado merecido por quem fez inúmeros sacrifícios pessoais são duas formas de dar valor absoluto a essa indústria. E a morte, o suicídio, inclusive, adora o sabor forte dos valores absolutos.

IV
Eu e meus amigos de adolescência não éramos exatamente flor que se cheirasse. Hoje, depois de a maioria de nós ter ultrapassado a barreira dos cinquenta anos, somos atuais, não envelhecemos antes da hora nem nos agarramos a uma falsa juventude. Agora, não sei se é uma coisa minha, mas sinto em nossos encontros esporádicos um cheiro de flor em plena intumescência.

V
Planos? Troco plano por sonho e imagino um mundo, o Brasil em particular, menos violento. Até que isso aconteça, quantas crônicas — ou textos, ensaios, o que for — encarniçadas teremos de escrever? Todos eles, provavelmente, nascidos de mais um episódio cruel. 


VI
Desfrutar um longo silêncio na companhia de meu pai é a maior saudade que tenho dele.

VII
O lugar do cachorro em nossas vidas está muito bem estabelecido. E o cachorro já achou seu canto na literatura há muito tempo. Baleia, a cachorra faminta de Graciliano Ramos, talvez seja o momento mais sublime desse encontro entre o cão e as letras. Eu li, já nem sei quando, Tantubá (Global Editora), de Luiz P. Cardoso (escritor de quem pouco ouço falar), livro que me marcou bastante. Não me lembro tanto dos detalhes, mas a história — um diálogo entre um morto e seu cachorro — explora a ideia de que os mortos continuam falando, sendo, entretanto, entendidos apenas pelos cachorros.Dia desses, Tiago Germano, escritor paraibano, me mandou um conto cujo protagonista é um cachorro, e eu mesmo escrevi outro que um escritor em crise chuta um cachorro na rua. Afinal, o que querem os cachorros?

VIII
Eu e meu amigo Leninho, também conhecido como Pombo, sempre ancoramos nossa amizade em um cais inalcançável. Ouvir música juntos foi — e é quando nos vemos, o que não tem sido frequente — o nosso jeito de dialogar. Ouve isso, e eu apurava os sentidos e ouvia. Sua vez, e ele, atento, ouvia. Certo dia, numa festa que durou sei lá quantos dias, a turma foi caindo pelos cantos, e eu e o Pombo vimos, sentados na varanda da chácara do Raul e do Chico, lá no horizonte, a lua se meter dentro de uma árvore. Foi nosso diálogo mais profundo.

IX
Fico mexido quando alguém lá da minha cidade diz uma coisa assim: eu vou de a pé. Ou outro em fala admirada: esse trem não avua.

X
O pássaro, esse diletante, borra o céu de tudo que é cor. E o céu se refaz em azul sem ofender o pássaro.

26.7.15

A segunda mãe


Não fui gerado metade num útero, metade noutro, não tendo sido, no início da década de 1960, quando nasci, nem uma aberração da natureza nem fruto de alguma experiência científica antecipatória do futuro. Assim mesmo, tive duas mães, o que me faz uma criatura um quase nada rara. A segunda, mãe afetiva. Afetiva, não adotiva. Sempre desfrutei da companhia de minha mãe biológica e, de certo modo, ainda desfruto, apesar de ela não transitar mais pela vida — por esta vida, dirão os crédulos.

Célia chegou a minha casa antes de eu nascer. Foi costurar para minhas irmãs, uma com quase dez anos, a outra beirando os cinco. Naquela época, as famílias confeccionavam suas roupas. Qualquer mãe prendada cosia para os filhos e, se não fosse talentosa ou carecesse de tempo, contratava uma ajudante. Foi o caso. Mamãe, boa de costura, mas atarefada com o trabalho de diretora de uma escola de economia doméstica, ao ver suas meninas crescendo, não pensou duas vezes e chamou a Célia para fazer-lhes uns vestidos. Seria trabalho para uma semana, Célia ficou conosco quarenta anos. Morreu em nossa companhia.

Solteira, Célia teve um fortuito namorico, um flerte com um radialista que lhe ofereceu música num programa vespertino: “Essa vai para a Rosa da Bonsucesso”. Célia Rosa, moradora da rua Bonsucesso. Sem talento para o matrimônio, dedicou-se a meus pais, a mim e a meus três irmãos — com o tempo ainda teve fôlego para os netos de meus pais e para o seu sobrinho. Foi costurando roupas novas e reformando as velhas enquanto minhas irmãs completavam onze, doze, os emblemáticos quinze anos, até que a indústria tornou inútil uma costureira no domicílio, pondo tudo pronto e à venda na butique da esquina. Nesse momento, Célia deixou a figura de costureira para ocupar um espaço indeterminado. Uma vizinha, Celina, gracejava: em Passos, éramos a única família com uma governanta. Célia nunca foi governanta. Intuo o que pode ter significado para meus pais e irmãos, mas não posso afirmar com certeza, não com a mesma com que afirmo que para mim ela foi uma segunda mãe.

Uma segunda mãe, por definição, entra em confronto com a primeira. Haydée, apesar de todos os seus medos, me jogava para a rua, apostava na minha independência, sempre com o olho em meu futuro. Célia, sem a preocupação de me educar, oferecia o colo. Minha mãe biológica me colocava de castigo, a outra me tirava ou entrava nele e o transformava num tempo amistoso, bom de ser vivido. Nas viagens sem fim de meu pai, nas tormentas barulhentas caídas do céu, nos dias de crime na cidade, Haydée pedia minha mão, meu conforto, alterava, desse modo, nossos papéis e passava a ocupar o lugar de filha. Célia parecia não temer nada, nenhuma tristeza a atingia: doação em estado de absurda pureza.

Vivendo assim entre dois modelos tão distintos, eu poderia ter enlouquecido de vez, mas não, acho que não atolei na lama da sandice, sequer tornei-me um inseguro em grau doentio. As duas mães me deram a chance de conviver, desde cedo, com carinhos de forças opostas, que, ao puxarem a brasa cada uma para o seu lado, abriram uma pequena greta no terreno de minhas emoções. A fenda é um bom lugar a partir do qual um escritor pode vir à luz — especulo, aqui, fora de contexto e insinuando um tímido segundo sentido à frase. 

A outra figura feminina acomodada em meu altar da maternidade me transformou de que em que, não sei, mas eu seria outro caso fosse filho de mãe única. Digo isso ou só isso. Não é pouco. Na realidade é muito.